19 outubro 2009

2009 | Texto crítico de Ivair Reinaldim para a exposição 'Percursos'

Em Percursos, a artista Cristina Bahiense mostra-nos seus trabalhos recentes, desdobramentos da pesquisa iniciada há cerca de dois anos. Agrupados, aqui, em três diferentes séries – pinturas, desenhos e objetos –, sem que estas sejam demarcadas rigidamente, são frutos de um mesmo pensamento plástico-conceitual, constituído através de dois procedimentos bem definidos: desenho e colagem. É esse processo que caracteriza a investigação espacial que percorre todos os trabalhos expostos.

Mais do que técnicas, desenho e colagem são importantes procedimentos reflexivos. Desenho é projeto e meio de investigação poética. As relações plásticas e formais presentes nesses trabalhos foram cuidadosamente planejadas; porém, todo controle inicial é confrontado com a forte presença da intuição, no momento em que elementos são justapostos, sobrepostos, aproximados e afastados na ação da colagem. Todo planejamento anterior precisa entrar em consonância com escolhas subjetivas da artista. Assim, rigor e espontaneidade são aspectos que se intercomunicam, sem que haja predomínio de um sobre o outro.

Poderíamos ressaltar que é justamente no intercâmbio entre desenho e colagem que o sentido de construção fica mais perceptível nesses trabalhos. De modo irônico, muitos dos materiais utilizados pela artista foram adquiridos em lojas de construção e decoração, tais como placas de MDF, lâminas de acrílico ou diferentes telas plásticas que assumem papel fundamental em sua poética. Ao mesmo tempo, o planejamento do desenho e a sobreposição em camadas da colagem são procedimentos que reforçam essa abordagem construtiva, não só nas relações espaciais internas de cada obra, mas delas com o lugar que ocupam.

Artista-construtora, Cristina Bahiense projeta, corta, cola, molda, estrutura seus trabalhos. Materiais e formas assumem posições no suporte, avançam da e pela parede, traçam suas sombras, constroem seu espaço, representam os percursos que a artista propõe ao nosso olhar inquiridor. Trabalhos que, em toda sua potência, apresentam a aparência de uma espontaneidade-controlada, daquele aspecto instigante que existe em toda [aparente] contradição de opostos.


Ivair Reinaldim, novembro de 2009