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Raízes Entrelaçadas - 200 Anos de Amizade transformando o Futuro

 


A Embaixada e Consulados dos Estados Unidos no Brasil, em parceria com o IBEU, têm o prazer de convidar para o coquetel de inauguração da exposição Raízes Entrelaçadas: 200 anos de amizade transformando o futuro. 

GALERIA DE ARTE IBEU - 23/09 (2ª feira), às 18 horas
Endereço: Rua Maria Angélica, 168 - Jardim Botânico.

Raízes Entrelaçadas é uma exposição que celebra os 200 anos de relações diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos. Com curadoria de João Kulcsár, ex-aluno da Fulbright e professor do Senac-SP, a mostra reúne um conjunto de 33 fotografias que revelam como as duas nações construíram uma sólida relação de amizade e parceria em temas como democracia, liberdade, direitos humanos e combate às mudanças climáticas. A mostra é gratuita e estará aberta de 24 de setembro a 18 de outubro de 2024 na Galeria de Arte IBEU.

RSVP | Retire seu ingresso na plataforma Sympla:
https://bit.ly/4guUpgt


Texto de Jonatas Tosta para a exposição MARAVILHAS DO BRASIL

A cada toque na superfície em branco, os Artistas Pintores com a Boca e os Pés compõem seu manifesto sobre a magnitude da vida; sobretudo, por atestarem que a vida se dilata para além da materialidade do corpo. A beleza íntima, corporificada na ponta do pincel, concebe cor e forma ao vazio da tela, oferecendo-nos o testemunho de que reside neles a inescapável liberdade.


Adentrando o silêncio da galeria, observamos a constelação composta por 30 quadros. Entre um e outro piscar de olhos, pomo-nos em lugar do artista. Sem o domínio dos membros superiores, atentamos à boca.  A obra diante de nós não foi criada pela precisão dos dedos, mas brotou dos lábios, dum longo e delicado beijo, através do qual a ponta das cerdas nutriu os veios de um rio, desaguando no mar de cores. E as longas ondas não foram conduzidas por ventos, mas pelos músculos do maxilar. De entre os dedos do pé, nasceram o céu e as estrelas, e o sol se escondeu outra vez, dobrando as montanhas à altura da noite.


Vemos as luzes da cidade crescerem sobre o reflexo na lagoa. Em festa sorrimos, venerando a majestade do bumba meu boi. Da boca aberta foge um pássaro de bico vermelho. Pousa num galho viçoso e nos observa; enquanto, ao fundo, o sino da igreja toca o meio-dia. Conseguinte, as araras namoram abraçadas debaixo da mesma pluma azul.


Os coqueiros não se dobram sob o peso dos homens, que finalmente alcançam o fruto fresco.  Desviamos a atenção para o lado, de onde vem som da sineta do bonde, e por onde os trilhos de Santa Teresa descem. Somos levados à ponte que corta o ventre da mata costeira, e ao fim pisamos a fina areia. Então, com os pés soltos no ar, limpamos das solas a poeira.


A oeste, dois irmãos de pedra observam os amantes caminhando sobre as águas; e ao norte, as araras projetam o bico no espelho do cerrado. Mais a sudeste, resiste o oásis de árvores à secura do deserto urbano. Contudo, no ventre árido do sertão, o vaidoso mandacaru nunca arreda, exibe sem um pingo de vergonha sua bela flor.


Descemos até o portal da cidade. Aceitamos o convite para provar de suas águas. E adiante, angras ameaçam qualquer barca que não seja humilde o suficiente para navegar entre suas presas.


Ainda nas cercanias da costa, subimos ao museu, cuja altitude nos afasta o esquecimento. Em sumo acordo, os pequenos olhos do cacique emitem um distante brilho. O seu silêncio guarda a memória de nossa origem. Não muito longe, ainda resiste a ruína serrana tombada, indício de que o mundo todo cai, se aparta a beleza, mas a voz de uma cachoeira ensina que a natureza nos espera nua, de seio aberto.


Contra o mar e os peixes, três homens lutam tendo apenas por testemunha o crepúsculo. Enquanto a tarde vermelha se oculta, sempre à espreita, uma onça avança na mata.


Sabemos que a luz que cinge o céu é semelhante em todas as paisagens, entretanto, o modo como descortina a verdura do Jardim Botânico revela sua face mais atrevida; diluindo-se, em seguida, lá do alto da Guanabara. Não se sabe de onde vem ou para onde vai, mas é notável o modo que ilumina as ilhas pontilhando a costa; e mais avante, do outro lado do estado, se espraia sobre uma igrejinha cravada na rocha. Subindo o mirante baiano, vários degraus acima do chão, não há nada além de mar, por qual a cintilância se vai perdendo no horizonte.


Voltamos ao chão. A festa sem fim arranca novo sorriso. Com uma mão dada ao boneco de Olinda, e a outra, ao Cristo Redentor, encantados pela marcha da Folia de Reis, completamos a ciranda ao redor do Pão de Açúcar.

 

Assim, a arte afasta o mito de que toda existência se encerra no corpo. Como podem notar, um olhar breve sobre nossos artistas é suficiente prova de que não há máquina ou ciência ou modernidade possíveis que superem o mistério de nós mesmos. Ao compartilhar sua luz através da tinta, o invisível se torna indivisível, algo que nem o tempo pode nos roubar.



Jonatas Tosta, escritor e professor

Catálogo da Exposição Maravilhas do Brasil

MARAVILHAS DO BRASIL - Exposição dos artistas da Associação dos Pintores com a Boca e os Pés

 

Galeria de Arte IBEU e o Consulado Geral dos Estados Unidos no Rio de Janeiro apresentam a exposição "Maravilhas do Brasil", mostra coletiva que reúne 30 obras de artistas da Associação dos Pintores com a Boca e os Pés - APBP, organização internacional que, desde 1967, tem como missão reunir artistas que tenham perdido o uso das mãos e desenvolvam sua arte a partir da técnica de segurar o pincel com a boca ou com os pés.

Nas palavras de Marcelo Cunha, escritor, artista, membro associado da APBP e curador da mostra, as obras presentes em Maravilhas do Brasil "surgiram como fruto da dedicação de artistas imersos nas possibilidades de eternizar fragmentos da diversidade cultural, das paisagens de beleza singular, e da rica fauna e flora endêmica de um Brasil continental. Cada imagem é uma viagem pictórica, decodificada em estilo, técnicas e cores distintas. Em cada detalhe se destaca, mais do que o anseio da produção de uma obra, a evidência de como a arte ainda desponta como uma ferramenta eficaz para a inclusão plena e digna."

No dia 19 de agosto, às 18 horas, será realizado um coquetel para convidados. Na ocasião, será realizada uma apresentação musical do Coral Ponto de Vista, formado por alunos do Instituto Benjamin Constant - IBC. 

A mostra estará aberta à visitação do público no período de 20/08 a 13/09, de segunda a quinta, das 13h às 19h, e sextas, de 12h às 18h.


Coquetel de Inauguração | RSVP - Retire seu ingresso no Sympla:



EXPOSIÇÃO "MARAVILHAS DO BRASIL"
Inauguração: 19 de agosto, às 18 horas.
Visitação: 20/08 a 13/09.

Galeria de Arte IBEU
Rua Maria Angélica, 168 - Jardim Botânico, RJ.

Texto de Jozias Benedicto para a exposição de Fabi Cunha

O mundo é um jardim. Uma luz banha o mundo.
A limpeza do ar, os verdes depois das chuvas (...)
Esta tarde inesquecível Deus me deu. Limpou meus olhos e vi.

