Tratado geral das grandezas do ínfimo - Rick Rodrigues




Galeria Ibeu convida para a abertura da exposição

Tratado geral das grandezas do ínfimo - Rick Rodrigues
Curadoria: Cesar Kiraly 

Abertura: 3 de setembro (terça-feira), às 18h30
Funcionamento: 4 de setembro a 4 de outubro de 2010, 
de segunda a quinta-feira, das 13h às 19h (às sextas, de 12h às 18h)


Esta é a primeira individual do Rick Rodrigues na cidade do Rio de Janeiro. Ele flertou com esta capital em uma residência à casa do Bispo do Rosário no antigo manicômio da colônia de Juliano Moreira e outrora em Teresópolis. Nasceu e mora em uma pequena comunidade nos arredores de Vitória no Espírito Santo. A arte visual, descoberta na faculdade, muda a sua relação com o mundo. É quando pode se apropriar da tradição das bordadeiras para mostrar como a percepção do corpo é afetada pela representação do meio em que está e pelos animais, reais ou de brinquedo, com os quais se estabelece proximidade. Seu trabalho é composto de costuras minudenciosas em tecidos de algodão, papel e objetos comuns, como peneiras. A relação com a poesia do Manoel de Barros é evidente no uso do âmbito complementar entre a ternura, a loucura e as memórias reprimidas. É quase impossível não desconfiar da harmonia doce que oferece. Nisso parece sugerir um acesso intrigante à persistência do material infantil nas ilusões da vida adulta. (Cesar Kiraly)

A chave de casa - Caroline Veilson



Galeria Ibeu convida para a abertura da exposição

A chave de casa - Caroline Veilson
Curadoria: Cesar Kiraly 

Abertura: 3 de setembro (terça-feira), às 18h30
Funcionamento: 4 de setembro a 4 de outubro de 2010, 
de segunda a quinta-feira, das 13h às 19h (às sextas, de 12h às 18h)

Caroline é de uma pequena cidade dos arredores de Porto Alegre e pela primeira vez expõe no Rio de Janeiro. A sua vivência artística se inicia na faculdade, mais especificamente no laboratório de revelação fotográfica. Imediatamente se sentiu atraída pela dimensão apurada e lenta de obtenção de finos resultados. Esse foi um dos motivos da sua passagem à gravura. A sua produção atual concerne aos modos sustentáveis de matrizes e a produção doméstica de papel. Esta individual parte de uma espécie de inversão, como numa gravura, do argumento do livro publicado pela Tatiana Salem Levy em 2007. Neste, Tatiana fala da história de judeus portugueses, caso da sua própria família, que, uma vez expulsos, traziam consigo a chave de suas casas, na esperança de retornar um dia. Caroline trata do acolhimento ao outro a partir dos objetos deixados. A aceitação da memória que restou para trás. Estes artefatos são estudados sequencialmente, e diariamente, até que tenham se feito uma parte da própria observadora. Os resultados são dispostos em séries junto com as suas matrizes. Uma vez que não é o caso de perder o que se foi. Trata-se do recebimento, a partir das complexidades contemporâneas à representação, de um mundo em que a vida dentro é ainda composta de cabideiros, cadeiras de madeira escura, guarda-chuvas e cadeiras de balanço. (Cesar KIraly)

A Escrita Contemporânea sobre Arte Contemporânea | Texto de Cesar Kiraly para Novíssimos 2019


1. A atmosfera da arte contemporânea é composta também pelo que se fala dela. A escrita contemporânea, nesse sentido, possui uma curiosa responsabilidade. Ela se distingue das asserções comuns irrefletidas sobre o que deveria ser uma obra de arte, esculturas bonitas e naturezas mortas, e apresenta o relato vivo de quem esteve disposto a ter a experiência que o artista montou. A escrita contemporânea sofre na linguagem o efeito da arte contemporânea e o manifesta. A mesma liberdade de meios é, ou poderia ser, explorada por quem se expressa sobre; a escrita se oferece para ser utilizada expandida. O texto pode ter elementos imagéticos preponderantes, veiculado a diversos suportes, é possível que retorne à fala como performance ou, convencionalmente, à parede branca.

2. À escrita contemporânea sobre arte contemporânea é passível conter pedaços informativos sobre o trabalho e o artista com os quais se mistura. Eles, apesar de importantes para dar localidade sobre trajetória, matéria e proposta, não podem ser preponderantes. O tipo de expressão que realiza é precedida pelo inicial estado de passividade, quase ao lado, como Aquiles e a Tartaruga. É derramada a primeira gota, como a Tartaruga, o artista sai primeiro. A quem escreve não cabe cobrir o sangue ou apostar corrida e sim correr depois / e nunca alcançar. Se há uma regra é a imobilidade, antes que a arte comece e se possa fazer uma arte depois. A escrita é desencadeada pelo esforço do outro. Daí é que nele se afunda, como quem é tragado para dentro da areia da ampulheta. Não se sabe bem para o que olha a Tartaruga, Aquiles dela não tira os olhos.

3. Assim, falar sobre e como são espécies do gênero falar a partir. A partir descreve aquilo que experimenta, menos para que se possa dar a encontrar um referente e mais para descobrir as palavras adequadas para aquilo que se sentiu. A partir interpreta o sentido do que assiste e oferece esse esforço como um facilitador para quem se coloca em posição parecida, ainda que não com tanta disposição, aprofundamento e ardil. A partir insere a situação, ou pelo menos o seu aroma, em uma nova narrativa  que alegoriza os pontos densos da experiência. A partir ainda permite que a escrita seja móbil para inventar um conceito, cujas partes sejam tomadas da iniciativa atentada. Se, por um lado, as obrigações da escrita contemporânea sobre arte acabam por torná-la pouco atraente ao jornalismo, elas oferecem ao leitor a possibilidade, por vezes arriscada, de ser colocado no centro de um furacão, ao qual só teria acesso depois de muito esforço de gosto e ambientação com diferentes ideias ou de simplesmente ter uma prova da criatividade operando em cumplicidade.

4. A escrita da qual falamos encontra seus principais recursos no ensaio; que por definição é crítico, não no sentido da simples posição do polegar, porém como rastro do gosto aprofundado. O ensaio é a escrita dos céticos, porque nele importa que a subjetividade de quem escreve se misture com o motivo que a desencadeia a dizer. Impropriamente se diz do ensaio um gênero literário ou uma forma. A parte mais importante dele é que se trata de resultado, gênero ou forma, antecedido pela vontade expressiva. Nessa direção é que ele é bastante mais plástico do que outras práticas enunciativas. A poesia, a prosa poética, o aforismo, a narrativa etc. surgem do interesse pelo que não é de quem escreve, por isso se tornam ensaios. Apenas a disposição ao dois, ao três, que é conquistada internamente, por assim dizer, ao movimento causado pelo que é estranho, exterior, outro etc.

5. À escrita contemporânea é vedada a especialidade, nisso é ainda mais virtuosa do que vivendo a partir. Se ela encontra uma maneira de se compor com algo e começa a repetir a identidade, ora, está extinto o risco, e se inicia o virtuosismo. A literatura que se faz desde o contemporâneo não permite, salvo por impostura, ser o dono de um tipo de forma de vida. É-se dela, promiscuamente. A autoridade sobre o corpo, a violência, a terra etc. nada mais é do que esterilidade. Porque se o contemporâneo é apresentado como propriedade, ele cede ao compro ou não compro, quero ou não quero etc. A escrita, no contemporâneo, precisa sacrificar a autoridade. Ela é uma forma de testemunho.