Ponto de Queda - Texto de Cesar Kiraly para individual de Bianca Madruga

Do leste vieram pássaros
rápidos leves
nem sombra nem rastro
deixam:
apenas passam. Não Pousam




Vôo onde ninguém mais – vivo em luz mínima



1. Esta montagem é um tanto enigmática. É como se eu fosse presenteado com um caderno, para anotar as idéias que porventura surgissem, como se isso já me tivesse acontecido antes, mas o caderno não tivesse sido usado para nada, só que dessa vez, neste retorno, do eterno, não houvesse qualquer caderno. Sabe que sensação é essa? Não é completamente incomum, porém é difícil de explicar de modo não alusivo. A alegoria que me ocorre é que voar se aprende, quando se aprende, a partir do ímpeto de estar em plena queda. Por isso é o caso de admitir que não é bem um sentimento, mas um estado, um modo, e não a relação com um objeto. Sabe o que se sente quando se faz algo que só dá para ser feito ao não se pensar no que se está fazendo? Digo, fazer bem, como que faz bem tricô? É isso. Esta montagem tem que ver com uma sensação suspensiva. E todos os versos deste texto são de autoria da Orides Fontela.

2. Há quem diga que é preciso crer. Mas ousaria sugerir que pouco ou nada disso tem que ver com a crença. Essa confusão se deve a ser mais fácil o caminho, ao ponto de queda, convencendo-se de uma coisa só, por mais absurda que possa parecer, Tertuliano dizia que quão mais absurda melhor, do que, oras, primeiro crendo e depois descrendo em objetos diferentes. Os efeitos positivos da crença, de ter uma crença, devem-se, nada mais nada menos, à proximidade com nada crer. Não é crer em nada. Apenas, uma vez preenchidas as condições, por assim dizer, alçar a algo, no campo semântico de suspender.


3. Acho que tudo enquanto está atinge este ponto, este estado de queda. Aquele em que voar e cair é o mesmo. Em que subir e descer é o mesmo, para lembramos do Heráclito de Éfeso. A Bianca, por sua vez, gosta de tal dificuldade, diria que ela crê neste ponto e monta sobre ele uma metalinguagem, como fez Barthes em seu belo curso sobre O Neutro. Por isso o aspecto enigmático da montagem, ou da performance a abandonar a posição de espera, numa espécie de certeza de que se está caindo.

4. O espaço está escurecido. É importante que a luminosidade interna seja tomada como a repetir a relação de um mesmo sol com dois sólidos. A sombra projetada, quase sombra nenhuma, indica uma hora, senão um dia, pelo menos uma época do ano, um outono acontecido. Por sua vez, o sol aqui não é bem uma metáfora da estrela que brilha do lado de fora, não exatamente, mas outra, um tanto parecida, porque as paredes da galeria são ligeiramente movidas para o lado, apenas alguns graus, a direção do sol que ilumina as elevações internas é delicadamente inclinada. A mudança nas sombras pode ser sutil, porém os efeitos cósmicos são expressivos. Na concorrência entre o sol de dentro e o sol de fora é justo aceitar que o tempo não é mais o mesmo, a precisa mesma hora. Entre o dentro e o fora se ganham ou se perdem alguns instantes. A entrada e a saída acarretam numa suspensão, alguma coisa entre a queda e o vôo.

5. As elevações iluminadas são curiosas. Elas não são ereções no escuro, no sentido empregado por Raquel Versieux em Antes da Última Queima, isso porque não é a verticalidade, pura e simples, o mais importante, salvo em seu aspecto inicialmente simulado. Lá não havia desmoronamento possível, uma vez que toda estrutura, vazada por dentro, havia se tornado densa pela secagem da água usada como aglutinante. Aqui o sólido é inteiriço e é sustentado tão somente pela compressão de suas partículas. A mesma mistura terrena grosseira de sempre, mas em cujos átomos não há qualquer auxílio para que parcialmente se engulam uns aos outros. Lá não havia fim ou começo, ainda que todo esse carvão e fumaça possa conosco acabar tão serenamente quanto à uma família de brasileiros passando férias em país frio. Aqui o desafio é a admiração com as frágeis e belas estruturas de vôo que são puro equilíbrio, quase ilusionismo, porém sem promessa de transformação. Elas só não podem ruir inteiramente, porque são ruinas desde sempre. Donde a arbitrariedade em apontá-las em queda ou vôo. A densidade existe só porque é um simples capricho.
 

6. Ninguém melhor do que Nelson Goodman aborda os impactos de tais dificuldades suspensivas que Bianca explora em seu trabalho e que mesmo assume como uma ética. O primeiro é a necessidade da admissão de mundos no plural, atuais e convivendo, dividindo partes, nem sempre pacificamente. O segundo é que os mundos se fazem uns dos outros, como paráfrases, por mais originais ou cheirando a novos que possam ser. Os mundos, noutras palavras, se recontam pictoricamente e linguisticamente.  O terceiro, este ainda mais importante para este Ponto de Queda, é a estrita convenção que diferencia o movimento aparente do movimento real. Se nos forem apresentados, simultaneamente, momentos diferentes, ascendentes ou descendentes, das elevações, vamos vê-las se movendo, de forma semelhante ao assistirmos todas as etapas do desmoronamento ou incremento em direção ao céu. Se o mundo da queda é outro que não o mundo do vôo, ambas são, mesmo assim, derivações do estado suspensivo do qual dependem. Não é que todo movimento seja aparente ou que todo movimento seja real, mas que tal referência, tal morada entre parênteses, é comum a tudo, porque tudo se move, em todos os mundos. O movimento está antes da última queda.

 
matar a luz elimina
o limite

 
7. Algo semelhante é possível de ser reparado no tempo. Ele nem é absoluto, de tal maneira que, para todo os mundos, haja uma trajetória progressiva e linear, e nem é relativo, a ponto de existir uma realidade sem tempo. A evidência de que ele passa diz respeito às marcas da mudança, na maior parte das vezes, aos sinais de decadência e renovação, desde uma referência. Nada mais comum que se valorize ao extremo os segundos, num mundo que tenta resistir à exploração do trabalho, ou falta dele, ao passo em que idealiza os modos da eficiência. Assim, sem movimento, sob a simulação, na dinâmica expositiva, de um eterno meio dia, no que diz respeito à relação com o sol, não há tempo, não do lado de dentro. Mas sempre há tempo. Ele será vivido a ponto de queda, tendo as partículas adensadas como ampulhetas, como clepsidras de areia. Elas e a sensação da circulação do sangue pelas veias, a queda, por ventura, dos cabelos e dos cílios, a perda, gradativa, do vigor das pernas, a reviravolta dos ácidos, apontadores da fome, a secura da boca, como índice da possível sede, a oleosidade acumulada da pele, todos esses movimentos do tempo mínimo, mas não pelo deslocamento da sombra projetada pelo sol.    



Cesar Kiraly é professor de Estética e Teoria Política à UFF. Desde 2015 é Curador da Galeria IBEU. Autor, dentre outros, de Fuga sobre o Branco [ ].

Ponto de Queda - Bianca Madruga


Se ao meio-dia a luz intensa faz cegar, como se comporta a visão à meia-noite? Pensar o tempo a partir do espaço é uma das propostas da exposição "Ponto de queda", da artista Bianca Madruga, que será inaugurada no dia 4 de dezembro, às 18h30, fechando o calendário de 2019 da Galeria de Arte Ibeu. Com uma instalação, a artista utiliza o próprio espaço da galeria e elementos como relógios solares, som, luz e escuridão. Além disso, utiliza as medidas do mundo para pensar as do próprio trabalho: peso do corpo, duração das horas, distância das coisas, velocidade da luz. A curadoria é assinada por Cesar Kiraly. 

“Ponto de queda” faz parte do conjunto de trabalhos diurnos da artista, que têm se desenvolvido a partir da ideia de horizonte, não apenas em sua ambivalência – no que diz respeito às noções de tempo e espaço -, mas, principalmente, por se tratar do modo como um povo pensa coletivamente o que está por vir. As estruturas apresentadas por Bianca carregam consigo um certo drama, a partir da ideia de queda. São estruturas feitas de pó, que devem se sustentar em uma lógica avessa a de uma construção. 

“Um monte de cimento ou areia, pedra, que como um poste, aspiram a verticalidade. É preciso imaginar isso. Vai ruir, mas não dá para saber em quanto tempo. Muito por falta daquilo que aglutina", analisa. 

"Parece bonito pensar que para que se vença a gravidade é necessária essa matéria aglutinante - talvez uma ou duas doses de água -, e que apenas a mistura bem cuidada desses elementos poderia trazer a dureza que os faria ascender. A matéria vai cair. Espera- se que caia. Espera-se desta vez, ao invés de olhar para o alto, que se olhe para o chão. São esses os primeiros desejos para essa exposição”, finaliza a artista.    


SOBRE A ARTISTA: 

Bianca Madruga é artista visual. Vive e trabalha no Rio de Janeiro. Doutoranda em Artes Visuais na UERJ. Formou-se em filosofia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Artista Visual e Mestre em Estética e Filosofia da Arte pela Universidade Federal Fluminense. É fundadora e cogestora do espaço A MESA, no Morro da Conceição, desde 2015. Sua produção tem sido orientada a partir de duas práticas: práticas do meio-dia e práticas da meia-noite.