Adélia Prado, Graça


Enquanto examino as obras que a artista Fabi Cunha traz para “ALTAR”, sua exposição individual na Galeria Ibeu, fico imaginando o espaço – casa, ateliê da artista – onde as obras foram concebidas e executadas com esmero: incrustado na Mata Atlântica, montanhas ao fundo, o cheiro da chuva sobre a relva, sobre as folhas secas, “os verdes depois das chuvas”, passarinhos cantando solitários ou em bandos, animais de médio porte que encaram em desafio os invasores, nós, os ditos civilizados. 

Penso em poetas como Adélia Prado que, na simplicidade cotidiana de Divinópolis, Minas Gerais, encontra rotas para o sagrado, para a transcendência, e leio como Fabi descreve seu processo criativo: “sua inspiração é a natureza, onde a artista se conecta com o divino e encontra paz interior”. Mais de que uma fé em ritos formais de religiões institucionalizadas, a artista navega em pensamento e sensibilidade e encontra a sua conexão com o divino através da natureza e da arte.


E penso em outro poeta das coisas simples, Manoel de Barros, que descreve um seu irmão que teria aceito o pedido de um passarinho para ser sua árvore: “No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo / mais do que os padres lhes ensinavam no internato. / Aprendeu com a natureza o perfume de Deus.”

As pinturas da artista também exalam este perfume de um Deus das pequenas coisas, de um viver um dia após o outro, uma estação após a outra, do efêmero e do eterno, da espera e de reencontros. A preocupação ecológica de Fabi Cunha se evidencia em sua escolha de tintas e pigmentos com menor toxicidade, e penso então que a palavra ecologia tem origem no grego oikos, que significa casa.

São pinturas em sua maioria de grandes tamanhos, e mostram flores, árvores, folhagens, borboletas, passarinhos e também santos, criaturas que fazem a intermediação entre o humano e o sagrado. São figuras em meio a abstrações muito coloridas, “massas de cor e raios de luz, que apontam para um progressivo desprendimento da forma”, inspiradas na luxuriante paisagem que a circunda. Como o irmão do poeta no estágio de ser árvore, o olho da artista “aprendeu melhor o azul”. 


Assim como a natureza invade as pinturas de Fabi, sua obra deixa o bidimensional e invade o espaço com objetos/instalações feitos a partir de madeiras e resíduos coletados na Mata Atlântica. Um deles, o ALTAR, sintetiza a pesquisa da artista e dá nome à mostra, uma obra em progresso, uma instalação viva, ao centro do espaço expositivo, que desafia os visitantes a não serem apenas espectadores e sim participantes: a permanência da vida das plantas no altar depende dos visitantes que façam um pequeno gesto, regando-as com os borrifadores que a artista deixa à sua disposição. Sim, todos podemos fazer pequenos gestos e com estes pequenos gestos contribuirmos muito para a vida, para a sobrevivência da humanidade e do planeta.

E voltando aos poetas, penso em Adélia em “A poesia, a salvação e a vida”: “Eu não sei o que é, / mas sei que existe um grão de salvação / escondido nas coisas deste mundo”. E também não posso deixar de lembrar de Manoel e seu irmão que “agradecia a Deus aquela permanência em árvore / porque fez amizade com as borboletas”. Certamente com Fabi Cunha e seu trabalho nós todos temos a oportunidade de fazer amizade com as borboletas e os pássaros e também de descobrir o oculto grão de salvação.


Jozias Benedicto
Escritor, curador e artista visual
Maio/2024

ALTAR - Fabi Cunha

 

Galeria Ibeu convida para a inauguração da mostra ALTAR, exposição individual da artista Fabi Cunha, com curadoria do escritor e artista visual Jozias Benedicto. Em exibição, pinturas de grandes formatos e objetos/instalações elaborados pela artista a partir de madeiras e resíduos coletados na Mata Atlântica.

Assim Fabiana descreve seu processo criativo: “sua inspiração é a natureza, onde a artista se conecta com o divino e encontra paz interior”. Mais que uma fé em ritos formais de religiões institucionalizadas, a artista navega em pensamento e sensibilidade e encontra a sua conexão com o divino através da natureza e da arte. As pinturas consistem em figuras de folhas, passarinhos, borboletas e santos, em meio a abstrações muito coloridas, “massas de cor e raios de luz, que apontam para um progressivo desprendimento da forma”, inspiradas na luxuriante paisagem que a circunda em sua casa/ateliê na serra fluminense.

A instalação “Altar”, que sintetiza a pesquisa de Fabiana e dá nome à mostra, é uma instalação viva que desafia os visitantes à participação, já que a permanência da vida das plantas no Altar depende dos visitantes que façam um pequeno gesto, regando-as com os borrifadores que a artista deixa à sua disposição. Para o curador, “a mensagem da artista é que todos podemos fazer pequenos gestos e com estes pequenos gestos contribuirmos muito para a vida, para a sobrevivência da humanidade e do planeta”. A preocupação ecológica de Fabiana se evidencia também em sua escolha de tintas e pigmentos com menor toxicidade, lembrando que a palavra ecologia tem origem no grego oikos, que significa casa.


Serviço:

ALTAR - Fabi Cunha
Curadoria Jozias Benedicto
Inauguração: 17 de julho de 2024, às 18h
Visitação: 18 de julho a 9 de agosto
Horário: segunda a quinta, de 13h às 19h; sextas, de12h às 18h.

Galeria Ibeu - Rua Maria Angélica, 168 - Jardim Botânico, RJ


Texto de Jozias Benedicto para a individual de Renata Nassur

 


Um fio invisível de deslumbrado espanto me guia (...)

Sirvo para que as coisas se vejam.

Sophia de Mello Breyner Andresen


O deslumbrado espanto de quem percebe as coisas pela primeira vez – este é o motor do processo criativo do artista, do adulto que soube permanecer criança ao preservar (ou recuperar) aquele dom da primeira visão. O trabalho de Renata Nassur é feito deste deslumbre, deste “espanto silencioso”, no dizer da artista, aliado à técnica delicada e à precisão conceitual.

Para Renata, “nem tudo que se vê é o que parece à primeira vista” e continua: “gosto de pensar sobre isso enquanto desenho, no encantamento de olhar para algo pela primeira vez”. Na Galeria Ibeu, a artista nos apresenta desenhos, pinturas e um vídeo que tecem o “fio invisível” de sutil narrativa, tratando das questões que deixam perplexas as crianças e atravessam o universo dos adultos: a realidade e a representação, o tempo, a efemeridade das coisas, a memória e o apagamento.

O olhar do espectador é capturado pela pequena pintura a partir da foto 3x4 de uma carteira de trabalho dos anos 1970 – a carteira de trabalho do pai da artista. Retrato de família, mas também um retrato da época, de um Brasil que se modernizava e onde a carteira de trabalho significava o salvo-conduto para uma vida melhor, para o futuro ao alcance das mãos, para o “em se plantando, tudo cresce e floresce”.


Não sabemos quantas esperanças ficaram para trás em quantas carteiras de trabalho como a que Renata afetuosamente replica nesta pintura. Como também não sabemos quantas desesperanças estão contidas nas aquarelas feitas a partir de recortes de jornais: os obituários e os anúncios de classificados de garotas de programa – a fama ao alcance de todos em um jornal de grande circulação, mesmo que somente na hora da morte ou no momento em que o corpo vira mercadoria. Ao transformar em arte o trivial, o sem qualidades, é como se a artista nos repetisse para não esquecermos: lembra-te que és pó e ao pó retornarás.

