Selecionados NOVÍSSIMOS 2019


A Comissão Cultural do Ibeu torna público o resultado final da seleção para o 48º Salão de Artes Visuais NOVÍSSIMOS 2019.

Selecionados:

Claudia Lyrio [RJ]
Evandro Machado [RJ]
Fernanda Sattamini [RJ]
Fernando Soares [SP]
Henrique de França [SP]
Juliana Gretzinger [RJ]
Marcus Duchen [MG]
Mariana Hermeto [RJ]
Nicole Kouts [SP]
Thais Stoklos [SP]
Talita Tunala [RJ]
Tangerina Bruno [SP]

Os artistas selecionados receberão um comunicado por email no início de junho com informações sobre a exposição.

O Ibeu agradece a participação de todos os inscritos.

é o coração de tudo - Daniela Paoliello


é o coração de tudo
Abertura: 6 de junho (quinta-feira), às 18h30

"É como um tiro ao contrário. Não é a câmera que vai de encontro ao objeto, mas um corpo que se atira sobre o disparo: corpo-projétil". É assim que a artista Daniela Paoliello, que integra o acervo do Museu de Arte do Rio, descreve as obras da exposição é o coração de tudo, que será inaugurada no dia 06 de junho, às 18h30, na Galeria de Arte Ibeu, sob curadoria de Cesar Kiraly. A mostra é composta por uma série fotográfica e um vídeo, "Exílio" e "Apanhador para grandezas impalpáveis", respectivamente, produzidos entre 2012 e 2016. 

Nos trabalhos apresentados, Daniela Poliello desenvolve uma ficção com base na experiência, onde há contato direto com o acontecimento e o fluxo do real. O corpo experimenta fisicamente o espaço produzindo uma imagem que se afirma ao mesmo tempo como empírica e ficcional. A experiência do corpo no espaço é essencial, é o ponto de partida da invenção, da construção de um território imaginário.

"Há um fator de descontrole, um espaço para o inesperado. É produto de uma sobreposição entre experiência e sua reinvenção, causando uma falta de diferenciação entre elas. O corpo assume, nessas obras, um caráter experimental e investigativo, ele transita pelas paisagens buscando estímulos, desejando ser afetado e criar a partir dessa afecção. É um jogo entre experiência e invenção. Entre se deixar afetar pelo espaço e nele intervir", explica a artista, vencedora do Salão de Artes Visuais Novíssimos 2018.

Nas imagens é estabelecida uma relação entre a fotografia, o vídeo e a auto performance, em que o corpo da própria artista atua exclusivamente para a câmera, distante do olhar direto do público. Fotografar sem ver a cena: é uma imagem da ordem do antes (imagem-projeção) e do depois (imagem ao acaso).

"A questão da artista é deixar uma existência muito frágil à mercê da desproporção, como a pedra de gelo à terra, a folha diante da luz ou a teia de aranha no espaço, para, sob recursos diferentes, alavancas de sentido, inverter a dinâmica. A rivalidade se torna ainda mais explícita quando o corpo performático da artista é posto nu enfrentando o sol ou encolhido no chão", analisa Cesar Kiraly.

"A alvura da pele, a insistência à intempérie e a disposição mimética parecem mudar quem está na posição de domínio, o ponto mais alto da assimetria. A feminilidade é posta cúmplice de outros entes materiais convencionalmente acessórios, como penas e folhas, e invertem a partida se tornando isto, qual seja, elemento entre elementos", completa o curador.


SOBRE A ARTISTA

Daniela Paoliello é artista visual e faz doutorado em Artes na UERJ. Foi contemplada com o XIII Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia, através do qual publicou seu livro “Exílio”, em 2015. Em 2018, foi premiada como artista destaque do "Salão de Artes Novíssimos 2018", da Galeria Ibeu (RJ). Em 2019, integrou a exposição “Mulheres na Coleção MAR” e entrou para o acervo do Museu de Arte do Rio. Participou de diversas exposições coletivas e individuais entre Rio, Belo Horizonte e São Paulo, em instituições como o MARP, o Museu de Arte da Pampulha, FUNARTE, Centro Cultural da UFMG, SP-Arte, Sesc Palladium, entre outras. Nos últimos anos, vem desenvolvendo sua pesquisa em torno da auto performance feita exclusivamente para a câmera - fotografia e vídeo - e da produção de uma auto ficção.