“PONTO DE QUEDA” 

Exposição de Bianca Madruga encerra calendário de 2019 da Galeria de Arte Ibeu
Abertura: 4 de dezembro (quarta-feira), às 18h30
Visitação: 5 de dezembro a 10 de janeiro de 2020
Funcionamento: segunda a quinta-feira, das 13h às 19h (às sextas, de 12h às 18h)
Recesso: 24/12/2019 a 1/1/2020 

Local: Galeria de Arte Ibeu
Endereço: Rua Maria Angélica, 168 - Jardim Botânico
Tel.: 3239-2863
ENTRADA FRANCA

Edital Galeria Ibeu 2020


Edital Galeria Ibeu 2020

A Galeria de Arte Ibeu faz saber que, durante o período de 18 de novembro a 8 de dezembro de 2019, estarão abertas as inscrições para o Programa de Exposições Galeria Ibeu 2020 que contemplará propostas de Exposições Individuais a serem realizadas na Galeria de Arte Ibeu no período de março de 2020 a março de 2021.

As inscrições serão realizadas unicamente por email. Envie seu projeto para o seguinte endereço: editalgaleriaibeu2020@gmail.com

Clique no link abaixo e acesse o Edital e a planta baixa da Galeria:


Você pode também clicar nas imagens abaixo e salvar o edital e a planta baixa em formato de imagem:



Para facilitar o envio e o preenchimento da FICHA DE INSCRIÇÃO, pedimos que os artistas respondam os itens abaixo e enviem junto com o seu projeto expositivo.

Você tanto pode utilizar um documento Word ou, simplesmente, copiar e colar suas respostas no corpo do email. Não há "design padrão" para preenchimento da FICHA DE INSCRIÇÃO. Ou seja: o artista não será "desclassificado" pela forma de envio da Ficha.


FICHA DE INSCRIÇÃO – Edital Galeria Ibeu 2019


DADOS PESSOAIS

Nome do artista:
Data de Nascimento:                                
Telefone e Email:
Endereço:


TÍTULO DO PROJETO

BREVE DESCRIÇÃO DA PROPOSTA EXPOSITIVA APRESENTADA




Boa sorte a todos!

Venezia - Texto de Cesar Kiraly para a exposição de Bruno Tamboreno


O inconsciente estético, consubstancial ao regime estético da arte, manifesta-se na polaridade dessa dupla palavra muda [...] surda de uma potência sem nome que permanece atrás de toda consciência e de todo significado [...]. Jacques Rancière, O Inconsciente Estético, p. 41.

1. Mais do que isso era julgar estar diante de uma prática que lhe deixava à mercê de si mesma, por implicar saltos e estalos vindos de não sabia de onde, porém de uma sorte de dentro. Além da forma de conceber os objetos de modo a que manifestassem não só um predicado dentre muitos, tendo que ser muita coisa, valendo-se de quase tudo. A pintura, o desenho, a gravura, o carvão, posto que sempre havia olhado para si em sua habilidade, jeito, como se diz. A fabricação de suportes, modos expositivos, invenção de materiais, controle do sentido por eles manifestado, idéias e seus ruídos no estado dos acontecimentos do mundo. Não só ter uma máquina, mas um livro, um autor inteiro, dentro de si mesma, capaz de aproveitar os fluxos de consciência por dentro, por vezes, como um aliado, noutras, como um deus enganador. Um que estaria extasiado com todas as topadas em cujas quinas haveria colocado seus joelhos, mas também um mundo passível de ser usado com as mesmas liberdades da imaginação, na lida material, na aquisição de ênfase artística, só que com todos os percalços da aceitação e do prestígio, e suas, inevitáveis, trocas manipuladoras.

2. Até então, podia permitir tal enovelamento, de estados artísticos, à sua vida inconsciente, no ambiente que habitava, pacientemente, porque havia sentido que a profusão de objetos, e meios disponíveis, era, para ela, sem esforço, circunscrita. Aquilo que atendia, por embebimento conceitual, dizia respeito, por agora, pelo menos, ao reconhecimento de artefatos descobertos dentro de casa. A mescla ao silêncio se daria, no acendimento, a partir do reconhecimento da coisa sua, e sobre ela repetiria infindamente, até se satisfazer, com tê-la, em desenho. Assim cozinhava seus papéis à cozinha e mais as matrizes na alquimia de fibras e reflexos metalizados. Essa técnica tão pouco apropriável, para ela, por um tempo, que fosse, seria a vida na alteridade, desde que suas digitais estivessem em tudo que surgisse naquele estúdio.


3. Além dos objetos silenciosos havia Bruno. Ao mesmo tempo em que não se punha rival dos artefatos era parte daquela intimidade. Se não o desenhava, pelo menos não naquele inteiro processo de repetição e gravura, seria fundamental que estivesse ali dentro. Bruno, por sua vez, na sua própria lida íntima, precisava capturar as pessoas e as coisas em movimento cotidiano. O fato de que aqueles entes esperavam que lhes desse assentimento, por alguma razão, tornava-os, para a relação que com eles queria manter, menos interessantes. Não lhe era necessário tê-los disponíveis, que não resistissem à repetição, ele os elegeria e deles se apropriaria pelo revolvimento no vulto passante. As pessoas teriam as suas aparências tratadas como descobertas e não poderiam se saber observadas para que fosse atingido fulminantemente. Bruno não poderia ser invertido, nem desenhado, nem feito em gravura, uma vez que teria se tornado uma criatura ótica por demais perversa em seus próprios meios. Dentro, ao mesmo tempo, estaria todo do lado de fora. Além dos limites das paredes e ainda a acolher estranhos.


4. Ele dizia para ela que a janela era como uma escotilha e as localidades como imensos conglomerados de terra assistidos pelo mar. Por isso todas as cidades seriam como Veneza. A italiana apenas representaria explicitamente o que de modo sutil estaria por todos os lados, não só por causa do aquecimento do planeta, mas como uma condição do deslocamento das pessoas. A vida, do lado de fora, se apresentaria como um dia em que a atmosfera está muito pesada, em que todos sabem que vai chover, e são indiferentes, até que atingidos pela pesada primeira gota, ou como aquele casaco transpassado na bolsa, que depois será notado pela dona como tendo que ter caído, afinal. Esta era a maneira doce de dizer que assistia aqueles que caminham enquanto não se tomam afogados. Ela reagiu dizendo que os objetos dentro de casa não ignoram que o tempo passa, que a pressa que sente ou a falta dela, não tem que ver com se desprezar essa condição. Se as construções são vistas detidamente, está sempre lá, nelas, mesmo se reformadas, aquela marca do ponto mais alto da água acumulada, mesmo com as oscilações das marés. Ele insistiu que a questão não era diferenciar o dentro do fora, porém perceber que na vida, não tão secreta, dos transeuntes, nada os protege de a tudo, ou a quase tudo, perceber. Ainda que só passantes inconscientes, sempre sabiam, sem admitir, que as pernas se movem cada vez mais lentas, que há cada vez mais líquido para mover. Por isso que o importante, para ele, seria acumular camadas de tempo, como se fossem mostrados todos que cruzaram um ponto ou as partes dos que passaram, e ainda os artefatos silenciosos, como ele, que se sabiam observados, porventura invocados ao se lembrar deles. A sobreposição de imagens atravessando o mesmo caminho, alcançado desde a janela. O tempo então também poderia ser dividido entre telas como a demonstrarem oportunidades diferentes de aprofundamento. Além de que seriam como uma medida da água que sobe. Quão mais numerosas, mais fundo está. O mero instante fotográfico não daria nada disso, só o instante, que não explica nada sobre ver a inundação das gentes, nunca esta sorte delicada de desenvolvimento. As divisões são como marcas à porta no acompanhamento do crescimento das crianças.


5. Bruno a ela dizia que todas aquelas pessoas dentro de casa era o modo como encontrara para não fazer como Aschenbach ao jovem Tadzio. Porque assim não haveria porque perseguir os passantes em Veneza. Ora, não importa quantas vezes mais seria visto com água pelas canelas, ignorando-a, mas que seria ridículo correr atrás das pessoas. Isso demostraria que confundiria entre a necessidade de se distrair da umidade, aparecendo nas paredes, e algum tipo de apaixonamento. Dito isso, pensaram, ao mesmo tempo, que o fino equilíbrio seria interrompido no momento em que faltasse espaço para todas aqueles desconhecidos, por agora, redirecionados para ver justamente aquilo que ignoram. A Morte em Veneza, como descrita por Mann, ou montada por Visconti, poderia muito bem ser vivenciada ali, até que nenhuma lembrança fosse mais guardada na água. Para toda alma de um objeto invertido haveria um bem disposto dono transeunte. Quem sabe assim as vozes cessassem, ela o perdoasse e tivessem o silêncio da casa de volta.