Na série “Verso”, cartões postais antigos comprados em lotes pela internet são replicados pela artista em minucioso trabalho de aquarela – apenas os versos dos postais, sem as imagens que poderiam dar sentido “estético” à apropriação, exibidos ao espectador como fragmentos de um ininteligível romance à clef: Quem é Gil, que recebeu o cartão?, quem seria Roger, que escreveu de Segovia “com um pouco de humor”? quem é Anna Karina, que logo iria dançar “El Tango”?, quem somos nós, espectadores, que tentamos criar histórias, dar sentido a fatos aleatórios?


A dicotomia entre o efêmero e o eterno se faz presente também no diálogo entre duas séries: as nuvens e as pedras portuguesas. Estas últimas são aquarelas feitas a partir da coleta e observação de pedras retiradas do calçamento no caminho diário da artista para seu ateliê. Para as nuvens, a observação de Renata se volta para a grande arte, a pintura de paisagem dos séculos XVII a XIX, e a artista “recorta” detalhes de nuvens, reproduzindo-as em pinturas a óleo sobre tela em pequenos tamanhos.

Esta percepção da finitude está exacerbada no vídeo, que a artista produziu no tempo do isolamento pela pandemia da covid-19. Aparentemente nada se move na tela, talvez o vento, talvez os fantasmas, talvez aquele vulto rápido seja a senhora da foice ou talvez uma impressão apenas ou um defeito da câmera. Talvez. Talvez seja tudo apenas isso, impressões, como as esperanças nas carteiras de trabalho, nos anúncios das garotas de programa, na crença de eternidade nos obituários, nas nuvens que se desfazem na segunda passagem de olhos, nas pedras que, sólidas, também se desmancham no ar.

A artista nos diz com sua arte o que nos escreveu a poeta: “sirvo para que as coisas se vejam”. E ao ver as coisas com o olhar de Renata, os objetos vulgares ganham a verdadeira vida, aquela que não é feita de decadência, morte e esquecimento e sim de perenidade.


Jozias Benedicto
Escritor, artista visual e curador

Texto de Jozias Benedicto para a individual de Henrique de França

 


“Aquilo que acontece por necessidade, aquilo que é esperado
e que se repete todos os dias, não é senão uma coisa muda.
Somente o acaso tem voz”

Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser

 

Ao examinarmos com vagar os desenhos e pinturas que Henrique de França nos apresenta nesta sua mostra, o que nos chama a atenção e nos envolve silenciosamente não é apenas a beleza formal e a técnica primorosa e sim um estranhamento, como se uma fresta se abrisse e através dela irrompesse o inesperado: algo que está lá, mas não está; ou algo que não está lá, mas está.


Um breve momento e esta fenda se fecha, a beleza das pinturas e desenhos volta a acariciar nossas retinas, até a abertura de nova fresta. Não é uma sensação desagradável, pelo contrário: é como se a visão de outro universo, com regras próprias, levasse nossas mentes a uma viagem da qual retornamos mais vivos. É como se os trabalhos do artista também estivessem vivos e nos convidando a viajar em seus mundos, nos propondo diálogos infindáveis.


Esta janela para novas realidades é um estranhamento no sentido em que Freud descreve, o Unheimliche, que faz referência ao que deveria permanecer secreto, oculto, mas apareceu. E assim chegamos ao papel do acaso, do estranhamento dos personagens de Milan Kundera ao constatar que inúmeros acontecimentos importantes em suas vidas na vida de todos nós – não são fruto do livre-arbítrio, de ações deliberadas e sim do simples acaso. Nos trabalhos de Henrique de França o acaso se faz presente a partir do processo adotado pelo artista na construção de seus desenhos e pinturas.



Henrique utiliza como matéria prima imagens de fotografias antigas de álbuns de família, isolando elementos de fotos diferentes, de tempos e lugares diversos e os recombinando em novas imagens, em novas narrativas; o papel do acaso é fundamental ao guiar ou a libertar o artista nestas montagens. Segundo ele, sempre deixando algo talvez fora do lugar, um elemento narrativo estranho e aberto, que confunda realidade com sonho, uma pergunta sobre o que aconteceu ou está para acontecer na imagem. O momento retratado busca ser o frame intermediário de algo além do que está na imagem. Ao escolher a frase do escritor tcheco como título de sua exposição, Henrique busca evidenciar esses encontros levianos de imagens de diferentes fontes, mas que podem tomar um peso maior à medida em que se configuram em novas e velhas histórias.


Nos desenhos, o artista emprega lápis sobre papel e relata: uso uma variedade de lápis, desde os mais duros até os mais escuros, e os papéis são brancos, mas não totalmente alvos, eles têm esse aspecto natural e que se assemelha, inclusive, ao branco esmaecido dos papéis das fotografias antigas. Neles eu busco trabalhar o vazio, além de explorar espaços negativos e interrupções”.



nas pinturas, o que chama a atenção é uma camada de tinta azul que as finaliza. Além das referências à História da Arte, do lápis-lazúli e dos mantos das Virgens do Renascimento até o azul de Yves Klein podemos ver neste azul um arrematedo estranhamento, como se o Unheimliche, após vazar pelas frestas das paisagens e narrativas, se espalhasse pela superfície pictórica – “um véu transparente” – reiterando ao espectador: você está aí e eu estou aqui mas quem sabe não sejamos nós apenas frutos do diálogo entre a mão do artista e o olho do espectador, frutos talvez de um acaso, mais um entre tantos.


Para Yves Klein, "o azul não tem dimensões, ele 'é'”. A camada azul sobre as pinturas é como o narrador de Kundera, ao consolaro personagem Tomas asseverando que só o acaso tem voz, e que as circunstâncias fortuitas que o uniram a Tereza, bem, não são muito diversas do que a humanidade experimenta em grande parte dos acontecimentos. Talvez nós é que busquemos, o tempo todo, significados nas estrelas, deliberação divina ou a força do destino onde, enfim, só haja mesmo o acaso.



Jozias Benedicto
Maio/2024


Primeiras visões das coisas - Renata Nassur

 



Galeria de Arte Ibeu convida para a inauguração das exposições individuais simultâneas “Somente o acaso tem voz”, do paulista Henrique de França, e “Primeiras visões das coisas”, de Renata Nassur, paranaense radicada no Rio de Janeiro, ambas as mostras com curadoria do escritor e artista visual Jozias Benedicto.

Em “Primeiras visões das coisas”, a artista Renata Nassur apresenta seis séries de desenhos e pinturas, bem como um vídeo produzido durante o isolamento pela pandemia da covid-19. São trabalhos que tecem o “fio invisível” de sutil narrativa, tratando das questões como a realidade e a representação, o tempo, a efemeridade das coisas, a memória e o apagamento. Em duas das séries, a artista se utiliza da técnica da aquarela para replicar, em trabalho minucioso, recortes de jornais: obituários e classificados de garotas de programa. Já na série “Verso”, Renata reproduz o verso de cartões-postais antigos, comprados em lotes pela internet, ignorando as imagens que dariam sentido aos cartões e apresentando, nas palavras do curador, “fragmentos de um ininteligível romance à clef”. Nas pequenas pinturas a óleo da série “Nuvens”, a artista vai até a História da Arte, “recortando” detalhes de paisagens dos séculos XVII a XIX, contrapondo-as às aquarelas feitas a partir de pedras portuguesas retiradas e depois devolvidas às calçadas de seu caminho diário. Da mesma forma, ao reproduzir em pintura em tamanho natural a foto 3x4 da carteira de trabalho dos anos 1970 de seu pai, a artista nos mostra como outro olhar o efêmero ou esquecido, com o deslumbrado espanto de quem percebe as coisas pela primeira vez.

