Venezia - Texto de Cesar Kiraly para a exposição de Bruno Tamboreno


O inconsciente estético, consubstancial ao regime estético da arte, manifesta-se na polaridade dessa dupla palavra muda [...] surda de uma potência sem nome que permanece atrás de toda consciência e de todo significado [...]. Jacques Rancière, O Inconsciente Estético, p. 41.

1. Mais do que isso era julgar estar diante de uma prática que lhe deixava à mercê de si mesma, por implicar saltos e estalos vindos de não sabia de onde, porém de uma sorte de dentro. Além da forma de conceber os objetos de modo a que manifestassem não só um predicado dentre muitos, tendo que ser muita coisa, valendo-se de quase tudo. A pintura, o desenho, a gravura, o carvão, posto que sempre havia olhado para si em sua habilidade, jeito, como se diz. A fabricação de suportes, modos expositivos, invenção de materiais, controle do sentido por eles manifestado, idéias e seus ruídos no estado dos acontecimentos do mundo. Não só ter uma máquina, mas um livro, um autor inteiro, dentro de si mesma, capaz de aproveitar os fluxos de consciência por dentro, por vezes, como um aliado, noutras, como um deus enganador. Um que estaria extasiado com todas as topadas em cujas quinas haveria colocado seus joelhos, mas também um mundo passível de ser usado com as mesmas liberdades da imaginação, na lida material, na aquisição de ênfase artística, só que com todos os percalços da aceitação e do prestígio, e suas, inevitáveis, trocas manipuladoras.

2. Até então, podia permitir tal enovelamento, de estados artísticos, à sua vida inconsciente, no ambiente que habitava, pacientemente, porque havia sentido que a profusão de objetos, e meios disponíveis, era, para ela, sem esforço, circunscrita. Aquilo que atendia, por embebimento conceitual, dizia respeito, por agora, pelo menos, ao reconhecimento de artefatos descobertos dentro de casa. A mescla ao silêncio se daria, no acendimento, a partir do reconhecimento da coisa sua, e sobre ela repetiria infindamente, até se satisfazer, com tê-la, em desenho. Assim cozinhava seus papéis à cozinha e mais as matrizes na alquimia de fibras e reflexos metalizados. Essa técnica tão pouco apropriável, para ela, por um tempo, que fosse, seria a vida na alteridade, desde que suas digitais estivessem em tudo que surgisse naquele estúdio.


3. Além dos objetos silenciosos havia Bruno. Ao mesmo tempo em que não se punha rival dos artefatos era parte daquela intimidade. Se não o desenhava, pelo menos não naquele inteiro processo de repetição e gravura, seria fundamental que estivesse ali dentro. Bruno, por sua vez, na sua própria lida íntima, precisava capturar as pessoas e as coisas em movimento cotidiano. O fato de que aqueles entes esperavam que lhes desse assentimento, por alguma razão, tornava-os, para a relação que com eles queria manter, menos interessantes. Não lhe era necessário tê-los disponíveis, que não resistissem à repetição, ele os elegeria e deles se apropriaria pelo revolvimento no vulto passante. As pessoas teriam as suas aparências tratadas como descobertas e não poderiam se saber observadas para que fosse atingido fulminantemente. Bruno não poderia ser invertido, nem desenhado, nem feito em gravura, uma vez que teria se tornado uma criatura ótica por demais perversa em seus próprios meios. Dentro, ao mesmo tempo, estaria todo do lado de fora. Além dos limites das paredes e ainda a acolher estranhos.


