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Poesia e Arte em casa - 3 | Sophia de Mello Breyner Andresen e Márcio Diegues




Mar sonoro

Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho,
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.


(Sophia de Mello Breyner Andresen in "Dia do mar", 1974)




Sugestão de poema enviada pelo artista Manoel Novello
Foto: ateliê do artista Márcio Diegues⁣





| "Poesia e Arte em casa" é resultado de uma ação realizada pela Galeria de Arte Ibeu em sua página no Instagram. Esta série de postagens tem como objetivo aproximar a obra do artista Márcio Diegues à produção poética de diversos autores que se relacionam com a temática do naufrágio e do isolamento. | 

Poesia e Arte em casa - 2 | Eucanaã Ferraz e Márcio Diegues




Beira mar

Não é o afogado. Posso ver que não é o afogado.
Posso ver pelos seus braços, vivos, seus olhos,
cristalinos; o modo como suas mãos se movem,
vivas, posso ver, não é o afogado. Esteve no mar
e voltou vivo. Havia areia, cansaço, alegria na sua pele;
não lembro de algas entre seus cabelos mas lembro
de seus cabelos, flutuavam; e nítido era o barulho
das ondas nos seus olhos, vivos, cristalinos.
Não é o afogado. O modo como saiu da água, reto,
as pernas perfeitamente pernas de homem
que foi ao mar e voltou e se deixou secar ao sol.
Espanto-me de alegria por ele não ser o afogado.
Todo o meu terror se enche de alegria. Não penso.
Encho-me de gratidão. As nuvens ardem por dentro
e a tarde se dobra na direção das falésias.
Não é o afogado. Mas é de tal modo delicado
que ele esteja vivo que receio tocar seu rosto.
Está aqui, entre os barcos que voltaram,
entre as coisas que existem: coqueiro, vento, flauta.
Esteve no mar. Os braços abriam a água e a água
se fechava; os braços insistiam e outra vez a água
reunia suas águas; braços, espuma, pernas, lutavam
ou dançavam; então ele ergueu a cabeça para fora
e respirou. Não é o afogado. Digo o nome Deus
por ele respirar. Digo o nome Deus por cada vez
que ele respire. Maravilhosamente, espantosamente
está vivo. Esteve no mar. Eu vi. Mas voltou vivo.
Toquei seu rosto, vivo e cristalino.


(Eucanaã Ferraz in "Escuta", 2015)




| "Poesia e Arte em casa" é resultado de uma ação realizada pela Galeria de Arte Ibeu em sua página no Instagram. Esta série de postagens tem como objetivo aproximar a obra do artista Márcio Diegues à produção poética de diversos autores que se relacionam com a temática do naufrágio e do isolamento. | 

Poesia e Arte em casa - 1 | Paul Celan & Márcio Diegues




DE PÉ, na sombra⁣
da chaga aberta ao ar.⁣

Por-nada-e-ninguém-De-pé.⁣
Irreconhecido,⁣
por ti,⁣
só.⁣

Com tudo que aqui tem espaço,⁣
mesmo sem⁣
língua.⁣


Paul Celan




Foto: Gravura do artista Márcio Diegues



| "Poesia e Arte em casa" é resultado de uma ação realizada pela Galeria de Arte Ibeu em sua página no Instagram. Esta série de postagens tem como objetivo aproximar a obra do artista Márcio Diegues à produção poética de diversos autores que se relacionam com a temática do naufrágio e do isolamento. |