Abertura para convidados: 13 de junho, das 18h às 21h30

RSVP | Retire seu convite no Sympla:
https://bit.ly/4c0UqG2

Visitação: 14/06 a 05/07
Horário de funcionamento: de segunda a quinta, de 13h às 19h; sextas, de 12h às 18h.


Galeria de Arte Ibeu
Rua Maria Angélica, 168 - Jardim Botânico, RJ

Somente o acaso tem voz - Henrique de França

 


Galeria de Arte Ibeu convida para a inauguração das exposições individuais simultâneas “Somente o acaso tem voz”, do paulista Henrique de França, e “Primeiras visões das coisas”, de Renata Nassur, paranaense radicada no Rio de Janeiro, ambas as mostras com curadoria do escritor e artista visual Jozias Benedicto.


Em “Somente o Acaso Tem Voz" o artista Henrique de França apresenta 6 pinturas em óleo sobre tela e 3 desenhos em lápis sobre papel, onde o acaso desempenha um papel preponderante no processo de construção das obras. O artista trabalha a partir de imagens de fotografias antigas de álbuns de família, isolando elementos de diferentes fontes, de tempos e lugares diversos, e os recombina em novas imagens, em novas narrativas. Estas imagens são trabalhadas em delicadas pinturas ou em desenhos nos quais o artista explora vazios, espaços negativos e interrupções. Para Henrique, “o momento retratado busca ser o frame intermediário de algo que acabou de acontecer ou está para acontecer”. Com isto, as obras envolvem o espectador em um estranhamento no sentido em que Freud descreve, o Unheimliche, que significa algo que deveria permanecer secreto, oculto, mas apareceu. As pinturas são finalizadas com uma camada de tinta azul, como um “véu transparente”, o que faz referência à História da Arte – dos mantos das Virgens do Renascimento ao azul de Yves Klein – e também exacerbando no espectador este estranhamento. Sobre os trabalhos de Henrique, declara o curador: “É como se os trabalhos do artista também estivessem vivos e nos convidando a viajar em seus mundos, nos propondo diálogos infindáveis.” 


Abertura para convidados: 13 de junho, das 18h às 21h30 

RSVP | Retire seu convite no Sympla:

Visitação: 14/06 a 05/07
Horário de funcionamento: de segunda a quinta, de 13h às 19h; sextas, de 12h às 18h.


Galeria de Arte Ibeu 
Rua Maria Angélica, 168 - Jardim Botânico


Texto crítico de Jozias Benedicto para a exposição "Para sempre até"


O todo: a floresta, o planeta, o universo. Os pedaços: as árvores, as folhas, flores e pequenos frutos, as sementes. Os fragmentos caem e formam tapetes de matéria orgânica, alimento para o solo. Respire fundo, entre na floresta, se perca nela, olhe para o alto: uma réstea do céu entre as copas das árvores. Sinta o calor do sol filtrado pelas camadas e camadas de galhos, ramos, arbustos, ninhos de pássaros, trepadeiras, bromélias, orquídeas. Olhe para baixo, veja os pequenos pedaços. Fique de joelhos, cheire a terra, as folhas, os pedaços que se dissolvem em umidade, sustento para o solo e para as raízes, seiva que sobe pelas árvores até chegar ao sol. A luz e a penumbra, as noites plenas de respirações e mistérios.

Se o mundo cair em pedaços…


Em 2019, as artistas visuais Cláudia Tavares e Renata Cruz participaram de uma residência artística na Vila de Paranapiacaba, São Paulo, no topo da Serra do Mar, em plena Mata Atlântica. A imersão na floresta, a sensação da perenidade do ecossistema e da regularidade de seus ciclos, mesmo sob a ameaça crescente do homem-civilizado-predador. As leituras e conversas, a vivência e o fazer artístico sempre renovado no registro das experiências – Renata com desenhos e aquarelas, com palavras e colagens, com instalações; Cláudia utilizando-se da fotografia, do vídeo e da apropriação de elementos da natureza – serviram de régua e compasso para a elaboração deste projeto selecionado pela Galeria Ibeu em 2020.

O mundo cai em pedaços, mas só aos pedaços se constrói algo”, o poema da escritora uruguaia Cristina Peri Rossi descreve o fazer das artistas, inventando um novo mundo com suas memórias e seus registros da floresta.


Os desenhos de Renata saltam das paredes e se unem, arquitetando pelo espaço expositivo, “árvores”, entre as quais o espectador pode passear e fazer suas descobertas. As fotografias e objetos de Cláudia se espalham pelas paredes e o chão, como corpos celestes ancorados a um horizonte de palavras, os “até”.

Com sensibilidade e esmero, as artistas nos trouxeram de sua vivência na Mata Atlântica um mundo que respira, vivo, no espaço da galeria – e é interessante lembrar que a galeria fica a uma pequena caminhada de trilhas que nos levam à Floresta da Tijuca, a terceira maior floresta urbana do mundo – e que foi totalmente reconstruída no século XIX, após ser destruída pela exploração agrícola sem planejamento.

Talvez ainda seja possível?, as artistas nos perguntam e nos desafiam: a partir destes fragmentos trazidos da Floresta em suas bagagens e em suas memórias e que “teceram na relação”, na vivência – que cada um de nós possa (re)construir o todo, a floresta, o planeta, os infinitos universos.


Jozias Benedicto
Escritor, artista visual e curador
Abril de 2024




Para sempre até - Claudia Tavares e Renata Cruz



A exposição “Para sempre até”, das artistas Cláudia Tavares e Renata Cruz, com curadoria de Jozias Benedicto, teve como inspiração uma residência rtística na Vila de Paranapiacaba, São Paulo, no topo da Serra do Mar, em plena Mata Atlântica, que as artistas vivenciaram em 2017. A imersão na floresta, associada às leituras e debates, foram o ponto de partida para a elaboração, pelas artistas, deste projeto que foi selecionado pela Galeria IBEU.


Uma frase da escritora uruguaia Fernanda Trías, “O mundo cai em pedaços, mas só aos pedaços se constrói algo”, descreve a proposta das artistas, inventando, para os visitantes da exposição, um novo mundo com suas memórias e seus registros da floresta. Os desenhos de Renata, de sua série “Para sempre um dia”, saltam das paredes e se unem, arquitetando “árvores”, criando caminhos entre os quais o espectador pode passear e fazer suas descobertas. As fotografias e os objetos que Cláudia recolhe e ressignifica se espalham pelas paredes, como corpos celestes ancorados a um horizonte de palavras, os “até”.

Com sensibilidade e esmero, as artistas nos convidam a entrar neste mundo que construíram e que respira, vivo, no espaço expositivo - e é interessante lembrar que a galeria fica a uma pequena caminhada de trilhas que nos levam à Floresta da Tijuca, a terceira maior floresta urbana do mundo.


Serviço :
“Para sempre até” - Exposição individual simultânea das artistas Cláudia Tavares e Renata Cruz
Curadoria: Jozias Benedicto
Galeria Ibeu - Rua Maria Angélica, 168 - Jardim Botânico, RJ
Abertura para convidados: 8 de maio, das 18h às 21h

Visitação: 9 a 31 de maio de 2024
Horário de visitação: segunda a quinta, de 13h às 19h; sextas, de 12h às 18h.
Entrada franca - sem restrição de idade

Texto crítico de Luiz Alberto Oliveira para a individual de Alessandra Vaghi

 


Uma Reflexão sobre Ritual e Sacrifício
Sobre a exposição “Hecatombe”, de Alessandra Vaghi
Luiz Alberto Oliveira

Na antiga Hélade, foram costumeiros os rituais em que animais eram sacrificados para propiciar os Deuses, dentre eles Hera, soberana do Olimpo e protetora dos lares, e Atena, divindade da sabedoria e da guerra. Quanto o número de animais era grande, a cerimônia era chamada de “Hecatombe” (o termo grego original designava a matança de 100 reses). Em nossos dicionários, o termo passou a significar chacina, massacre, carnificina. E, por certo, não apenas de animais de pastoreio.