4. Ele dizia para ela que a janela era como uma escotilha e as localidades como imensos conglomerados de terra assistidos pelo mar. Por isso todas as cidades seriam como Veneza. A italiana apenas representaria explicitamente o que de modo sutil estaria por todos os lados, não só por causa do aquecimento do planeta, mas como uma condição do deslocamento das pessoas. A vida, do lado de fora, se apresentaria como um dia em que a atmosfera está muito pesada, em que todos sabem que vai chover, e são indiferentes, até que atingidos pela pesada primeira gota, ou como aquele casaco transpassado na bolsa, que depois será notado pela dona como tendo que ter caído, afinal. Esta era a maneira doce de dizer que assistia aqueles que caminham enquanto não se tomam afogados. Ela reagiu dizendo que os objetos dentro de casa não ignoram que o tempo passa, que a pressa que sente ou a falta dela, não tem que ver com se desprezar essa condição. Se as construções são vistas detidamente, está sempre lá, nelas, mesmo se reformadas, aquela marca do ponto mais alto da água acumulada, mesmo com as oscilações das marés. Ele insistiu que a questão não era diferenciar o dentro do fora, porém perceber que na vida, não tão secreta, dos transeuntes, nada os protege de a tudo, ou a quase tudo, perceber. Ainda que só passantes inconscientes, sempre sabiam, sem admitir, que as pernas se movem cada vez mais lentas, que há cada vez mais líquido para mover. Por isso que o importante, para ele, seria acumular camadas de tempo, como se fossem mostrados todos que cruzaram um ponto ou as partes dos que passaram, e ainda os artefatos silenciosos, como ele, que se sabiam observados, porventura invocados ao se lembrar deles. A sobreposição de imagens atravessando o mesmo caminho, alcançado desde a janela. O tempo então também poderia ser dividido entre telas como a demonstrarem oportunidades diferentes de aprofundamento. Além de que seriam como uma medida da água que sobe. Quão mais numerosas, mais fundo está. O mero instante fotográfico não daria nada disso, só o instante, que não explica nada sobre ver a inundação das gentes, nunca esta sorte delicada de desenvolvimento. As divisões são como marcas à porta no acompanhamento do crescimento das crianças.


5. Bruno a ela dizia que todas aquelas pessoas dentro de casa era o modo como encontrara para não fazer como Aschenbach ao jovem Tadzio. Porque assim não haveria porque perseguir os passantes em Veneza. Ora, não importa quantas vezes mais seria visto com água pelas canelas, ignorando-a, mas que seria ridículo correr atrás das pessoas. Isso demostraria que confundiria entre a necessidade de se distrair da umidade, aparecendo nas paredes, e algum tipo de apaixonamento. Dito isso, pensaram, ao mesmo tempo, que o fino equilíbrio seria interrompido no momento em que faltasse espaço para todas aqueles desconhecidos, por agora, redirecionados para ver justamente aquilo que ignoram. A Morte em Veneza, como descrita por Mann, ou montada por Visconti, poderia muito bem ser vivenciada ali, até que nenhuma lembrança fosse mais guardada na água. Para toda alma de um objeto invertido haveria um bem disposto dono transeunte. Quem sabe assim as vozes cessassem, ela o perdoasse e tivessem o silêncio da casa de volta.

6. Bruno deixara esta nota sobre uma série de xilogravuras separadas. Ela a encontrou na manhã em que deveriam deixar a cidade em que moravam e a partir da qual se isolavam e entendiam a inconsciência dos outros em si próprios e rumariam a outra em que o mar os oprimiria por todos os lados. Na citação, lembrou cuidadosamente de dar o crédito do conto A Casa Inundada ao uruguaio Felisberto Hernández:

Eu me cansava de ter esperanças e levantava os remos como se fossem mãos entediadas de contar sempre as mesmas gotas. Mas já sabia que, noutras voltas do barco, terminaria a descobrir, uma vez mais, que esse cansaço era uma pequena mentira misturada a um pouco de felicidade. Então me resignava a esperar as palavras que me viriam daquele mundo quase mudo, de costas para mim, deslizando com o esforço de minhas mãos doloridas.



Cesar Kiraly é professor de Estética e Teoria Política à UFF. Desde 2015 é Curador da Galeria IBEU. Autor, dentre outros, de Fuga sobre o Branco [ ].