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É o coração de tudo - Texto de Cesar Kiraly para individual de Daniela Paoliello


1. A simetria é uma convenção da assimetria – o cético diria. Uma ficção beneficiadora dos vínculos aproximados. Ela ainda depende de um outro artifício para funcionar, que é a divisão entre lados, se não se tratar apenas de adotar a metade. O simétrico é o aparentemente simétrico e não resiste ao infinitesimal. Isso porque por mais parecidas que sejam as partes, elas são objetivamente diferentes. Por vias diferentes, Leibniz e Newton dificultaram a ilusão da equivalência absoluta. A percepção do mundo, interno ou externo, foi aprofundada à direção dos acidentes. As arestas, das idéias e dos artefatos, são sempre imperfeitas. Por isso, talvez, independente do âmbito, sonhe-se com a simetria. Ela, supostamente, resolveria a ânsia por beleza, igualdade, progresso e preservação. Se verdade ou não, a assimetria não parece ser a causa dos nossos pesadelos. Além disso, ela guarda a beleza das inversões.

2. Entre Dezembro de 1922 e Fevereiro de 1923, Maiakovski escreveu o poema Sobre Isto. Na primeira seção, ele apresenta o isto do título como um enigma. Os primeiros versos auxiliam a decifração. Sobre isto é sobre o quê? A leitura convencional sugere, coerentemente, que o espaço pontilhado deve ser preenchido com amor. A obra seria sobre o amor, uma vez motivada por rompimento amoroso, e a supressão do assunto, a proposição da adivinha, serviria para despistar os que o tomassem por tema exageradamente burguês. 


3. A ciência percebe, recentemente, que o embrião é quase completamente simétrico até a sexta semana de gestação. Apenas quando o coração começa a se desenvolver é que a assimetria é explícita. Noutras palavras, o coração é o primeiro órgão da assimetria. Ela é necessária para a adequada pressão circulatória. Há casos raros de pessoas que nascem invertidas, como se nascidas dentro do espelho, o coração do lado direito e daí por diante, mas se a inversão é completa, vive-se normalmente. A assimetria convive bem com as inversões, salvo as incompletas.

4. Na última e maior carta que Maiakovski envia a Lília Brik, com quem rompera, escreve que “o amor é o coração de tudo”. 


5. A assimetria é destacada em todos os lados da série fotográfica que Daniela Paoliello apresenta e no vídeo que com ela se compõe. As pedras de gelo são descomunalmente mais frágeis do que a terra, do que a temperatura quente que as envolve, como é a folha e suas nervuras iluminadas de dentro. A mesma desvantagem está presente nas penas a se misturarem com as folhas secas, ambas são tão parecidas e desiguais no contexto. Se olharmos as costas do ente feminino, suas ranhuras de arranhões e relevos ósseos, é evidente a maior solidez dos troncos, ainda mais porque são grossos, escuros e envelhecidos. Diretamente, não há enfrentamento possível, mesmo se a forma humana, tão presente, fosse invocada em sua humanidade destruidora, teríamos eliminação das grandezas, mas não inversão da assimetria.

6. Paoliello segue o mesmo que Maiakovski. Eles vêem mais do que o desalinho e querem isto. A interpretação que preferimos é que sobre isto não é sobre o amor tão somente, mas, sobretudo, sobre isto. O nome deste tema é: isto! Se uma presença branca, feminina, é absorvida, mesmo completamente, em raízes largas e mal iluminadas, se ela está à vontade em sua maciez e bordas, ora, é isto que está em questão. Aos poucos se encontra conforto naquela assimetria e uma nova é estabelecida, os troncos e as folhas servem de refúgio para o animal que não será engolido, ainda não. É a mesma dinâmica ao se fazer do corpo uma marcação das horas: “com as batidas do coração, com a voz, com a ponta do cabelo”, o sol, o mais tirânico dos astros, até que ele mesmo é a presa de quem o aceita, em sua agressão, e não se dissolve. “O mundo gostaria de patabraçar os peitos-montanhas neste monte de dor [...]”. Mas estes submergem dentro d’água e a atmosfera passa a ser deixada, infantil, esperando o esgotamento do fôlego.


7. Se aqui, por causa do momento em que Maiakovski é urso /// “sou mesmo um urso e não apenas semelhante” /// e Paoliello retorna, andando invertido sobre as mãos, a um buraco na terra, o isto é desvendado como inversão da assimetria. Um revolvimento assimétrico, segundo o qual a horizontalidade não é simétrica. Então, a assimetria é o coração de tudo. O coração é o primeiro órgão da assimetria. “O amor é o coração de tudo”. A assimetria é a assimetria de tudo. É sobre isto.

8. O uso mais direto da sabedoria adquirida por Maiakovski e Paoliello é o da conservação das grandezas, a observação admirada à impregnação, de tudo o que não pode, ou deve, ser vencido, e o cálculo da posição, até mesmo camuflada, imersa no que acontece. Se ele o faz permitindo, sem vergonha de nada, que o bloco dos maxilares soe trovoadas, donde o inverte, ela o consegue numa delicada aversão a seduzir demais ou de menos, como também se percebe nas colagens que Rodchenko faz para os poemas, em que o casal nunca está junto, é o rosto de Lília, e Maiakovski como alegoria, ou o inverso. O neologismo, em russo, Gren Lap Liub-Landiia, salvo pelas baixas temperaturas da Groelândia e da Lapônia, dizem bem esta série fotográfica: Pata (Lap), Amor (Liub) e Terra (Landiia). São todos elementos de forte assimetria.


Cesar Kiraly