O conjunto de trabalhos artísticos que Alessandra Vaghi nos apresenta sob este título oferece várias dimensões de reflexão. A mais imediata diz respeito a uma inflexão que vivemos na sociedade contemporânea: a hecatombe é das matas, em favor dos bovinos. O exame de mapas da cobertura vegetal no Brasil de algumas décadas para cá não deixa dúvidas acerca do morticínio em larga escala desfechado contra savanas e florestas, a ferro – e a fogo. Pois um segundo viés de devastação ampla foi o da conversão de madeira em carvão, em particular para uso em siderúrgicas. Deixando de fabricar ar, a mata fornece fogo para forjar o ferro; a contemplação dos sacos alinhados de lenho carbonizado inevitavelmente nos questiona sobre sua origem. 


Em seguida, e ainda mais profundamente, somos conduzidos da substância para a luz – ou, antes, para sua abolição. É o negrume do carvão, por contraste, a fonte principal para o transluzimento do ambiente; a claridade diáfana dos feixes luminosos da cave onde os gestos rituais se desempenham – subterrâneos, silenciosos, suaves – abduz, e compõe, com o peso escuro da muralha de sacos. Este cenário íntimo, recluso, hospeda a sequência de movimentos pelas quais uma moradia – o lugar onde a gente se demora – é constituída sob nossas vistas, encarnada nos utensílios que põe o banco como mesa. Este domicílio improvável é como que o avesso da paisagem vista do alto, tão belamente exposta ao lado; tal como lá a vida se diferencia e espraia, aqui é a feminilidade que se multiplica.

De Jorge Luis Borges aos paradoxos quânticos e às histórias em quadrinhos, o conceito de multiverso se disseminou largamente em nossa cultura. O rol de questionamentos que Alessandra nos traz tão sutilmente talvez tenham como eixo integrador, fundacional ainda que indiscernível, fulgurante ainda que obscuro, o mistério mesmo de que as Deusas arcaicas eram símbolo: o da potência multiversal do feminino.


Rio, 03 de Abril de 2024

Hecatombe - Alessandra Vaghi

 


A Galeria de Arte IBEU inaugura no dia 9 de abril a individual Hecatombe da artista Alessandra Vaghi. Com curadoria de Luiz Alberto Oliveira, a exposição apresenta uma instalação com sacos de carvão e reúne obras como vídeos, fotografia e esculturas de cerâmica. Durante o coquetel para os convidados, a partir das 17h, serão apresentadas sessões do vídeo A Última Ceia.

Segundo o curador, Luiz Alberto Oliveira, "o conjunto de trabalhos artísticos que Alessandra Vaghi nos apresenta sob este título oferece várias dimensões de reflexão. A mais imediata diz respeito a uma inflexão que vivemos na sociedade contemporânea: a hecatombe é das matas, em favor dos bovinos. (...) Um segundo viés de devastação ampla foi o da conversão de madeira em carvão, em particular para uso em siderúrgicas. Deixando de fabricar ar, a mata fornece fogo para forjar o ferro; a contemplação dos sacos alinhados de lenho carbonizado inevitavelmente nos questiona sobre sua origem."

Sobre os trabalhos em vídeo, produzidos e performados pela artista, Luiz Alberto Oliveira nos diz: "De Jorge Luis Borges aos paradoxos quânticos e às histórias em quadrinhos, o conceito de multiverso se disseminou largamente em nossa cultura. O rol de questionamentos que Alessandra nos traz tão sutilmente talvez tenham como eixo integrador, fundacional ainda que indiscernível, fulgurante ainda que obscuro, o mistério mesmo de que as Deusas arcaicas eram símbolo: o da potência multiversal do feminino."


SERVIÇO:
Título: Hecatombe
Curadoria e texto crítico: Luiz Alberto Oliveira
Local: Galeria de Arte IBEU (Rua Maria Angélica, 168 – Jardim Botânico)
Inauguração: 03 de abril de 2024 
Visitação: 04 a 30 de abril – segunda a quinta, das 13h às 19h; sextas, de 12h às 18h.

Carlos Vergara na Galeria de Arte IBEU

 


Carlos Vergara, um dos expoentes da história da arte brasileira, é o nosso convidado para celebrar a retomada das atividades da Galeria de Arte IBEU. No dia 14 de novembro, o artista inaugura a individual “Devassos no Paraíso”, com curadoria de Ulisses Carrilho, em um evento para convidados. Na exposição, o público conhecerá uma série de fotografias produzidas pelo artista durante a década de 1970, além de pinturas e monotipias recentes relacionadas ao tema do Carnaval do Rio de Janeiro.

A mostra fica disponível para o publico em geral a partir de quinta-feira, dia (16/11), e segue até o dia 9 de fevereiro de 2024, com entrada gratuita, das 13h às 19h, de segunda a quinta, e de meio-dia às 18h, às sextas.



SERVIÇO:
Exposição "Devassos no Paraíso", de Carlos Vergara
Curadoria: Ulisses Carrilho
Inauguração: 14/11/23, às 18h
Visitação: 16/11/2023 a 9/2/2024
Horário: Segunda a quinta-feira, das 13h às 19h; sextas, das 12h às 18h.
Endereço: Galeria de Arte IBEU - Rua Maria Angélica, 168 - Jardim Botânico, Rio de Janeiro

Texto de Cesar Kiraly para a individual "No campo das beterradas", de Mario Camargo

1. Uma linha traçada com terra avolumada, depois um sem números de pequenos buracos, para um campo de beterrabas só faltam as sementes. Ainda que demorasse muito, mesmo sem plantar, não seria possível um broto? Os pássaros, o vento, a explosão do celeiro? São tantos os caminhos para tê-lo, quase perco o fôlego. Pensando assim é quase um absurdo não multiplicar as linhas pacientes à germinação.

2. Esther Emílio Carlos, incansável, dona de uma belíssima coleção, não dividia o quarto de dormir com obras de arte. A lida contínua faz redobrar à vigília aos estímulos nos instantes antes de dormir. Apenas um trabalho antecedia o sono, uma tela do Mario Camargo. Não é o Mario de hoje, claro, não havia ainda o desafio do material a levá-lo do epílogo moderno ao prólogo da abstração contemporânea. Algo, porém, já estava lá, Esther o sabia, como só olhos escondidos detrás de imensos óculos escuros o sabem, ao invés de ser colonizada em figuras explícitas, deixava sua imaginação plantar sobre o branco.

3. A abstração na arte contemporânea não é a moderna. Não naquela conhecida pretensão da semântica abstrata: pureza, elegância, funcionalidade, concretude, finalidade e afeto. As anomalias sempre guardam surpresas. É o campo das beterrabas. Não há política explícita. A inscrição social não lhe infla a leitura. Ela não diz as alianças. Além do que, interpretá-la como se quer, de acordo com os olhos de quem vê, é tomá-la muito por baixo, mas isso não significa dizer que é um sólido que se impõe sobre a realidade. Ela pertence à terra em sua dupla acepção. É especial, a abstração, nesse novo ambiente, porque não é capaz de recusar a sua impureza e, de um jeito único no contemporâneo, dissimula as procedências das matérias que usa para compor, numa eficiência vedada às demais formas de representar. A dissimulação da procedência também vale para o artista, ele não precisa, se de corpo abstrato, do vínculo natural com o assunto que aborda, ora, não é imperioso ser do campo para esperar beterrabas. Apesar disso, há sempre um objeto, uma vivência representada, cuja identificação é esquecida ou omitida, a imagem é sempre a parte falseada de alguma coisa de uma genealogia que não se dá à prova.