6. Bruno deixara esta nota sobre uma série de xilogravuras separadas. Ela a encontrou na manhã em que deveriam deixar a cidade em que moravam e a partir da qual se isolavam e entendiam a inconsciência dos outros em si próprios e rumariam a outra em que o mar os oprimiria por todos os lados. Na citação, lembrou cuidadosamente de dar o crédito do conto A Casa Inundada ao uruguaio Felisberto Hernández:

Eu me cansava de ter esperanças e levantava os remos como se fossem mãos entediadas de contar sempre as mesmas gotas. Mas já sabia que, noutras voltas do barco, terminaria a descobrir, uma vez mais, que esse cansaço era uma pequena mentira misturada a um pouco de felicidade. Então me resignava a esperar as palavras que me viriam daquele mundo quase mudo, de costas para mim, deslizando com o esforço de minhas mãos doloridas.



Cesar Kiraly é professor de Estética e Teoria Política à UFF. Desde 2015 é Curador da Galeria IBEU. Autor, dentre outros, de Fuga sobre o Branco [ ].

Venezia - Bruno Tamboreno


VENEZIA
Bruno Tamboreno
Galeria de Arte Ibeu inaugura exposição inspirada no cotidiano do Centro Histórico de Porto Alegre 
Abertura: 10 de outubro (quinta-feira), às 18h30 

A cidade vista pela janela do atelier do artista gaúcho Bruno Tamboreno, no Centro Histórico de Porto Alegre, inspirou a exposição Venezia, que será inaugurada no dia 10 de outubro, às 18h30, na Galeria de Arte Ibeu. Sob curadoria de Cesar Kiraly, a mostra apresenta um recorte da produção de Tamboreno nos últimos três anos, com trabalhos que dialogam dentro de uma mesma estrutura poética e que utilizam a linguagem do desenho e da gravura.  

A atmosfera urbana, que foi gradualmente influenciando o processo de criação do Tamboreno, tornou-se uma referência determinante na prática artística. Desta forma, é a partir da relação entre o espaço de criação e a cidade que o artista vê emoldurada pela janela é que o repertório de imagens é construído, a partir de fotografias feitas do sexto andar. Transeuntes, o mobiliário urbano e todo o ambiente da praça a qual Tamboreno vê diariamente servem de inspiração para as obras. 

“Apesar da nossa falta de percepção dada pela rotina, o ambiente está em constante mudança e remodelagem. A noção de transformação, acúmulo, apagamento e passagem do tempo, presentes no ambiente externo, se desloca para o modo como construo minhas imagens que, por sua vez, representam o indivíduo inserido em uma coletividade que se enreda e harmoniza nesses possíveis cenários urbanos”, explica o artista, que foi aprovado pelo Edital de Exposições Ibeu 2019.

Através dos desenhos e gravuras de Venezia, ele propõe ao espectador adotar um olhar mais próximo e atento ao seu entorno, que passa despercebido durante a experiência cotidiana da cidade e seus agentes sociais. Segundo o curador Cesar Kiraly, a exposição explora o recomeço diário da vida, acompanhada pela melancolia do inevitável desaparecimento. 

“A cidade é assediada à distância, pela janela do ateliê. Ela é linda e vibrante, e a cada segundo é inundada com novas gotas de desaparecimento. Apesar de escolher tipos, os desenhos e as gravuras são menos sobre pessoas e mais sobre o efeito do movimento ao qual são induzidas. A elas, por vezes, sobrepõe com fantasmas do ambiente interno do qual assiste”, analisa Kiraly. 


VENEZIA
Abertura: 10 de outubro (quinta-feira), às 18h30 
Visitação: 11 de outubro a 8 de novembro de 2019
Funcionamento: segunda a quinta-feira, das 13h às 19h (às sextas, de 12h às 18h)
Local: Galeria de Arte Ibeu
Endereço: Rua Maria Angélica, 168 - Jardim Botânico
Tel.: 3239-2863
ENTRADA FRANCA


Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo - Texto de Cesar Kiraly para a exposição de Rick Rodrigues


1. Aquele tipo de imersão parecia impossível a olhos como os nossos. Olhos como os nossos? Sim, do tipo que buscam a transparência para encontrar a rua, a vida dos outros na superficialidade da passagem. O tipo que não suporta tanto o entorno, enquanto está silêncio. Além de ser de si sobre quem fala. Olhos em que os acontecimentos são motivados por interesses e nada é tudo isso, para o bem e para o mal. Aquele tipo de imersão lhes era possível, apesar de tudo.

2. O título Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo remete à obra do Manoel de Barros. Com ele Rick nos indica que há algo a se compreender no seu trabalho que pode ser atingido de modo incidental, ricocheteando no poeta. As afinidades são imediatas. Ambos privilegiam a expressão por um miúdo universo de partículas sem relevância evidente, ou pré-Manoel. A poesia repleta de sons curiosos e núpcias antinaturais entre animais e brisas, plantas e pessoas e Rick com suas casas à moda de ontem proliferadas em aquecimento afetivo,  metamorfoseadas entre pássaros e quase pessoas. Ora, até aqui não há desvio, as analogias e influências são claras como o dia. Esse caminho fácil nos induz a comer a isca e acabar despistados. Manoel e Rick estão juntos no ínfimo, mas o ínfimo não é isso.


3. A recepção à poesia do Manoel de Barros é curiosa. Ela não recebe a atenção significativa e estável como as do Drummond e Bandeira, ou Eucanaã Ferraz e Marília Garcia, para dar exemplos vivos, mas transitou entre total escanteio, descobrimento entusiasmado, histeria e indiferença cínica pelos poetas. Isso permitiu a ele a independência de tipos obscuros como Lúcio Cardoso e Mario Peixoto, porém com ampla inserção, a partir de certo ponto. Sua poesia não só é lida, como influencia conceitualmente filósofos e artistas visuais, principalmente porque compõe uma densa poética de complementaridade entre significados infantis, loucura e formas de vida aproximadas à terra. Não se trata bem de uma literatura, se é que faz sentido, ecológica, mas da simbiose entre o corpo, a consciência, que se perde, e as coisas, nas quais se desmancha. Ele compõe um plano de pureza infantil no qual afetos, que teriam ficado para trás na urbanização, são passíveis, ainda, de ser encontrados em uma vida mais devagar e atenta aos detalhes, aos restos.

4. Se repararmos bem na dinâmica de Manoel e Rick nos ocorrerá que ela não é onírica, propriamente, nas associações que faz. Não se trata do mundo do sonho, em que imagens são antecipadas para que possamos nos acostumar emocionalmente com elas. Tenderíamos a dizer que os quadros são movidos segundo uma lógica esquizo, como diria o Deleuze. A pictorialidade está nas composições oníricas e nas esquizos, a primeira é sobretudo sobre a cor e a formação da imagem, a segunda, contudo, é sobre a gradação das repetições, pouco importando a novidade. Dificilmente se encontra poeta tão fiel aos seus círculos como o Manoel. O mesmo pode ser dito sobre o Bispo do Rosário, Leonilson, a partir de certo ponto e Pedro Moraleida. Esta individual é menos sobre procurar algo e mais sobre repetir um processo.


5. A dimensão mais ignorada da obra do Manoel, em virtude da ternura provocada pelos seres de sua fauna, é a fina extensão da crueldade a acontecimentos miúdos. O ínfimo é repleto de destruições e acoplamentos deformadores. E pouco ou nada sabemos deles porque somos hipnotizados pela histrionia dos eventos industriais e mecânicos em suas lidas aniquiladoras. A pequena, em beleza, nada deve à grande ruína. O resultado poético não elimina que se trata de encanto pela capacidade de resistência e de sobrevivência. Rick é atento a essa questão ao buscar proximidade com o Manoel. O Manoel do Rick é polimorfo.

6. As séries do bispo do Rosário são diário de uma tortura linda da qual não pôde escapar. Algo semelhante está nos efeitos das máquinas de costura da Diane Sbardelotto. Afinal, Manoel é sobre a devoração de caranguejos e marandovás pelas formigas, a ironia de aceitar ser chamado de imbecil como um elogio, sobre a loucura de se falar o idioma dos urubus e depois ser exilado a viver entre pessoas, ter um olhar distorcido, sobre a possibilidade das pedras deterem “rascunhos de pernas de grilos” e “asas esmigalhadinhas de borboletas” como origem do tingimento azul. Um modo de descrever esse procedimento é dito por Manoel e serve ao trabalho do Rick: “Meu requinte / é chegar à vilezas / com castidade.” A crueldade, pelo animismo, embeleza o mínimo. 


7. Ao comparar a nossa realidade com a dos países europeus em carniçaria, Lobato dizia que não precisávamos invejá-los, primeiro, porque é melhor não ter guerras do que tê-las, pelo menos naquelas proporções, além de que a nossa maneira de nos divertir destruindo seria muito mais bonita. Ao invés de imensos desastres humanitários, a maldade, à época pelo menos, se pulverizaria mínima em eventos. Porque se o mal é menor em tamanho, ele se torna melhor em acabamento. Seria encontrado em quase tudo, não sem lírica, nas miudezas naturais e sociais. Na intensidade, provavelmente, não seríamos nem melhores e nem piores, mas, com certeza, mais minudenciosos em colocá-lo nas relações. Se esse mundo velho não existe mais, pelo menos é possível se compor com ele.