Montparnasse, vingt ans après - Texto de Cesar Kiraly para a individual de João Paulo Racy


1. Em Num Ano de 13 Luas, do Fassbinder, de 1978, há uma cena em que uma mulher esconde-se, com comida e vinho, no andar em obras de um edifício. Ela dorme no chão, atrás de um móvel, e o ambiente possui a incidência da luminosidade normal da rua, mais outra, vermelha, que acende e apaga remetendo a um janelão sem cortina. Um homem negro entra com um caixote e uma corda e a tudo prepara para se enforcar. A mulher acorda, mexe na bolsa, e pergunta se o inesperado tem fogo. Ele desce, acende o cigarro dela e os dois iniciam uma conversa. Ela fala de si, ele bebe, e pergunta o motivo de querer se enforcar, o homem responde que não quer a realidade das coisas, tais como sentimentos, imagens, cartas, memórias etc. coisas em geral, apenas porque as percebe, ela conta que seu ego foi forçado a aprender a aguentar o insuportável e ele diz que o destino humano é todo muito claro, como na justiça eterna, como num eterno juízo final, o suicídio não seria a negação da vida, mas, sim, das condições de sua própria vida. Parecendo cansada, a mulher se afasta dizendo que talvez fosse melhor que o fizesse logo, e se esconde no cantinho.

2. A imagem do encontro do Racy com o andar em que se infiltrou para fotografar, os momentos de imiscuimento no abandono das peças de escritório, para a imaginação dos objetos cúmplices, o funcionário do qual, com certeza, teve que se desviar, a conversa surreal que com ele teve que ter, a clareza metafísica da obra do Gursky, cuja perspectiva, em versão terrena, procurava, e os esconderijos do modo como pratica seu próprio trabalho, por motivos variados, remetem-me à versão menos dramática, mas substantivamente analógica ao diálogo do Fassbinder. Gursky como alguém que vê a realidade como platitude e Racy como quem recebe a complexidade da resposta e ao mesmo tempo se dá conta que não há muito mais o que dizer para quem se convenceu tão bem. 


3. É tão confusa e tensa a relação entre conservação e mudança. Pode-se desejar até que a lógica produtiva mesma seja mudada. Nesse caso, dizem, há um trânsito da transformação, mais rápido ou mais lento, que se parece, ainda que com pessoas diferentes, donde o ressentimento, com o mundo que se conhece. As alternativas mais comuns, entretanto, carecem de alguma realização. Um mundo significativamente diferente, mas de mesma lógica, no qual se gostaria de viver, demanda que a novidade não suspenda a viabilidade do que se quer manter, sabendo que tais acomodações, salvo em situações muito evidentes, só se mostram mesmo depois do estrago feito. Assim é mais simples ver o despropósito que é a iniciativa por um mundo que não existe mais ou de uma idéia muito estrita para uma nova lógica. A restauração é uma mentira melancólica e a transformação uma frustradora de ideais. A ansiedade pelo novo só é crível se for a mesma que pelo desconhecido. Se não, só é razoável mudar para manter o que se tem, mesmo que adquirido por acidente.

4. Sartre costumava se perder naqueles infindáveis andares do Mouchotte. A impressão que lhe causava era a de um formigueiro do qual saíam, em 1968, um sem número de pessoas dispostas a ocupar as ruas. Por isso se referir a ele como prédio vermelho. Depois das capturas históricas ocorridas, sabe-se bem, com ironia, o sentido de qual ou tal multidão. Aquelas pareciam ser a sua própria realização da profecia. A vontade manipuladora está convencida que o sentido da multidão está na bandeira que traz pronta de casa. Então, se os leitores de domingo nomeiam as revoltas, sábios parecem ser os que saíram por se sentirem fechados e que aproveitam o passeio a despeito do nome que vai receber. Não se deve poder capturar o sentido da caminhada em conjunto.