4. No Mario, o desejo pela impureza, pela solidão dos números primos, vivido no emprego da costura e na escolha do material, faz com que a pintura, sobretudo nos brancos, cujos volumes são obtidos pela junção das partes, pelas dobras, sirva para consolidar objeto, ele mesmo abstrato. Não é tanto pintura abstrata, quanto de descaracterização do mundano. A cor não é mobilizada na lógica do pigmento, mas do tingimento, a integridade da costura é protagonista até o último momento, sendo a separação das partes um recurso, se, somente se, a despeito de todos os esforços em contrário, a coloração se impuser como mancha que se sobrepõe à poética do acidente calculado.

5. O contemporâneo é ansioso e prefere o depósito de legumes nascidos, colhidos sei lá onde, se cênicos, feitos sei lá por quem, ao campo imaginativo preparado à germinação. Por isso não se dever descurar desta nova prática abstrata, ela não é para ser completada arbitrariamente, tal como seria ao se levar uma beterraba nascida ao campo preparado. Há complexidade mínima da qual não se pode poupar quem experimenta as obras de arte, ou assemelhadas, que é anterior à vontade de ver o que se quer. O campo precisa ser imagem sem que haja qualquer folha ou caule vermelho. As manchas vermelhas estão crescendo na terra, suculentas, açucaradas, misturadas à terra, assimétricas em suas muitas raízes a lhe prolongarem o corpo, com todo o poder de subtrair ao solo, uma intensa potência de fazer tingir, que os olhos não veem, mas está deles diante.

6. Não são telas, não há molduras, nem esculturas, são entomologicamente alfinetadas às paredes, há como ver que as partes das quais são feitas oscilam em origem, mais chegam à mão do artista do que o contrário, as costuras pouco têm de sutura, nem sempre o que costuram precisa ser costurado, apesar da feminilidade da linha e agulha, trata-se do uso não funcional da indústria e do trabalho, mais do que o carinho com o pano da roupa. Se o mundo não se tornar apenas um campo de beterrabas, arruinando a poética, é de tal endereçamento indeterminado que nasce sua beleza, porque é preciso sentir, na obra, as topografias sendo contornadas, aceitas, até certo ponto, o estabelecimento de sequências harmônicas que, depois, interrompidas, são retomadas, como numa frase cheia de apostos. Os tubérculos brotam, outras imagens germinam junto, concorrentes, mas elas não são arbitrárias, habitam o contexto, como ervas daninha. É um sonho, sim, no qual as acepções vizinhas tornam as demais fascinantes, não se esquivando delas.

7. Pasolini, em um ensaio publicado no seu Escritos Corsários, escreve sobre a modificação industrial da paisagem italiana sendo capaz de extinguir a população dos vaga-lumes. As pessoas mais novas, mesmo há época, o escrito é dos anos 70, só saberiam dos insetos iluminadores a partir de relatos. É parecido entre nós. Ele usa o exemplo como analogia ao tão lamentável quanto desaparecimento de formas de sociabilidade e práticas dialetais do idioma, como o seu próprio friulano, destruídos pelo monopólio do consumismo sobre os demais valores. Didi-Huberman, por sua vez, resgata o texto, fornecendo-lhe complemento esperançoso, certo do vaga-lume, na qualidade de metáfora do futuro, ser indestrutível. A metáfora do vaga-lume não é um vaga-lume, depois que morre, não existe mais, se calhar, nem como figura de linguagem é capaz de levantar voo. No Campo das Beterrabas serve na leitura. Há algo a se esperar dele. A abstração, se praticada impura, provoca a imaginação a descobrir as alternativas. Mas não brotarão vaga-lumes.


Cesar Kiraly é curador da Galeria IBEU desde 2015, além de professor de Estética e Teoria Política à UFF.


[...] houve, não há mais [...] o quê? [...] vaga-lumes, na Itália [...] antes tinha? [...] sim, até meados dos anos sessenta, depois da guerra, as noites eram escuras, repletas de pontos luminosos, lê-se no Pasolini [...] é a energia elétrica, eles estão lá, só não vemos [...] não estão, as luzes se apagam, não sobrou nenhum, mesmo longe das cidades [...] isso quer dizer alguma coisa [...] é uma metáfora, Didi-Huberman diz que ela não morre [...] se der sorte, por aqui, ainda se encontra [...] uma metáfora? [...] é disso que trata No Campo das Beterrabas? [...] à espera do nascimento de vaga-lumes na terra? [...] uma metáfora não garante sobrevida ao que se quer que persista existindo [...] é sobre beterrabas e não é, ao mesmo tempo [...] é sobre olhar o branco, cultivado, em materiais escolhidos, sempre diferentes, aproximados pela linha de costura, dobrados por ela, contornando dificuldades, incitando as imagens a serem vistas germinativas, sobre e debaixo, mas nem arbitrárias, nem invisíveis, potencialmente capazes de imprimir manchas doces [...] avermelhadas, luminescentes [...]


(Cesar Kiraly)


No campo das beterrabas - Mario Camargo

 



Foi um longo período de espera para Mario Camargo, que teve a individual adiada quando a crise pandêmica impôs suas normas, fazendo com que os estabelecimentos fechassem as portas ao público. Dois anos depois, o artista irá inaugurar a primeira exposição inédita da Galeria de Arte Ibeu, no Jardim Botânico, desde o início da pandemia: “No Campo das Beterrabas” abre no dia 9 de novembro, às 17h, sob curadoria de Cesar Kiraly. Na ocasião, o Coral do Ibeu, apresentará algumas canções de seu repertório, às 19h.

Os trabalhos surgem como peles nas paredes, sustentadas por agulhas. Em cerca de dez obras apresentadas, a tinta será a substituída pela costura industrial. Movimentos de encolhimentos e franzidos surgirão e substituirão a cor, de forma pictórica, deixando à mostra uma infinidade de buracos e rasgos, tais como arados, representados pelas costuras industriais, onde só faltam as sementes germinarem para revelar, futuramente as cores.

“São tantos os caminhos para esta germinação que quase perdermos o fôlego. A cor não é mobilizada na lógica dos pigmentos, mas do tingimento; a integridade da costura é a protagonista até o último momento. A despeito de todos esforços, a coloração não se sobrepõe à poética do acidente costurado e a abstração se pratica impura, provocando a imaginação a descobrir alternativas”, revela o artista Mario Camargo.

Como quase todas as crianças, Mario Camargo demonstrou, desde sempre, interesse pelo desenho. Por convite de uma amiga pintora, fez sua primeira exposição e nunca mais parou. Esther Emílio Carlos, crítica de arte do Ibeu, se apaixonou pelo seu trabalho e abriu várias portas: ele chegou a expor em Santiago do Chile e depois em Paris. Quando participou da feira de arte MAC 2000, em Paris, foi o único brasileiro presente entre 100 artistas franceses. Chamou atenção neste evento sua forma de pintar, executada diretamente no chão, ao sol, usando tinta acrílica líquida. Mario interrompia a secagem com jato d’água e, neste processo de busca quase arqueológica, criava suas obras. Na ocasião, Pierre Restany, crítico de arte francês, profetizou: “você abandonará os chassis e sua pintura se tornará a pele das paredes”. Durante anos o artista conviveu com estas palavras, que se tornaram realidade há pouco tempo.