8. Não se costura impunemente. A costura, inclusive à máquina, é uma atividade menor. Mesmo se as costureiras são escondidas, como na produção industrial ou na alta costura, é sempre a costura que está em questão. Os cortes podem ser os mais variados, ela, mesmo sob exploração, insiste, para si ou para outrem, como tentativa de autonomia. É assim nos mantos do Bispo, nos parangolés do Oiticica, nas roupas torturadas da Diane e nos bordados do Rick. Ainda que não seja o ponto, a sutura é de gramática feminina, o início da um jeito de insistir. Deleuze disse Kafka autor de uma literatura menor, por usar um alemão parte cartorial e parte ídiche para reinventar a escritura moderna. Kafka é um suturador menor. É como Rick e seu bordado, compondo-se com as miudezas.



Cesar Kiraly é professor de Estética e Teoria Política à UFF. Desde 2015 é Curador da Galeria IBEU. Autor, dentre outros, de Fuga sobre o Branco [ ].

A chave de casa - Texto de Cesar Kiraly para exposição de Caroline Veilson

 

1. Apesar das imensas qualidades do romance da Tatiana Salem Levy, importa-nos apenas uma dimensão. Ela aborda o fato dos antigos sefarditas de Portugal, dos quais é descendente, depois da expulsão, no séc. XVI, levarem consigo as chaves de suas antigas casas, na esperança de um dia retornarem. É um tipo de lenda até que descobre que seu tio era possuidor da chave da casa de Lisboa. O livro é muito mais do que isso, porém nos é relevante referir a uma casa que tenha ficado vazia.

2. Vazia não é bem o caso, porque é provável que tenha recebido novos donos. Algo semelhante é descrito por Lanzmann. O comunismo na Polônia assenta um sem número de famílias pobres nas inúmeras casas boas, com saneamento, que haviam ficado sem moradores. A maioria dos novos donos se importavam pouco com a memória de suas novas moradias. Os proprietários agraciados, a não ser de modo muito abstrato, atinente à extrema sensibilidade, não tinham nenhuma responsabilidade pelo esvaziamento das ótimas residências. Afinal, nada mais justo do que a permissão à pessoas sem casa de morarem em imóveis agora sem donos.


3. Dentre as preocupações finais de Derrida esteve o conceito de hospitalidade. O desenvolvimento do tema participou das muitas convergências que buscou com o trabalho do Emmanuel Levinas. Em suma, a hospitalidade é uma bela virtude justamente por causa do seu risco. Ela é quão mais meritória na proporção mesma em que se desconhece o hospedado. A aceitação do abismo significa um novo mundo. Mas e o inverso? A matriz da gravura? Alguém poderia ser hospitaleiro sem antes dizer sim aos donos que se foram? Seria possível dizer sim a quem chega sem dizê-lo a quem saiu? Digamos, ainda estão os entalhos da porta, as marcas no chão dos caminhos mais percorridos, alguns móveis, quem sabe, marcas de prego no batente e objetos. Ou, numa acepção mais esfumaçada, se os traços foram deliberadamente apagados, como hoje se faz, na adequação, ainda restasse uma aura, uma sentença não dita, um eco, um fantasma. Como ficaria? A hospitalidade precisaria receber esse estranho hóspede? Não seria este o verdadeiro abismo? A hospitalidade não teria a sua condição em uma dívida?

4. A Chave de Casa nesta individual da Caroline Veilson não propõe alterar o sentido da hospitalidade e sim o expandir. A questão é receber os obrigados ao deslocamento e os rastros dos deslocados, claramente passíveis de despertar afetividade. A disponibilidade às almas desalojadas é uma bela resposta aos maus sentimentos não mais reprimidos. Aquilo deles que é deixado, torna-se precioso para quem o encontra. É o amor aos vestígios que nos dá um sentido.


5. Não estamos completamente à mercê dos desvãos impostos pela autoridade. A memória, o testemunho e o acolhimento ao estranho dota os seus praticantes de uma bela capacidade de deslocamento. Um curioso modo de ser nômade, portanto. Se não aqui, lá. É possível que o que não puder ser levado seja amado e conhecido. Uma escola prática da necessidade de receber. A coragem de preservar não pode tudo contra a expulsão, mas ela pode muito. Porque se trata de laço ainda mais bem atado do que o familiar. A relação entre a matriz e o papel não é como mãe e filho. Ela é a posição de quem se apropria dos artefatos deixados e os explica aos descolocados que acabam de chegar. A impressão é o outro acolhido e a matriz não é sua família, porém aquele que é portador de objetos que possuem uma história que não é a sua. Ou que é sua por adoção. A matriz é como quem se converte a receber o outro a partir do amalgamado entre o que é seu e o que adotou. Ela é tão somente um amontoado de traços. No somatório afetivo a matriz parece de um outro mundo. Ou pelo menos como pertencente à transição entre mundos.


6. O cabideiro tem que ver com a carnalidade das roupas, a lida comunitária delas em um lugar, mais de uma pessoa, casal, trajes de muitas cores e tamanhos, cintos, gravatas e cachecóis. Como querer um ente tão espaçoso? Ele precisa de entorno, para si e mais os volumes que ostenta. Poderia ser dito uma espécie de meio biombo, uma vez que mata um canto e se alonga. É difícil de imaginar um mundo em que ele pudesse ser colocado no centro de um cômodo, como um totem estranho e primitivo. A mesma coisa para os guarda-chuvas com valor, que podem ser reparados. A chuva nem mudou tanto, como também se molhar nela é mais ou menos a mesma coisa. Muito embora, ele não seja mais um objeto artesanal ou nem quase isso. Não vale mais à pena evitar esquecê-lo, por exemplo, ou dá-lo de presente a quem se estima. A elegância de nele se apoiar há muito se foi e a exibição de seu cabo ornado é sem sentido. O aforismo “eu esqueci meu guarda-chuva” é tão inconveniente, como pretexto para interrupção de um evento, como é ridículo tê-lo como de estimação ou de família. A investigação de um guarda-chuva, como a da Veilson, teria que ser justificada no eixo da reprodutibilidade técnica, como sobre o caráter descartável da mercadoria ou congênere. Aqui não, ela o faz se aproximando das varetas disfuncionais, como quem observa a física perfeita das pernas de uma bailarina em flerte desafiador à anatomia. Importa, positivamente, que ele está todo quebrado. É relevante que tenha sido de alguém e encontrado nos armários desta casa. Acolhê-lo significa sabê-lo de cor, implica repeti-lo em seus detalhes, sempre novos. A coisa se repete com a cadeira como indivíduo. É divertido pensá-la comparada a de Kosuth, que tem uma definição e não um dono ou um portador. Ela poderia ser associada a do Beuys, no que diz respeito à pessoalidade e ao pertencimento, mas menos radical no peso do passado, representado por uma imensa camada de gordura. Não é uma cadeira, mas esta cadeira. Como dicionarizar a definição desta cadeira? Ela é de quem foi embora e também de quem cuida dela. Essa é a razão de ser conservada invertida. Se resgatada fará ainda uma imensa falta. 



Cesar Kiraly é professor de Estética e Teoria Política à UFF. Desde 2015 é Curador da Galeria IBEU. Autor, dentre outros, de Fuga sobre o Branco [ ].

Tratado geral das grandezas do ínfimo - Rick Rodrigues




Galeria Ibeu convida para a abertura da exposição

Tratado geral das grandezas do ínfimo - Rick Rodrigues
Curadoria: Cesar Kiraly 

Abertura: 3 de setembro (terça-feira), às 18h30
Funcionamento: 4 de setembro a 4 de outubro de 2010, 
de segunda a quinta-feira, das 13h às 19h (às sextas, de 12h às 18h)


Esta é a primeira individual do Rick Rodrigues na cidade do Rio de Janeiro. Ele flertou com esta capital em uma residência à casa do Bispo do Rosário no antigo manicômio da colônia de Juliano Moreira e outrora em Teresópolis. Nasceu e mora em uma pequena comunidade nos arredores de Vitória no Espírito Santo. A arte visual, descoberta na faculdade, muda a sua relação com o mundo. É quando pode se apropriar da tradição das bordadeiras para mostrar como a percepção do corpo é afetada pela representação do meio em que está e pelos animais, reais ou de brinquedo, com os quais se estabelece proximidade. Seu trabalho é composto de costuras minudenciosas em tecidos de algodão, papel e objetos comuns, como peneiras. A relação com a poesia do Manoel de Barros é evidente no uso do âmbito complementar entre a ternura, a loucura e as memórias reprimidas. É quase impossível não desconfiar da harmonia doce que oferece. Nisso parece sugerir um acesso intrigante à persistência do material infantil nas ilusões da vida adulta. (Cesar Kiraly)

A chave de casa - Caroline Veilson



Galeria Ibeu convida para a abertura da exposição

A chave de casa - Caroline Veilson
Curadoria: Cesar Kiraly 

Abertura: 3 de setembro (terça-feira), às 18h30
Funcionamento: 4 de setembro a 4 de outubro de 2010, 
de segunda a quinta-feira, das 13h às 19h (às sextas, de 12h às 18h)

