09 setembro 2013

Texto crítico de Humberto Farias para Bete Esteves



MOVENTES


“Experimento o objeto, faço de seu movimento minha experiência dele, nele – assim apreenderei um absoluto” (Henri Bergson)


A exposição Moventes, que Bete Esteves apresenta na Galeria de Arte do Instituto Brasil Estados Unidos, é fruto de uma investigação artística dentro da qual vem desenvolvendo trabalhos transdisciplinares em suportes como vídeo, fotografia, instalações e dispositivos eletrônicos, e que lhe valeu o prêmio do Salão de Artes Visuais Novíssimos. Em sua pesquisa, Bete Esteves desenvolve máquinas que oferecem a possibilidade de situações lúdicas, fantasiosas, no meio físico real, máquinas que têm sua função no meio humano deslocada: de produzir serialmente objetos funcionais, para mediar proposições artísticas por intermédio de procedimentos mecânico-poéticos. São máquinas artísticas que encontram seu território de experiências e trocas no antagonismo das concepções racionalista e econômica do século XVII, subvertendo o tempo de produção, são máquinas que trabalham, independentemente de elas funcionarem ou não; elas operam, articulam um conjunto de conexões variáveis, produzem movimentos ou ausência de movimentos, sejam eles frutos de destruições ou de articulações formais ou estéticas.

Fumus Boni representa uma espécie de síntese da pesquisa artística de Bete Esteves. A obra é composta por duas máquinas que produzem e emanam jatos de fumaça, as quais são colocadas frente a frente, promovendo uma confluência dessas massas de fumaça, em um encontro que propõe como experiência estética a possibilidade de fruição da efemeridade da matéria fumaça em um tempo duradouro, o da poética – reflete, assim, sobre aproximações e analogias com as relações vividas no cotidiano, representadas simbolicamente pelo encontro sutil, pueril, fluido e fugidio das massas de ar. Desta maneira, Moventes é o reflexo de uma produção artística que se vale do movimento contínuo, seja ele físico ou fantasioso: no elevador que sobe, no poste que gira, na fumaça que condensa, no gelo que derrete ou na poeira que se adensa. Pode-se dizer que, em sua investigação poética, a artista contamina-se com algumas das ideias de Henri Bergson sobre movimento e tempo. Bergson refere-se à duração como uma soma de momentos que forma um único tempo coeso, oposto ao tempo físico, possível de ser mensurado. Assim, o tempo da experimentação, ou tempo vivido, é incompreensível para a inteligência lógica, por ser qualitativo, enquanto o tempo físico pode ser analisado e calculado, por ser quantitativo. O tempo, ou melhor a duração, na obra de Bete Esteves, requer um tempo com qualidade, um momento especial de contato com elementos quase imperceptíveis, com informações mínimas, que convidam à imersão em um universo a meio caminho entre o espaço terrestre e o celeste, que nas palavras da artista é denominado como "canteiro de constelações".

Ao longo de toda a história da humanidade, sempre houve máquinas e elas sempre foram substituídas por outras, cada vez mais eficazes. Em Fumus Boni, a fumaça é tão efêmera quanto a máquina que a produz; e é a relação de tempo qualitativo criada que torna perpétuos os elementos em princípio considerados efêmeros. A relação das máquinas coletoras de poeira, que captam as partículas do ar e as adensam, para que em seguida elas sejam dispersadas novamente no ar, em Puerile, é tão cíclica quanto a da condensação da água e do derretimento do gelo na obra que alude ao cruzeiro do sul, Constelações Solúveis. A obsolescência das máquinas e tecnologias de mídia atuais impõem à proposição artística um movimento cíclico –  criar, findar e recriar.  O que fica é a potência simbólica da poética exercida pela máquina, cujo produto alcança o fruidor por meio do encantamento que exerce sobre ele e da possibilidade de encontros fortuitos que indicia.


Humberto Farias