A exposição nas palavras do curador “Não são telas, não há molduras, nem esculturas, são entomologicamente presas por agulhas às paredes, há como ver que as partes das quais são feitas oscilam em origem, mais chegam à mão do artista do que o contrário, as costuras pouco têm de sutura, nem sempre o que costuram precisa ser costurado, apesar da feminilidade da linha e agulha, trata-se do uso não funcional da indústria e do trabalho, mais do que o carinho com o pano da roupa. Se o mundo não se tornar apenas um campo de beterrabas, arruinando a poética, é de tal endereçamento indeterminado que nasce sua beleza, porque é preciso sentir, na obra, as topografias sendo contornadas, aceitas, até certo ponto, o estabelecimento de sequências harmônicas que, depois, interrompidas, são retomadas, como numa frase cheia de apostos. Os tubérculos brotam, outras imagens germinam junto, concorrentes, mas elas não são arbitrárias, habitam o contexto, como ervas daninha. É um sonho, sim, no qual as acepções vizinhas tornam as demais fascinantes, não se esquivando delas”. Cesar Kiraly é curador da Galeria de Arte Ibeu desde 2015, além de professor de Estética e Teoria Política da UFF.


NO CAMPO DAS BETERRABAS 
Abertura: 9 de novembro de 2022, das 17h às 20h
Visitação: de 10 de novembro a 22 de dezembro de 2022
Funcionamento: quartas e quintas, das 13h às 19h; sextas, das 12h às às 18h
Local: Galeria de Arte Ibeu
Endereço: Rua Maria Angélica, 168 - Jardim Botânico –RJ
Entrada gratuita

Informações à imprensa sobre a exposição: BriefCom Assessoria de Comunicação - Bia Sampaio: +55 21 98181-8351/biasampaio@briefcom.com.br

A arte de sobreviver a um naufrágio | Por Cesar Kiraly

 


é inegável que se encontram mais ausências, muito embora a quantidade de imagens e objetos [...] são traços e pontilhados que transformam a fragilidade albina da parede ao fundo [...] as embarcações estão pela metade [...] o encobrimento [...] a parte debaixo é que faz delas naufrágios [...] não pertencem a um tempo específico [...] desde quando se flutua, afunda-se [...] o oxidante na gravura funciona como cumplicidade do efeito prolongado das ondas que se influenciam [...] a nenhuma pessoa é dado relatar ter experimentado um naufrágio até o fim [...] o fim do oxigênio é como a ausência [...] o náufrago cola imagens para completar o que lhe falta [...] primeiro o movimento invade e depois retorna abandonando conchas [...] no papel são preservadas memórias que se dissolvem na água salgada [...] todos confirmavam que os cabelos pertenciam [...] nem mulher, nem homem [...] as memórias assistem a ousadia do oceano em avançar aos poucos para apagá-las, disso extraem força [...] amigos, um furo [...] não, nunca aprendera a nadar [...] entretanto, sobrevivera [...]



1. A partir do séc. XVIII, mais especificamente, desde o momento em que Diderot começou a se dedicar a escrever sobre os Salões de Paris, para ser lido pelos nobres impossibilitados de fazerem a viagem para verem com os próprios olhos, a arte teve sua trajetória misturada a do texto. O cético Diderot compunha suas linhas descrevendo as obras de arte, os estilos dos artistas, os artistas, o público, toda a cena da arte. Restava clara, aos olhos dele, a natureza eminentemente social da obra de arte. A arte contemporânea amplifica esta dependência, inclusive, em trabalhos que nem mesmo existem fisicamente. As obras não são simplesmente objetos, nem, tão somente, intuições acerca do modo de representar, mas acontecimentos que servem de índice ao efeito que produzem no mundo, o contágio exercido sobre as opiniões, mais tudo aquilo que se escreve sobre, e que antecipa, de certa forma, o lugar a ser ocupado pelos novos eventos. A obra, principalmente a contemporânea, por causa mesmo do esforço de Diderot, é uma cena imersiva. Os gregos, por sua vez, dispunham de uma palavra para denotar prática remissível à inventada por Diderot. O termo Ekphrasis abrange a descrição de objetos artísticos, até mesmo prevê a invenção literária de obras visuais, antecipa a redução da distância entre a imagem e o texto, mas ainda apresenta concepção isolada da obra e não entende a vida interna dos envolvidos, muito menos a daquele que escreve, como fazendo parte dela. Por outro lado, apesar das imensas dificuldades enfrentadas por Diderot, ele contou com a facilidade de não ter de inventar o gênero literário no qual se expressaria, mas adaptá-lo. Montaigne havia desenvolvido a forma de escrever, que se mostraria um gênero literário, mas também um tipo de filosofia cética, usada por Diderot para falar de arte, desde si mesmo, da sua intimidade, ainda que dissimulada, o ensaio.


2. No ensaio Diderot encontrou os limites e as amplitudes para comentar sobre as pessoas que visitam salões para verem a si mesmas retratadas direta ou indiretamente. O modo como assistem a si próprias ao julgarem a semelhança entre os retratos e os retratados ou mesmo aos aristocratas, a depender da aura manifesta em seus rostos representados. O ensaio serve a Diderot para lamentar que o assombro a ser provocado pela arte seja constrangido por tal sorte de expediente fútil. Afinal, a experiência artística, justamente ao provocar o texto, faz entrever o quão longe pode ser levada. Por isso, essa forma de escrever se tornou tão adaptada a criticar, chegando, até, a ser denominada, simplesmente, de crítica. Isso porque o escritor percebe que, ao ser levado a escrever sobre a obra, ao não conseguir mais se desviar de fazê-lo, de tê-la como seu mundo todo, recebe a evidência de que pode esperar que esta realize o que ele, internamente, é incapaz de fazer, ser sempre mais do que si mesma, cada vez mais lúcida, cada vez menos cruel no exercício dessa lucidez. O ensaio sobre arte dá a perceber a incapacidade da arte, as suas limitações, sim, mas também que essas falhas são sempre pontuais e aparecem porque quem escreve sabe que não é muito esperar ainda mais dela, tal certeza, na lida com a obra, é a marca mesma da possibilidade da superação. É nesse sentido que se pode dizer pela natureza textual da obra de arte.


3. Aqueles a quem é dado persistir na escrita inaugurada por Montaigne e dedicada, por Diderot, ao acontecimento artístico, assistiram à interrupção inédita, não só dos salões, cujo prestígio oscila, em virtude de outras formas de se fazer conhecido do público, mas de quase toda a atividade expositiva. Isso se deveu à pandemia provocada por um vírus mortal e foi uma forma de amenizar os contágios. O IBEU, que hoje comemora 85 anos, foi obrigado, como o mundo todo, a fechar a sua Galeria de Arte. Ela fechou abrigando uma exposição cujo tema, ironicamente pensado pelo destino, é o naufrágio. A galeria, pelo que tudo indica, ficou lá, sozinha, até agora, com esses objetos, que ninguém pode ver. Coube, então, de modo imprevisto, ao Márcio Diegues, a exposição mais longa de um espaço expositivo, tradicionalíssimo, que conta com mais de 60 anos. O artista mesmo concordou que seria importante deixar tudo lá, sem mexer em nada. Inclusive, tendo, em uma das paredes, um imenso desenho, feito de nanquim, de uma onda a sugerir a inundação de dentro para fora, de dentro da galeria, depois, tomando o lado de fora, como se o desastre tivesse começado ali e não em Wuhan. Não seria estranho ver no mesmo desenho algo como uma mortífera nuvem bíblica de gafanhotos. Tendo como último título ‘Como Sobreviver a um Naufrágio’ fomos instados a fugir do espaço para salvar as nossas vidas, imaginando que, sendo o futuro incerto, na pior das hipóteses, a posteridade reencontraria aquela exposição, com relação a qual, no passado, havíamos lamentado a hora de finalmente apagar o mural, quem sabe com o uso de escafandristas.