Caroline é de uma pequena cidade dos arredores de Porto Alegre e pela primeira vez expõe no Rio de Janeiro. A sua vivência artística se inicia na faculdade, mais especificamente no laboratório de revelação fotográfica. Imediatamente se sentiu atraída pela dimensão apurada e lenta de obtenção de finos resultados. Esse foi um dos motivos da sua passagem à gravura. A sua produção atual concerne aos modos sustentáveis de matrizes e a produção doméstica de papel. Esta individual parte de uma espécie de inversão, como numa gravura, do argumento do livro publicado pela Tatiana Salem Levy em 2007. Neste, Tatiana fala da história de judeus portugueses, caso da sua própria família, que, uma vez expulsos, traziam consigo a chave de suas casas, na esperança de retornar um dia. Caroline trata do acolhimento ao outro a partir dos objetos deixados. A aceitação da memória que restou para trás. Estes artefatos são estudados sequencialmente, e diariamente, até que tenham se feito uma parte da própria observadora. Os resultados são dispostos em séries junto com as suas matrizes. Uma vez que não é o caso de perder o que se foi. Trata-se do recebimento, a partir das complexidades contemporâneas à representação, de um mundo em que a vida dentro é ainda composta de cabideiros, cadeiras de madeira escura, guarda-chuvas e cadeiras de balanço. (Cesar KIraly)

A Escrita Contemporânea sobre Arte Contemporânea | Texto de Cesar Kiraly para Novíssimos 2019


1. A atmosfera da arte contemporânea é composta também pelo que se fala dela. A escrita contemporânea, nesse sentido, possui uma curiosa responsabilidade. Ela se distingue das asserções comuns irrefletidas sobre o que deveria ser uma obra de arte, esculturas bonitas e naturezas mortas, e apresenta o relato vivo de quem esteve disposto a ter a experiência que o artista montou. A escrita contemporânea sofre na linguagem o efeito da arte contemporânea e o manifesta. A mesma liberdade de meios é, ou poderia ser, explorada por quem se expressa sobre; a escrita se oferece para ser utilizada expandida. O texto pode ter elementos imagéticos preponderantes, veiculado a diversos suportes, é possível que retorne à fala como performance ou, convencionalmente, à parede branca.

2. À escrita contemporânea sobre arte contemporânea é passível conter pedaços informativos sobre o trabalho e o artista com os quais se mistura. Eles, apesar de importantes para dar localidade sobre trajetória, matéria e proposta, não podem ser preponderantes. O tipo de expressão que realiza é precedida pelo inicial estado de passividade, quase ao lado, como Aquiles e a Tartaruga. É derramada a primeira gota, como a Tartaruga, o artista sai primeiro. A quem escreve não cabe cobrir o sangue ou apostar corrida e sim correr depois / e nunca alcançar. Se há uma regra é a imobilidade, antes que a arte comece e se possa fazer uma arte depois. A escrita é desencadeada pelo esforço do outro. Daí é que nele se afunda, como quem é tragado para dentro da areia da ampulheta. Não se sabe bem para o que olha a Tartaruga, Aquiles dela não tira os olhos.

3. Assim, falar sobre e como são espécies do gênero falar a partir. A partir descreve aquilo que experimenta, menos para que se possa dar a encontrar um referente e mais para descobrir as palavras adequadas para aquilo que se sentiu. A partir interpreta o sentido do que assiste e oferece esse esforço como um facilitador para quem se coloca em posição parecida, ainda que não com tanta disposição, aprofundamento e ardil. A partir insere a situação, ou pelo menos o seu aroma, em uma nova narrativa  que alegoriza os pontos densos da experiência. A partir ainda permite que a escrita seja móbil para inventar um conceito, cujas partes sejam tomadas da iniciativa atentada. Se, por um lado, as obrigações da escrita contemporânea sobre arte acabam por torná-la pouco atraente ao jornalismo, elas oferecem ao leitor a possibilidade, por vezes arriscada, de ser colocado no centro de um furacão, ao qual só teria acesso depois de muito esforço de gosto e ambientação com diferentes ideias ou de simplesmente ter uma prova da criatividade operando em cumplicidade.

4. A escrita da qual falamos encontra seus principais recursos no ensaio; que por definição é crítico, não no sentido da simples posição do polegar, porém como rastro do gosto aprofundado. O ensaio é a escrita dos céticos, porque nele importa que a subjetividade de quem escreve se misture com o motivo que a desencadeia a dizer. Impropriamente se diz do ensaio um gênero literário ou uma forma. A parte mais importante dele é que se trata de resultado, gênero ou forma, antecedido pela vontade expressiva. Nessa direção é que ele é bastante mais plástico do que outras práticas enunciativas. A poesia, a prosa poética, o aforismo, a narrativa etc. surgem do interesse pelo que não é de quem escreve, por isso se tornam ensaios. Apenas a disposição ao dois, ao três, que é conquistada internamente, por assim dizer, ao movimento causado pelo que é estranho, exterior, outro etc.

5. À escrita contemporânea é vedada a especialidade, nisso é ainda mais virtuosa do que vivendo a partir. Se ela encontra uma maneira de se compor com algo e começa a repetir a identidade, ora, está extinto o risco, e se inicia o virtuosismo. A literatura que se faz desde o contemporâneo não permite, salvo por impostura, ser o dono de um tipo de forma de vida. É-se dela, promiscuamente. A autoridade sobre o corpo, a violência, a terra etc. nada mais é do que esterilidade. Porque se o contemporâneo é apresentado como propriedade, ele cede ao compro ou não compro, quero ou não quero etc. A escrita, no contemporâneo, precisa sacrificar a autoridade. Ela é uma forma de testemunho.

Catálogo NOVÍSSIMOS 2019

https://issuu.com/galeriaibeu/docs/galeriaibeu-catalogo-novissimos2019



Catálogo NOVÍSSIMOS 2019, disponível para leitura em nossa página no ISSUU. 

Release NOVÍSSIMOS 2019



NOVÍSSIMOS 2019 - Único Salão de Artes do Rio chega à 48ª edição na Galeria de Arte Ibeu
Inauguração: 18 de julho, às 18h


A edição deste ano será composta por temáticas diversas. Inspirado pelos últimos debates sobre o poder que as cores têm de identificar segmentos, o artista Evandro Machado, por exemplo, irá expor imagens que buscam sabotar a transformação das cores em discurso político. As obras retratam um mundo frio e calculista, onde tudo tem que ser levado a uma construção geométrica da realidade e os objetos não têm peso, não há gravidade. Dentro deste universo existem monolitos, presenças de imposição neste lugar inerte, no qual cubos flutuam carregando uma bandeira similar a brasileira. 

"Parte do discurso do trabalho é a vontade de criar confusões, a partir da contaminação desses campos cromáticos. O verde e o amarelo têm o poder de serem representativos do que o brasileiro acredita. Nesse momento nacionalista, percebemos que o vermelho, por exemplo, se tornou uma cor mais difícil de ser aceita", explica Evandro, que se inspirou no filme "2001: uma odisseia no espaço" para compor estas obras.

A dupla de gêmeos Tangerina Bruno irá expor a série “Para uma pintura”, composta por 2.971 fotografias em forma de objetos que são oferecidos ao público para serem manuseados. As obras mostram a origem do processo de criação dos artistas, que pintam a partir de fotografias tiradas por eles mesmos realizando ações, da maneira mais natural possível, em casa. 

“São imagens muito cruas, pois não estávamos preocupados se seria uma foto bonita, mas queríamos entender qual a ideia e chegar na imagem. Pegamos uma única imagem e usamos de referência para pintura, ou juntamos para colagem, reunimos no Photoshop para fazer a cena, passamos o desenho para a tela e começamos o processo de pintura. Quando pensamos neste processo, geralmente temos acesso ao resultado final. Mas, dessa forma, estamos representando todas as possibilidades que poderiam ser dadas à pintura”, analisa a dupla.

“O sigilo é a garantia do replay", "nunca vou gostar de você mais do que gosto de beber", “só me curta se tiver todos os dentes na boca”, “desaprendi a flertar, mas ainda sei comer e tomar vinho” são algumas das frases presentes no oráculo que será apresentado pela carioca Juliana Gretzinger, todas retiradas de aplicativos de relacionamento há cerca de dois anos. “Vejo o oráculo com humor, pois há um deboche envolvido. É um oráculo que, na verdade, não está preocupado em responder nada”, resume a artista. 

Fernanda Sattamini irá apresentar o trabalho “As ondas que nos separam”, composto por gravuras com mensagens que a artista escreveu pensando em enviar para alguém e, depois, molhou na água do mar. 

O paulistano Marcus Duchen irá expor duas obras inspiradas em uma viagem feita durante cerca de quatro anos por cidades do Sul de Minas, na qual o artista captou as impressões e as cores dos locais. Segundo ele, esta é uma pesquisa, quase geográfica, de alguém que não tinha naturalidade com os ambientes visitados e que, por meio da abstração, pode captar as sensações proporcionadas pela viagem. 