5. Gursky usa descomunais meios de produção para atingir a harmonia. Ela não pode ser obtida apenas por distanciamento, é preciso artifício. A dimensão permite que cada ente mantenha individualidade: janelas, pessoas, embalagens, flores etc. A ilusão é mostrar o estriado como uma subespécie do liso, indicando o aberto como uma condição. Não há que se falar em encontro da elegância no acidente. Trata-se da paciente perspectiva do relojoeiro. 


6. Racy encontra a perspectiva para mostrar efeito assemelhado a Montparnasse, Paris. As interrupções não são removidas e nem a amplitude é simulada. O prédio vermelho perde a platitude. As perspectivas não são anuladas, na verdade, são acumuladas e podem ser contadas. As janelas passam a ser percebidas de dentro de uma janela em um cômodo em reconstrução. A linha reta existe se tornada compatível com intermediários e concorrentes. A história para Racy é acidente e nos leva a pensar no esforço que é não vê-lo.

7. Não se trata mais de simular uma fachada contínua, porém de mostrar, tal como a encontra, a perspectiva interna de uma janela diante de outras tantas, invariavelmente interrompida pela emenda da vidraça. As fotografias refazem a formalidade elegante da observação exterior, mas agora em ambiente de renovação entre o uso antigo, de um aparente escritório, do café frio esquecido, e o desconhecido que começará a ser montado. O interesse é registrar, como intruso, que a interioridade não perde sua perspectiva privilegiada sobre o que acontece fora, e que, mesmo repleta de antigos usos, não precisa esconder a si própria.  


8. Em Torno, livro de Racy, ajuda-nos na comparação também com a sua fotografia de espaço aberto. A maioria das imagens se torna densa nas convergências formais. A composição não está lá e faz sentido ir lá procurá-la. Não há um aberto completo para Racy. O aberto nada mais é do que um efeito de fuga da imaginação a querer respirar no acúmulo gótico de prédios e detalhes.

9. Não é segredo para ninguém que o espaço urbano no capitalismo abriga plêiade de paroxismos. Há extrema demanda por destruição, para abrigar a novidade, mas, também, residualmente nos países periféricos, vontade de conservação, pelo reconhecimento de que o passado, por vezes, tem algum valor. Um descompasso entre o dentro e o fora das construções começa a se consolidar. Ambientes internos são renovados curiosamente estranhos aos seus exteriores. O susto causado pelo arrojamento porta adentro só se aprofunda, uma vez que o refazimento se torna regra e há cômodos que mais se reformam do que envelhecem. Se envelhecido, na verdade, foi simulada a passagem do tempo. Porque a decadência mesma se torna inadmissível.


10. A convergência entre o dentro e o fora encontra na fotografia feita em antigas repúblicas soviéticas um último suspiro. Nelas, descascados papéis de parede de cosmonautas adornam o dentro de imensos edifícios de concreto. Eles são arrojados até mesmo no tipo de sofrimento explícito da ação do tempo, conjugado com a falta de uso. Mais do que isso, apenas o dentro e o fora em perfeita continuidade dos vazios pontos de ônibus do Cazaquistão. Sem as vaquinhas à sombra seria quase impossível descobrir o uso da construção sem legenda. Racy não monitora a melancolia do desabamento do concreto. Mas não é completamente estranho a tal sentimento. Porque ele percebe que na nossa temporalidade é preciso procurar a improvável persistência da passagem do tempo nas paredes. Quando não, a angústia aparece sem querer. Ele vai nas passagens mais elegantes dessa psicopatologia da vida cotidiana das coisas. Se a regra é a precariedade ou a reforma, no ato falho da espera entre esta e aquela intervenção, a falta de hospitalidade é vencida pela invasão.


Cesar Kiraly é professor de Teoria Política e Estética no Departamento de Ciência Política da UFF. Autor de Escarificação: ensimesma. Curador da Galeria IBEU.