4. Como se comportaria Diderot na pandemia? A peste negra é anterior aos salões e às galerias de arte, e a gripe espanhola, apesar de devastadora, não contava com uma humanidade capaz de bem controlar o deslocamento das suas populações ou excelentes prognósticos de criação de vacinas, logo, não provocou o fechamento dos espaços públicos e o confinamento das pessoas em casa. O cético escreveria sobre os negacionistas não gostarem de arte ou sobre os alarmistas não gostarem de negacionistas que não gostam de arte? Sobre o desespero dos artistas em não serem esquecidos? A adesão confusa aos mais variados espectros da ideologia política, para receberem alguma simpatia a partir do pertencimento? Ou ele surpreenderia com o silêncio? Como dar a entender o impacto da retração do espaço público, causado pela pandemia, pelas novas tecnologias de comunicação, no mundo da arte, ainda mais deformado pela incrível desigualdade entre as instituições culturais para retornarem às suas atividades? As instituições mais ricas voltaram antes, com mais segurança, isoladas e soberanas, além de terem inventado as melhores, e sedutoras, plataformas virtuais. O cético se esforçaria para mostrar a contradição entre o discurso de integração dos grupos politicamente mais vulneráveis, como indígenas e transexuais, a partir do trabalho como artistas, curadores e funcionários, tanto pelo mercado, quanto pelas principais instituições culturais, e a relação de trabalho cada vez mais precária, obrigando o seu pessoal a se estabelecer juridicamente como empresário para não precisar recolher encargos sociais e trabalhistas? A inserção de novas fisionomias precisa ser combinada com a piora da vida de todo mundo que depende do trabalho? Como dar a entender a captura dos melhores valores pelos processos históricos mais nefastos? Será que Diderot seria bem-sucedido na tarefa de descrever a arte contemporânea, nesta cena tão repleta de sutilezas? Seria ele capaz de mostrar o potencial dela, apesar de tudo, de se contrapor ao extremismo e revigorar a vida comum?



5. A escrita sobre arte se mistura às obras e as compõem. Teria Diderot sentido simpatia pelo modo como se agregam tendências políticas díspares, dando voz a estéticas transgressoras? Aprovaria ele o ardil relacional para viabilizar as luzes? Ora, não era ele mesmo esperançoso de abrir os olhos da Catarina II para o respeito às liberdades? Como receberia a cumplicidade cada vez maior entre o mercado e o discurso universitário? O que diria sobre a obsolescência do gênero que ajudou a criar com a sua triste substituição pelos textos explicativos ou de contextualização histórica? Imagino que fosse gostar de conhecer o Grupo Frente e artistas agudamente conceituais como José Damasceno e Bianca Madruga. Consigo vê-lo vestido com roupas modernas, de máscara, munido de comprovante de vacinação, com frio, diante da frase de Antonio Gramsci, reproduzida em verde, como letreiro, por Alfredo Jaar, com letras parecidas ao “Eu é Uma” da Agrippina Manhattan: “O velho mundo está morrendo. O novo demora a nascer. Nesse claro-escuro, surgem os monstros”. Penso que a tomaria como imprudente, não pelo fato de os monstros surgirem no claro-escuro, mas por dar a entender a existência de um estado que não o claro-escuro. Ora, suponho que o cético pensaria que estamos sempre entre um mundo que morreu e outro que nasce.


6. Houve um tempo, não muito distante, na América Latina, sobretudo, em que alguns grupos eram isolados do poder político e dele só sofriam o efeito. Nessa época, críticos, como Mario Pedrosa, repreendiam a falta de politicidade da arte brasileira. Nela faltava a disposição de estabelecer meios para que o poder pudesse ser melhor distribuído, nem que fosse, como na sua defesa dos trabalhos dos pacientes, da Nise da Silveira, expostos no IBEU, pela Esther Emilio Carlos, em momentos diferentes, simplesmente o poder de existir sem ser desejado. Ainda hoje, a capacidade de produzir efeitos políticos, para o bem e para o mal, ainda é bastante desigual, mas não tanto, inclusive, na arte contemporânea. Um dos marcadores, por exemplo, é a impossibilidade de se falar de obra de arte contemporânea sem que a interpelação pela identidade componha o estatuto da obra de arte. A frase de efeito que aponta a inevitabilidade da política em todo ato estético, contudo, já pode ser interpretada de modo menos ingênuo. Se a tão desejada convergência entre estética e ética é, no mais das vezes, bem-intencionada, talvez seja o caso, em certos momentos, de nos esforçarmos pela menor politicidade possível do ato estético, pelo menos nos seus momentos de ofensividade. Afinal, na política alguém é sempre, mesmo que devidamente, mormente, indevidamente, posto a sofrer.


7. Ainda no séc. XVIII um outro cético ensaísta escreve um ensaio de título A Arte de Escrever Ensaios. Ele não diz nada sobre como escrever ensaios. Na verdade, trata-se mais de incentivar que estes sejam escritos e o faz a partir de um modo de vida que vê como preferível. Há o mundo dos intelectuais que não convivem com ninguém e o das pessoas que convivem, mas não querem pensar. Claro, há também o das que nem leem ou pensam e nem convivem, mas essas são almas perdidas. Hume acredita que o mundo do ensaio é aquele em que os pensadores falam com as demais pessoas, frequentam as ruas em que a vida acontece, e todo mundo se interessa pelo que se pensa, menos para ser convencidas, porque uma conversa em que o interlocutor quer convencer é demais aborrecida, mas por que há um prazer em lidar com ideias diferentes. Trata-se de uma maneira de viver em que o naufrágio é sentido como um peso, algo ruim, porque, apesar da aventura, nos priva do outro. O ensaio é a vida para a qual se quer voltar.


8. Márcio nos mostrava como um naufrágio seria interessante e como precisaríamos fazer para a ele sobreviver. Até que fomos surpreendidos pelo acidente e não tínhamos pista do que fazer. A sobrevivência se deveu menos a saber o procedimento correto e mais ao acaso somado a alguma prudência. Havia o tempo a passar entre o naufrágio e o retorno a uma vida de ensaios, mesmo tão precária. Primeiro, desejar retornar ao estímulo aos bons espaços de convivência era uma motivação, mas apenas se não se a tomasse como uma finalidade, porque podia muito bem não acontecer, demorar demais, sendo, então, mais causa de desespero do que de qualquer outra coisa. Assim, atravessar implicava a aceitação de olhar o mar como intuição da pura felicidade, como diria Hans Blumenberg. Depois, certo contentamento, não por passar por tudo isso, porém ser testemunha de um tempo histórico relevante. Afinal, não deixa de ter uma beleza trágica, toda aquela madeira submergindo aos poucos, os objetos de uma vida inteira começando a boiar em infinitos tons coloridos, desde que não se pudesse fazer nada para ajudar. Nada mais irônico do que contemplar com interesse uma imagem que se desfaz em outra, sabendo que a perspectiva na qual se encontra também afunda. A quem caberia escrever ensaios se a observação do naufrágio a ser contada é acompanhada por quem, mesmo sabendo que afunda, não pode se dar ao luxo de se sentir visto pelo náufrago que assiste? Esse seria um outro ao qual ensaiar? Como inventar um salão no qual com ele se possa falar?     


Cesar Kiraly é curador da Galeria IBEU e professor de Teoria Política e Estética no Departamento de Ciência Política da UFF.