Mariana Hermeto irá apresentar parte de objetos e materiais presentes em uma casa. Em um exercício de agrupamento, a artista trabalha a geometria e a (des)função de cada um deles, buscando a poesia na ressignificação do que é ordinário. O trabalho de Mariana se baseia na pesquisa da construção de uma arquitetura íntima e se assenta no cotidiano e nas relações estabelecidas a partir dele. 

Na série "Força", Fernando Soares utiliza a borracha de câmaras de bicicletas e as ressignifica para abordar a maleabilidade da matéria. O artista recolhe o material em uma loja de bicicletas perto de seu ateliê e tenciona a borracha em um chassi de madeira, retratando as nuances entre o tenso e o relaxado, como a respiração. A ideia é abordar movimentos completamente opostos mas que, na verdade, são complementares. "Nos trabalhos de Novíssimos, os selecionados são os mais tensionados. Na superfície de borracha, forço um pouco o material para ter abertura e criar conceitos de espacialidade. O próprio material se contrai e, por vezes, está solto, relaxado, tendendo apenas para a força da gravidade", explica o artista. 

Os desenhos figurativos de Henrique de França exploram o branco do papel através de mínimas insinuações de linha e sombra. Sua inclinação a abandonar figuras no vazio é audaciosa e intrigante. Assim, o artista define artificialmente os limites entre o urbano e o rural como os limites da civilização, de modo a criar dramáticas composições onde algo parece estar para acontecer ou acabou de acontecer. Há um sentimento de reflexão, como se os personagens estivessem em profundo pensamento sobre a vida, memória, esperança e mudança. Os trabalhos criam histórias com as quais todos podem se relacionar de um ponto de vista pessoal e nostálgico, mas ao mesmo tempo relatam o confronto de gerações, tradições e classes, como modo de refletir sobre a construção de uma sociedade, por uma perspectiva latino-americana.  

Thais Stoklos irá apresentar a série “Sol, estou acordada”, falando sobre o dia e noite, luzes do céu, o pôr do sol, de intensidades de energia, de sentimentos humanos. Seus trabalhos são apresentados como verdadeiras pinturas feitas através da sobreposição de tules, que foram introduzidos nas obras da artista através da confecção de saias de bailarinas para suas filhas. Neste sentido, ela lança mão de tudo aquilo que é descartado: linhas, papéis, galhos, tecidos e pedras são reunidos e, com eles, Thais propõe novas formas, agrupando elementos em uma linguagem urbana, industrial ou natural. Como que se traçando caminhos ou construindo monumentos efêmeros, retrata a importância do sutil, na fugacidade do contemporâneo.

A artista Cláudia Lyrio irá expor duas obras: "Teoria" e "Anteparo". "Teoria" é um trabalho híbrido de desenho e pintura, de ficção e ciência, que tem como objeto o estudo do Pardal, ave da cidade (ave da polis, ave política). Cláudia apresenta esse pássaro de diversas maneiras e aponta algumas de suas características com pequenos textos entremeados. Este trabalho é a ação de observar e traz as etapas do desenho, os rascunhos, as inseguranças e inquietações do estudo. Mostra dados do animal e de seu ciclo de vida, nome científico e ano de sua chegada ao Brasil escritos em retalhos de linho colados sobre um canto da tela. Já a obra "Anteparo" é um desenho a carvão, grafite e aquarela sobre tela de algodão com imprimação transparente, mostrando uma floresta em perspectiva lateral, com árvores secas e queimadas. É um políptico composto de cinco telas que evocam o formato de um biombo dobrável de pequenas dimensões. Na primeira tela à esquerda, um pássaro solitário observa a vastidão da natureza degradada.

Inspirada no filme Blade Runner, Talita Tunala usa a metáfora das metrópoles chuvosas, sombrias e melancólicas, trazendo para o presente e representando cenas cotidianas atuais com a mesma atmosfera desalentada. Para Novíssimos, a artista procurou dar mais densidade aos tons escuros das obras, retirando com ranhuras a cor do papel cartão, acrescentando pequenas coberturas com lápis de cor, ao invés de usar a tinta sobre o papel branco como normalmente faz. Esse gesto é similar ao de um esculpir sutilmente, fazendo emergir imagens como se estivessem esperando para serem descobertas, exigindo do espectador um certo esforço do olhar para seu desvelamento.  

A pesquisa central dos trabalhos de Nicole Kouts gira em torno da ressignificação de imagens, lugares da memória, narrativas multiformes, sobreposição de linguagens, dogmas da atualidade e da arqueologia do processo criativo. Todas essas questões são compreendidas dentro de um contexto de convergência e divergência entre os meios analógicos e digitais. Essa investigação é uma constante tentativa de encontrar consistência e novos parâmetros no quebra-cabeças que é a linguagem visual contemporânea. "As interlocuções entre arte e tecnologia, imagem impressa, audiovisual, desenho e colagem são a principal matriz geradora destes trabalhos. Há também a influência de outras linguagens artísticas como a música, o cinema, os quadrinhos, a ilustração, a literatura e o teatro. Os títulos, textos e sobreposição de imagens são um elemento importante, em geral compostos por minúcias que coleto em meus cadernos, abordando a amplitude das transformações de sentido e de narrativas construídas por múltiplas associações", explica Nicole.

“Novíssimos” tem como proposta reconhecer e estimular a produção de novos artistas, e com isso apresentar um recorte do que vem sendo produzido no campo da arte contemporânea brasileira, em suas variadas vertentes. Até 2018, 633 artistas já haviam participado de Novíssimos, que teve sua primeira edição em 1962. 


SOBRE OS ARTISTAS 

Cláudia Lyrio é natural do Rio de Janeiro, onde vive e trabalha. Sua pesquisa busca pensar o ciclo da vida, a natureza e seus elementos, tendo a pintura como linguagem. A artista tem seu interesse voltado para questões cromáticas, alquímicas, processo e artesania. Em seu trabalho, uma ideia de paisagem vem se deixando entrever através de diálogos com pensamentos de campos de cor, Land Art e com as pesquisas dos viajantes naturalistas. Distância, perda, deterioração e efemeridade são parte do seu vocabulário. Formação em Pintura e Letras (UFRJ), especialista em História da Arte (PUC-Rio) e mestre em Literatura (UFRJ). Algumas exposições já realizadas: “Luz Balão” (Galeria Solar/RJ); “Pessoas, Cidades e Afins” (MARCO/MS); “Aos Fios Entreguei o Horizonte” (Galeria Hiato, Juiz de Fora/MG), todas em 2018. Em 2017, destacam-se: “Imersões” (Casa França-Brasil/RJ), “Além da Imagem” (Sem Título Galeria, Fortaleza/CE) e “Miragens” (CMAHO/RJ). Participou dos Salões Rio Claro (2015), Guarulhos e Vinhedo/Prêmio Aquisição Pintura (2016) e Fortaleza (2017). Artista selecionada para individual no Museu de Arte de Blumenau (SC) em 2019.

Evandro Machado é natural de Blumenau, mas vive e trabalha no Rio de Janeiro. Foi ilustrador e desenhista de HQ em Santa Catarina. No Rio de Janeiro, em 2007, frequentou a Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Em 2006, fez a primeira viagem no Programa Dynamic Encounters e, em 2008, participou da Residência CAPACETE, no Rio de Janeiro. Em 2009, realizou uma campanha da TV Futura para a Organização Mundial de Saúde, com curadoria de Fernando Cochiarale. Recebeu bolsa de estudos no Parque Lage para o Programa, em 2011, e Bolsa de Acompanhamento de Pesquisa, em 2013. Seus trabalhos foram acompanhados por Luiz Ernesto, Lívia Flores e Glória Ferreira.

Juliana Gretzinger é formada em Práticas Artísticas Contemporâneas pela Escola de Artes Visuais do Parque Lage (2015) e em Produção Audiovisual pela Escola de Cinema Darcy Ribeiro (2017). Atualmente, é estudante no curso de Artes Visuais da Escola de Belas Artes da UFRJ, exercendo função de pesquisadora bolsista no projeto PIBIAC Fotografia Contemporânea. Pesquisa a fotografia, a imagem digital e os efeitos da internet na sociedade contemporânea. 

Fernanda Sattamini vive e trabalha no Rio de Janeiro. Sua produção explora processos experimentais e alternativos, transitando entre fotografia, gravura, escultura e objetos. Tomando como ponto de partida imagens apropriadas e suas próprias fotografias e anotações, a pesquisa que desenvolve aborda questões acerca da memória, saudade e solidão. Graduada em Publicidade e Marketing pela PUC-Rio, completou seus estudos na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Ateliê da Imagem e Escola sem Sítio, no Rio de Janeiro.

Fernando Soares nasceu em São Paulo, onde reside e trabalha. Seu trabalho discute a natureza pictórica da matéria em si, através de pinturas/objetos, colagens e instalações. Sua pesquisa parte das propriedades e/ou ambiguidades dos materiais que utiliza e fatores como ação e reação dos mesmos em seus trabalhos. Iniciou seus estudos e produções de maneira autoditada, aos 17 anos, para posteriormente frequentar o Hermes Artes Visuais, onde ainda participa de elaborações de projetos e acompanhamento de sua produção. Participou de diversas exposições coletivas e individuais em galerias e espaços independentes, além de ser selecionado para salões e feiras de arte contemporânea.

