02 abril 2012

2012 | GATILHOS, Anton Steenbock - Texto de Fernanda Pequeno

GATILHOS
Fernanda Pequeno


O termo gatilho pode tanto dizer respeito ao disparador de armas de fogo, quanto significar remendo, gambiarra. No segundo caso, alude a consertos paliativos - feitos emergencialmente para que determinada coisa não fique sem uso - e a dispositivos lógicos ou eletromecânicos que disparam determinado trabalho ou função. Em todos os casos, o uso do vocábulo se aplica ao trabalho de Anton Steenbock: tanto no que diz respeito às intervenções urbanas - nas quais o artista compreende a urbe como um espaço de “resistência”, de atuação guerrilheira, onde as “armas” são suas ações -, quanto aos mecanismos que desenvolve. Por mais que um procedimento se nutra do outro, os segundos são o foco da presente exposição.

No imaginário brasileiro, a prática da gambiarra está ligada ao improviso, a um “jeitinho” provisório, que muitas vezes se perpetua. De qualquer maneira, a ela está ligada a precariedade de algo mal acabado, mesmo sendo essas soluções extremamente criativas. Na prática artística de Anton Steenbock, tal procedimento toma contornos gráficos bastante precisos e essa aparência de algo “arranjado” adquire outros delineamentos. Suas fiações e invenções têm engenharia, mas esses projetos ganham ares minimalistas em sua apresentação, desmistificando a noção de que precariedade necessariamente é sinônimo de mau acabamento.

Nessa primeira individual que o artista realiza no Rio de janeiro – Anton Steenbock é alemão, mas vive entre Rio de Janeiro e Berlim -, temos trabalhos de diferentes fases. Fica claro, nesse caso, que Anton não limita sua produção a um suporte ou tema, mas que concentra sua pesquisa em determinado corpus conceitual. A aparência “mambembe” de suas engenhocas, por sua vez, não é circunstancial, mas caso pensado e executado. O interesse do artista por elementos da cultura brasileira, como a referência a despachos de umbanda - bastante presentes nessa exposição - torna-o “observador participante” dessa realidade. Nesse caso, o próprio Anton é “informante”, ao mesmo tempo em que observador atento e curioso dessa cultura, que o interessa e instiga.

Se a ideia de precariedade pode ter raízes estruturais (adversidades sócio-econômicas, culturais etc.), também pode dizer respeito a opções formais, que sugerem a construção a partir de recursos limitados. Mas diferentemente da produção de artistas vinculados a uma “Estética da Gambiarra”¹, os trabalhos de Anton, por mais que se nutram de oferendas religiosas, materiais descartados, entulho, poucos recursos etc. têm uma precariedade extremamente clean, bem arranjada.

É dessa maneira que os desenhos, vídeos, fotografias e instalações que Anton Steenbock realiza são operações formais calculadas. Caderno de Notas, Cesta Básica, Desenhos Técnicos, Reza Forte, True Romance, Vela Auto-extinguível e as fotografias de diferentes séries lidam diretamente com a ideia de gambiarra, o que salienta seu caráter processual, provisório. A galeria, assim, passa a ser entendida não somente como espaço de exposição, mas como um laboratório, onde investigação e experimentação acontecem como extensões do ateliê e da rua, locais de produção do artista. E é assim que os trabalhos de Anton Steenbock funcionam como gatilhos poéticos. A eles, não apenas temos acesso como, em muitos casos, determinamos o rumo que a própria experiência irá tomar.


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¹ Para uma boa definição do termo, ver o Glossário de Arte Contemporânea que Guy Amado assina no site do Itaú Cultural, datado de março / abril de 2009, disponível em: http://www.itaucultural.org.br/index.cfm?cd_pagina=2720&cd_materia=861