Como sobreviver a um naufrágio – Referências e Literaturas | Post 3



Hipupiara (V. I.) (~). I – Hipupiaras, assim como os botos e as Mães D’água, são mitos indígenas ligados à imaginária aquosa, eles existem desde antes da chegada dos portugueses e Jesuítas ao Brasil. Estes seres raros representam o perigo daquilo que habita as águas e eram para os índios monstros antropofágicos.


II – Padre José de Anchieta, apóstolo, pregador, etnógrafo e cronista, prestou um grande trabalho documental junto com seu irmão de hábito, Padre Manoel da Nóbrega, desde sua chegada ao Brasil em 1553, de onde nunca mais saiu. Entre suas cartas e coletas de relatos, ele narra parte deste conto aquático antigo dos indígenas: “Há também nos rios outros fantasmas, a quem chamam IGPUPIARA, isto é, que moram n’água, que matam do mesmo aos índios. Não longe de nós há um rio habitado por cristãos e que os índios atravessavam outrora em pequenas canoas, que fazem de um só tronco ou de cortiça, onde eram muito afogados por eles.” Padre José de Ancheita. (CASCUDO, Câmara. Antologia do Folclore Brasileiro. p. 25.)


III – Ao longo das influencias europeias, os Hipupiaras foram sendo conhecidos como a Iara, sofrendo uma deformação visual a partir do sincretismo com a sereia europeia: moça branca e loira, corpo metade peixe, jovem bela e sedutora, cantando sobre as margens das praias e lagos. Aqui, percebemos como a imaginária é plástica, transmuta-se, abrigando sobre o mesmo sintoma mítico da água, roupagens diferentes para a lenda se escamar e escamar nossa imaginação em um inventário formal de formas imaginantes.


IV – Mário de Andrade, em sua célebre obra literária, “Macunaíma” apresenta esse ser, o Hipupiara, diluído em vários trechos da narrativa, onde o herói brasileiro, Macunaíma, teme se aventurar nas águas com medo de seus perigos. Na passagem final de sua aventura, Macunaíma é seduzido por uma bela moça traiçoeira do lagoão, e assim Mário de Andrade nos escreve: 

“E a Uiara vinha chegando outra vez com muitas danças. Que boniteza que ela era!... Morena e coradinha que nem a cara do dia e feito o dia que vive cercado de noite, ela enrolava a cara nos cabelos curtos negros negros como as asas da graúna. Tinha no perfil duro um narizinho tão mimoso que nem servia pra respirar. Porém como ela só se mostrava de frente e afastava sem virar Macunaíma não via o buraco no cangote por onde a pérfida respirava (Guelras). E o herói indeciso, vai-não-vai. Sol teve raiva. Pegou num rabo-de-tatu de calorão e guascou o lombo do herói. A dona ali, diz que abrindo os braços mostrando a graça fechando os olhos molenga. Macunaíma sentiu fogo no espinhaço, estremeceu, fez pontaria, se jogou feito em cima dela, juque! Vei chorou de vitória. As lágrimas caíram na lagoa num chuveiro de ouro e de ouro. Era o pino do dia.

Quando Macunaíma voltou na praia se percebia que brigara muito lá no fundo. Ficou de bruços um tempão com a vida dependurada nos respiros fatigados. Estava sangrando com mordidas pelo corpo todo, sem perna direita, sem os dedões sem os cocos-da-Baía, sem orelhas sem nariz sem nenhum dos seus tesouros.” Macunaíma – Mário de Andrade. P. 124.


V – Como um ser mítico sem imagem definida, criatura que se esconde dentro das nascentes, que nasce com a água e vive nela, os Hipupiaras são o não-ver que operam o ver, a presença monstruosa que atiça a imaginação, que remodela as formas do (in)visível aquoso, e mesmo sobre o cruzamento da miscigenação, a lenda carrega a força líquida da água, do assombramento que os olhos d’água dão a ver quando se revelam – quando dão de comer a nossa imaginação sedenta, quando se ocultam, quando nossa imaginação se torna devorada pelo poder imaginante do mito, atualizando-o.


VI – O não-ver dos Hipupiaras é tão agudo quanto não escutar o canto das sereias que Franz Kafka nos apresenta em seu texto: “O silencio das sereias”, publicado em 1984, na folha de São Paulo. No presente texto, Kafka nos relata a manobra de Ulisses ao colocar cera nos ouvidos e se acorrentar ao mastro do navio, para evitar a sedução desses belos monstros. Com o barco se aproximando dos rochedos onde esses seres mitológicos ficavam, Kafka nos descreve o silêncio adotado pelas sereias como algo inescapável, e enquanto o barco passava próximo a elas, seu silencio desenhava na cabeça de Ulisses um canto que só ele escutava por acreditar escutar, por ver elas cantando sem, no entanto, elas cantarem. E assim Kafka nos fala:

“E de fato, quando Ulisses chegou, as poderosas cantoras não cantaram, seja porque julgavam que só o silêncio poderia conseguir alguma coisa desse adversário, seja porque o ar de felicidade no rosto de Ulisses - que não pensava em outra coisa a não ser em cera e correntes - as fez esquecer de todo e qualquer canto.