Henrique de França nasceu e trabalha em São Paulo. Formado em Artes Plásticas pela USJT e pós-graduado em Design Gráfico pela FAAP, já participou de diversas exposições no Brasil e no exterior, entre elas “No Barrier to Entry”, na Gallery19, em Chicago (2018) e “Desenho Ocupado”, na Galeria Leme, em SP (2009). Entre suas exposições individuais destacam-se “Torpor”, no Sesc Interlagos, em SP (2016), e “Lugares Congruentes”, no Carpe Diem Arte e Pesquisa, em Lisboa, Portugal (2013). Os trabalhos exploram as possibilidades de representação do imaginário latino-americano no tocante à sua história recente, sobrepondo memória individual e coletiva dentro do escopo do desenho contemporâneo figurativo.

O paulistano Marcus Duchen iniciou muito jovem sua trajetória pelas artes, com participações em projetos e campanhas como ilustrador, em São Paulo. Em 2001, já em Minas Gerais, se formou em Arquitetura e, em 2004, fez sua primeira mostra coletiva no grupo Poéticas Visuais, no Instituto Moreira Salles, em Poços de Caldas. Depois, veio a exposição individual por premiação no BDMG Cultural, em 2006, em Belo Horizonte, e a coletiva no Espaço Cultural de Guarulhos, em 2008, em São Paulo. Em seguida, uma individual por premiação no Salão de Arte Contemporânea de Guarulhos, no mesmo ano. Outros prêmios vieram, como a menção honrosa no Salão de Arte Contemporânea de Arceburgo, Minas Gerais, em 2018, a seleção pela publicação de arte na Califórnia, Selah Magazine, no mesmo ano, e aprovação na galeria Art Lab Gallery, em São Paulo, entre outros. Em 2018, o artista também teve uma obra incluída no Livro “Arte Sempre”, coletânea dos artistas de Minas Gerais. Sua plataforma de expressão é o óleo sobre a madeira, em grandes painéis que misturam, atualmente, o abstrato a instantâneos da vida, em traços imemoráveis de paisagens mineiras.

Mariana Hermeto é designer e artista. Sua pesquisa se assenta no cotidiano e nas relações estabelecidas a partir dele. Numa procura por brechas e encaixes, através da contenção e da ruptura, do acúmulo e do vazio, há uma busca silenciosa pela ressignificação do comum e pela construção de uma arquitetura íntima. Participou de exposições coletivas como “Formação e Deformação”, nas Cavalariças da EAV Parque Lage, em 2018; “Fixo, só o prego”, no Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto, e “Doze métodos de se chegar a lugar algum”, no Paço Imperial, em 2019.

Nicole Kouts é graduada em Artes Visuais pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo e desenvolve seus trabalhos de forma multidisciplinar nas linguagens da arte e tecnologia, do audiovisual, da imagem impressa e do desenho. Participou de exposições coletivas nacionais e internacionais, dentre elas a “SP-Arte” (São Paulo, 2018 e 2019), “MADA - 1ª Mostra Audiovisual do Barreiro” (Belo Horizonte, 2018), Abstratas Moradas (Museu Belas Artes de São Paulo, 2018), “1ª Bienal de Artes de Taubaté” (Taubaté - SP, 2018) e “Cosmovisión Femenina” (Cidade da Guatemala, 2018). Realizou cursos e oficinas com os artistas Paulo Bruscky, Lourenço Mutarelli, Carlos Fajardo, Márcia de Moraes, J. Borges, Helena Freddi e Augusto Sampaio, e é assistente da artista Lia Chaia, importantes referências em sua pesquisa. Dedica-se também à ilustração, figurino e cenografia, fantoches e à música.

Thais Stoklos nasceu na África do Sul e reside em São Paulo. É formada em Pedagogia (2000) pela PUC-SP e pós-graduada em Imagem e Som pelo Senac (2005). Participou de residência artística em Londres, na Slade School of Fine Arts (2016), e em Berlim, na Berlin Art Institute (2017). Participou do grupo de acompanhamento de projetos com Pedro França, no Mam (2015), e, atualmente, participa do grupo de acompanhamento com Nino Cais, Carla Chaim e Marcelo Amorim, no Jardim do Hermes. Já expôs individualmente na Galeria Arte Formato e Arte Hall e, coletivamente, em diversas galerias e salões. Foi ganhadora do prêmio do Salão Nacional de Artes no Mac de Jataí.

Talita Tunala vive e trabalha no Rio de Janeiro, e é graduada em Psicologia. Sua formação artística foi feita na EAV/RJ e na Escola Sem Sítio/RJ. Dentre as exposições que participou nos últimos três anos, destacam-se a individual “O Melhor Fruto”, no Espaço Cultural Correios, em Niterói (2019) e as coletivas “Aos Fios Entreguei o Horizonte”, na Galeria Hiato, em Juiz de Fora; “A/Fronta/A”, na UNB, em Brasília; “Feminino Gabinete de Curiosidades”, no Museu Palácio Rio Negro, em Petrópolis; “Luz Balão”, na Galeria Solar, no Rio de Janeiro, todas em 2018. Em 2017, destacam-se os salões “68º Salão de Abril Sequestrado”, “Salão das Ilusões” e “Fortaleza”, e as coletivas “Miragens”, no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, no Rio de Janeiro; “Além da Imagem”, na Galeria Sem Título, em Fortaleza; “Imersões Poéticas”, na Casa França-Brasil, no Rio de Janeiro.

Tangerina Bruno é a dupla formada pelos gêmeos Letícias e Cirillo, naturais de Porto Ferreira, onde vivem e trabalham a quatro mãos e duas cabeças, da concepção à execução. Assinam com o seu sobrenome, Tangerina Bruno. Entre as exposições, destacam-se “Novas Aquisições” (2012-2014); “Coleção Gilberto Chateaubriand”, no MAM/Rio; “Coletiva no Auroras”; “17º Programa Exposições”, no MARP”; “28ª Mostra de Arte da Juventude”, no Sesc Ribeirão Preto. Entre os salões que já participaram estão “50º Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba” e o “25º Salão de Artes Plásticas de Praia Grande”.


Salão de Artes Visuais Novíssimos 2019
Abertura: 18 de julho de 2019, das 18h às 21h
Exposição: 19 de julho a 23 de agosto de 2019
Horário de visitação: segunda a quinta, de 13h às 19h (às sextas, de 12h às 18h).
Endereço: Rua Maria Angélica, 168 – Jardim Botânico – RJ 
(21) 3239-2863 / galeria@ibeu.org.br
Entrada franca
Classificação etária: livre 



Convite NOVÍSSIMOS 2019

Frases retiradas do Tinder viram instalação, escritas com sal da água do mar são reveladas em telas, números de velhas cadernetas de telefones sendo contatados por um celular de última geração foram gravados em vídeo, cerca de 3.000 fotografias dispostas como uma paleta de Pantone podem ser manuseadas. Estas e outras linguagens compõem as obras da 48ª edição do Salão de Artes Visuais Novíssimos, que abre no dia 18 de julho, às 18h, na Galeria de Arte Ibeu. Sob curadoria de Cesar Kiraly, a coletiva conta com pinturas, instalação, objeto, vídeo e desenhos de 12 artistas selecionados: Cláudia Lyrio (RJ), Evandro Machado (RJ), Fernanda Sattamini (RJ), Fernando Soares (SP) Henrique de França (SP), Juliana Gretzinger (RJ), Marcus Duchen (MG), Mariana Hermeto (RJ), Nicole Kouts (SP), Thais Stoklos (SP), Talita Tunala (RJ) e Tangerina Bruno (SP), uma dupla de artistas gêmeos. Na noite de abertura, será divulgado o nome do artista contemplado com uma exposição individual na Galeria de Arte Ibeu em 2020.  


Salão de Artes Visuais Novíssimos 2019
Abertura: 18 de julho de 2019, das 18h às 21h
Exposição: 19 de julho a 23 de agosto de 2019
Horário de visitação: segunda a quinta, de 13h às 19h (às sextas, de 12h às 18h).
Endereço: Rua Maria Angélica, 168 – Jardim Botânico – RJ 
(21) 3239-2863 / galeria@ibeu.org.br


É o coração de tudo - Texto de Cesar Kiraly para individual de Daniela Paoliello


1. A simetria é uma convenção da assimetria – o cético diria. Uma ficção beneficiadora dos vínculos aproximados. Ela ainda depende de um outro artifício para funcionar, que é a divisão entre lados, se não se tratar apenas de adotar a metade. O simétrico é o aparentemente simétrico e não resiste ao infinitesimal. Isso porque por mais parecidas que sejam as partes, elas são objetivamente diferentes. Por vias diferentes, Leibniz e Newton dificultaram a ilusão da equivalência absoluta. A percepção do mundo, interno ou externo, foi aprofundada à direção dos acidentes. As arestas, das idéias e dos artefatos, são sempre imperfeitas. Por isso, talvez, independente do âmbito, sonhe-se com a simetria. Ela, supostamente, resolveria a ânsia por beleza, igualdade, progresso e preservação. Se verdade ou não, a assimetria não parece ser a causa dos nossos pesadelos. Além disso, ela guarda a beleza das inversões.

2. Entre Dezembro de 1922 e Fevereiro de 1923, Maiakovski escreveu o poema Sobre Isto. Na primeira seção, ele apresenta o isto do título como um enigma. Os primeiros versos auxiliam a decifração. Sobre isto é sobre o quê? A leitura convencional sugere, coerentemente, que o espaço pontilhado deve ser preenchido com amor. A obra seria sobre o amor, uma vez motivada por rompimento amoroso, e a supressão do assunto, a proposição da adivinha, serviria para despistar os que o tomassem por tema exageradamente burguês. 


3. A ciência percebe, recentemente, que o embrião é quase completamente simétrico até a sexta semana de gestação. Apenas quando o coração começa a se desenvolver é que a assimetria é explícita. Noutras palavras, o coração é o primeiro órgão da assimetria. Ela é necessária para a adequada pressão circulatória. Há casos raros de pessoas que nascem invertidas, como se nascidas dentro do espelho, o coração do lado direito e daí por diante, mas se a inversão é completa, vive-se normalmente. A assimetria convive bem com as inversões, salvo as incompletas.

4. Na última e maior carta que Maiakovski envia a Lília Brik, com quem rompera, escreve que “o amor é o coração de tudo”. 


5. A assimetria é destacada em todos os lados da série fotográfica que Daniela Paoliello apresenta e no vídeo que com ela se compõe. As pedras de gelo são descomunalmente mais frágeis do que a terra, do que a temperatura quente que as envolve, como é a folha e suas nervuras iluminadas de dentro. A mesma desvantagem está presente nas penas a se misturarem com as folhas secas, ambas são tão parecidas e desiguais no contexto. Se olharmos as costas do ente feminino, suas ranhuras de arranhões e relevos ósseos, é evidente a maior solidez dos troncos, ainda mais porque são grossos, escuros e envelhecidos. Diretamente, não há enfrentamento possível, mesmo se a forma humana, tão presente, fosse invocada em sua humanidade destruidora, teríamos eliminação das grandezas, mas não inversão da assimetria.

6. Paoliello segue o mesmo que Maiakovski. Eles vêem mais do que o desalinho e querem isto. A interpretação que preferimos é que sobre isto não é sobre o amor tão somente, mas, sobretudo, sobre isto. O nome deste tema é: isto! Se uma presença branca, feminina, é absorvida, mesmo completamente, em raízes largas e mal iluminadas, se ela está à vontade em sua maciez e bordas, ora, é isto que está em questão. Aos poucos se encontra conforto naquela assimetria e uma nova é estabelecida, os troncos e as folhas servem de refúgio para o animal que não será engolido, ainda não. É a mesma dinâmica ao se fazer do corpo uma marcação das horas: “com as batidas do coração, com a voz, com a ponta do cabelo”, o sol, o mais tirânico dos astros, até que ele mesmo é a presa de quem o aceita, em sua agressão, e não se dissolve. “O mundo gostaria de patabraçar os peitos-montanhas neste monte de dor [...]”. Mas estes submergem dentro d’água e a atmosfera passa a ser deixada, infantil, esperando o esgotamento do fôlego.


7. Se aqui, por causa do momento em que Maiakovski é urso /// “sou mesmo um urso e não apenas semelhante” /// e Paoliello retorna, andando invertido sobre as mãos, a um buraco na terra, o isto é desvendado como inversão da assimetria. Um revolvimento assimétrico, segundo o qual a horizontalidade não é simétrica. Então, a assimetria é o coração de tudo. O coração é o primeiro órgão da assimetria. “O amor é o coração de tudo”. A assimetria é a assimetria de tudo. É sobre isto.

8. O uso mais direto da sabedoria adquirida por Maiakovski e Paoliello é o da conservação das grandezas, a observação admirada à impregnação, de tudo o que não pode, ou deve, ser vencido, e o cálculo da posição, até mesmo camuflada, imersa no que acontece. Se ele o faz permitindo, sem vergonha de nada, que o bloco dos maxilares soe trovoadas, donde o inverte, ela o consegue numa delicada aversão a seduzir demais ou de menos, como também se percebe nas colagens que Rodchenko faz para os poemas, em que o casal nunca está junto, é o rosto de Lília, e Maiakovski como alegoria, ou o inverso. O neologismo, em russo, Gren Lap Liub-Landiia, salvo pelas baixas temperaturas da Groelândia e da Lapônia, dizem bem esta série fotográfica: Pata (Lap), Amor (Liub) e Terra (Landiia). São todos elementos de forte assimetria.


Cesar Kiraly



Selecionados NOVÍSSIMOS 2019


A Comissão Cultural do Ibeu torna público o resultado final da seleção para o 48º Salão de Artes Visuais NOVÍSSIMOS 2019.

Selecionados:

Claudia Lyrio [RJ]
Evandro Machado [RJ]
Fernanda Sattamini [RJ]
Fernando Soares [SP]
Henrique de França [SP]
Juliana Gretzinger [RJ]
Marcus Duchen [MG]
Mariana Hermeto [RJ]
Nicole Kouts [SP]
Thais Stoklos [SP]
Talita Tunala [RJ]
Tangerina Bruno [SP]

Os artistas selecionados receberão um comunicado por email no início de junho com informações sobre a exposição.

O Ibeu agradece a participação de todos os inscritos.

é o coração de tudo - Daniela Paoliello


é o coração de tudo
Abertura: 6 de junho (quinta-feira), às 18h30

"É como um tiro ao contrário. Não é a câmera que vai de encontro ao objeto, mas um corpo que se atira sobre o disparo: corpo-projétil". É assim que a artista Daniela Paoliello, que integra o acervo do Museu de Arte do Rio, descreve as obras da exposição é o coração de tudo, que será inaugurada no dia 06 de junho, às 18h30, na Galeria de Arte Ibeu, sob curadoria de Cesar Kiraly. A mostra é composta por uma série fotográfica e um vídeo, "Exílio" e "Apanhador para grandezas impalpáveis", respectivamente, produzidos entre 2012 e 2016. 

Nos trabalhos apresentados, Daniela Poliello desenvolve uma ficção com base na experiência, onde há contato direto com o acontecimento e o fluxo do real. O corpo experimenta fisicamente o espaço produzindo uma imagem que se afirma ao mesmo tempo como empírica e ficcional. A experiência do corpo no espaço é essencial, é o ponto de partida da invenção, da construção de um território imaginário.

"Há um fator de descontrole, um espaço para o inesperado. É produto de uma sobreposição entre experiência e sua reinvenção, causando uma falta de diferenciação entre elas. O corpo assume, nessas obras, um caráter experimental e investigativo, ele transita pelas paisagens buscando estímulos, desejando ser afetado e criar a partir dessa afecção. É um jogo entre experiência e invenção. Entre se deixar afetar pelo espaço e nele intervir", explica a artista, vencedora do Salão de Artes Visuais Novíssimos 2018.

Nas imagens é estabelecida uma relação entre a fotografia, o vídeo e a auto performance, em que o corpo da própria artista atua exclusivamente para a câmera, distante do olhar direto do público. Fotografar sem ver a cena: é uma imagem da ordem do antes (imagem-projeção) e do depois (imagem ao acaso).

"A questão da artista é deixar uma existência muito frágil à mercê da desproporção, como a pedra de gelo à terra, a folha diante da luz ou a teia de aranha no espaço, para, sob recursos diferentes, alavancas de sentido, inverter a dinâmica. A rivalidade se torna ainda mais explícita quando o corpo performático da artista é posto nu enfrentando o sol ou encolhido no chão", analisa Cesar Kiraly.

"A alvura da pele, a insistência à intempérie e a disposição mimética parecem mudar quem está na posição de domínio, o ponto mais alto da assimetria. A feminilidade é posta cúmplice de outros entes materiais convencionalmente acessórios, como penas e folhas, e invertem a partida se tornando isto, qual seja, elemento entre elementos", completa o curador.


SOBRE A ARTISTA

Daniela Paoliello é artista visual e faz doutorado em Artes na UERJ. Foi contemplada com o XIII Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia, através do qual publicou seu livro “Exílio”, em 2015. Em 2018, foi premiada como artista destaque do "Salão de Artes Novíssimos 2018", da Galeria Ibeu (RJ). Em 2019, integrou a exposição “Mulheres na Coleção MAR” e entrou para o acervo do Museu de Arte do Rio. Participou de diversas exposições coletivas e individuais entre Rio, Belo Horizonte e São Paulo, em instituições como o MARP, o Museu de Arte da Pampulha, FUNARTE, Centro Cultural da UFMG, SP-Arte, Sesc Palladium, entre outras. Nos últimos anos, vem desenvolvendo sua pesquisa em torno da auto performance feita exclusivamente para a câmera - fotografia e vídeo - e da produção de uma auto ficção.