Ulisses no entanto - se é que se pode exprimir assim - não ouviu o seu silêncio, acreditou que elas cantavam e que só ele estava protegido contra o perigo de escutá-las. Por um instante, viu os movimentos dos pescoços, a respiração funda, os olhos cheios de lágrimas, as bocas semi-abertas, mas achou que tudo isso estava relacionado com as árias que soavam inaudíveis em torno dele. Logo, porém, tudo deslizou do seu olhar dirigido para a distância, as sereias literalmente desapareceram diante da sua determinação, e quando ele estava no ponto mais próximo delas, já não as levava em conta.” KAFKA, Franz.


VII – Entre o não-cantar e o não-ver, há o ouvir o canto silencioso da forma e o olhar ruidoso do invisível como um ato de fé e de crença, o ver mitológico se funde com as formas mesmas de se ver os mitos, com a ânsia de buscar criar imagens para o invisível, e, como no canto das sereias, ou no mistério submerso dos Hipupiaras, o olho se torna um órgão assombrado e metamorfo - um dispositivo trans-ocular que escuta e vê os ruídos do impossível amplificando-os nas imagens que pode vir a criar.


VIII – Querer ver os Hipupiaras é desejar perder a água dos próprios olhos. É ver os poços do olhar se tornarem vermelhos de sangue, como a poça onde Macunaíma se transformou em lenda. Ver os Hipupiaras é desenhar o silencio imortal que as sereias riscam em nossos olhos – sob o traço do mito.






| "Como sobreviver a um naufrágio – Referências e Literaturas": série dedicada a postagens relacionadas à pesquisa do artista Márcio Diegues, contendo trechos e anexos de sua dissertação "Entre o mar e o vento: o desenho como membrana", apresentada no PPGAV-EBA-UFRJ em 2017. Todos os textos são de autoria de Márcio Diegues. Este conteúdo também está disponível no Instagram da Galeria Ibeu.

Como sobreviver a um naufrágio – Referências e Literaturas | Post 2




Dada a eminência, a fratura e o colapso de toda superestrutura, naufragamos!

Pensar nas experiências de naufrágio é ir além da representação desse acidente náutico, e olhar devidamente para os processos de arruinamento que acometem todo corpo, toda causa e todo objetivo; e que dadas as circunstâncias da travessia, da errância e da deriva, acaba por afundar, real ou metaforicamente, em si mesmo.

O arruinamento atravessa todos os objetos e imagens que compõem essa exposição, prenunciando no conjunto de trabalhos um naufrágio eminente e ostensivo da visão. O arruinamento do tempo sobre os corpos, processos e materiais, nada mais nos alerta, do que para as ruínas de nosso tempo, que acontecem no agora, diante de nossos olhos.

Os objetos encracados manualmente, os desenhos de observação do mar sobre os cadernos, as catalogações imaginárias dos seres marítimos, os processos de corrosão da gravura em metal - todos estes procedimentos partilham de uma intenção mimética em falência, que camufla e revela ao mesmo tempo, o afundamento que as imagens detonam em nossa própria imaginação.

Em um sentido mais profundo daquilo que o naufrágio pode representar, está o despertar de uma consciência crítica sobre o mundo em crise a nossa volta, onde uma atitude em caráter de urgência precisa ser tomada, pois tudo ao redor começa a afundar lentamente e desaparecer do campo visual, sem deixar vestígios na superfície dessa realidade líquida.

Recolher naufrágios é uma forma falida de falar do mar avassalador, de falar sobre forças incomensuráveis que sublimam toda travessia. É necessário assumir tanto nas imagens, como em certas situações da vida, que o afundamento é inevitável. 

Coletar naufrágios é colecionar e expor traumas onde as imagens assumem um poder mordente de corroer o visível e afundar a realidade. Frente à arrebentação das margens do real nas linhas da vida, frente ao inesperado afundamento cotidiano – como sobreviver a um naufrágio?



Márcio Diegues, Rio de Janeiro, 03/05/2020





| "Como sobreviver a um naufrágio – Referências e Literaturas": série dedicada a postagens relacionadas à pesquisa do artista Márcio Diegues, contendo trechos e anexos de sua dissertação "Entre o mar e o vento: o desenho como membrana", apresentada no PPGAV-EBA-UFRJ em 2017. Todos os textos são de autoria de Márcio Diegues.  Este conteúdo também está disponível no Instagram da Galeria Ibeu. | 


Como sobreviver a um naufrágio – Referências e Literaturas | Post 1




Colecionar naufrágios:

1 – Gravar um naufrágio é retomar pela gravação, pela ação de corrosão do metal através do ácido, o processo de arruinamento do visível. Fazer gravura é fazer ruína.

2 – Na gravura as imagens dos naufrágios ardem sobre a matriz, ecoam nas impressões e no próprio espelhamento reverso da estampagem de seu afundamento.

3 – O afundamento é inevitável. A cegueira é inevitável no processo de imersão. A superfície nos engana sobre a real profundidade da imagem gravada em nosso olho, falindo o olhar durante toda tentativa de aprendê-la, de capturá-la na ferrugem de seu apagamento.

4 – Gravar um naufrágio é se tornar o mar invisível que corrói as imagens de nossa imaginação.






| "Como sobreviver a um naufrágio – Referências e Literaturas": série dedicada a postagens relacionadas à pesquisa do artista Márcio Diegues, contendo trechos e anexos de sua dissertação "Entre o mar e o vento: o desenho como membrana", apresentada no PPGAV-EBA-UFRJ em 2017. Todos os textos são de autoria de Márcio Diegues. Este conteúdo também está disponível no Instagram da Galeria Ibeu. |