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Texto de apresentação de Ivair Reinaldim para Eloá Carvalho


Mise en Scène

O termo que dá título à exposição de Eloá Carvalho, se traduzido de modo literal, significa “colocado em cena”, e seu uso, ao migrar do teatro para o cinema, marca a crescente valorização da figura do diretor como aquele que organiza e controla a construção dramatúrgica do filme em todos os seus detalhes. Não que a artista tenha desenvolvido aqui um diálogo direto com o cinema – mesmo que alguns de seus trabalhos anteriores apresentem tais referências. O que fez foi assumir uma operatividade que em si pode ser aproximada da prática do “metteur en scène”.

Assim, o termo torna-se indício de como o olhar autoral da artista reconfigura e contextualiza personagens de diferentes características, feições e procedências históricas num espaço cênico comum, seja ele o da superfície do papel ou pintura ou mesmo o da Galeria de Arte do Ibeu. Sinaliza o arranjamento dos corpos e das coisas através de tais espaços, como também a dimensão mais ampla da encenação presente nesses elementos. Suas personagens encenam seus papéis: aqueles que acreditam desempenhar e aqueles que a artista as põe a representar.

O projeto aqui exposto teve início com uma extensa pesquisa no acervo iconográfico do Ibeu. Nesse arquivo, a artista selecionou suas personagens entre os registros fotográficos das diversas aberturas de exposição promovidas pelo Instituto, dos anos 1950 aos nossos dias. Em seguida, tais figuras foram desenhadas e recombinadas em novos conjuntos, encontrando-se parte desses desenhos acessíveis nesta mostra. Alguns deles, no entanto, continuaram a ser trabalhados por meio da pintura e, dispostos em novos contextos, ganharam maior densidade e corporeidade.

Vistas em conjunto, as imagens contidas nesses desenhos e pinturas representam um evento construído por camadas de tempo superpostas. Por um instante, todas essas personagens coexistem, mantêm-se presentes nesse espaço que habitaram em algum momento no passado. Instalados na Galeria do Ibeu, os trabalhos de Eloá Carvalho prolongam suas dimensões e nos convidam, como espectadores, a compartilhar do estado imersivo de suas figuras. Mas é preciso não nos deixar inebriar pela aparente naturalidade das poses. Na cena, nada é espontâneo.

Mise en scène - Eloá Carvalho



A proposta deste projeto parte da pesquisa do acervo histórico de imagens da Galeria Ibeu desde os anos de 1950 até os dias de hoje. O passado e o presente da galeria formam “Mise en scène”, exposição pensada especialmente para o espaço.

“Utilizando imagens de vernissages da galeria desde os anos 50, resgato fotos destes períodos e as misturo, construindo através de pinturas e desenhos um lugar de conexão onde essas temporalidades possam conviver”, diz Eloá Carvalho.


“Juntando a essa ideia de criar um espaço onde figuras deslocadas de seu tempo original convivem em um tempo não-linear, quero projetar o público para dentro das pinturas, através de grandes formatos com diversos personagens que chegam à escala humana (1:1). Meus trabalhos foram pensados e projetados para uma montagem de forma instalativa, onde pretendo proporcionar uma experiência ao espectador, gerando camadas de observação – diretas e indiretas – produzidas pelo espelhamento do público com os trabalhos”.

O curador Ivair Reinaldim ressalta que “o termo que dá título à exposição, traduzido de modo literal, significa `colocado em cena’, e seu uso, ao migrar do teatro para o cinema, marca a crescente valorização da figura do diretor como aquele que organiza e controla a construção dramatúrgica como um todo. Assim, torna-se indício de como o olhar autoral de Eloá Carvalho reconfigura personagens de diferentes características e procedências históricas no espaço cênico comum da galeria. Cada trabalho, visto de modo isolado, e mesmo a compreensão do conjunto instalativo das pinturas, explicitam o desejo da artista em compartilhar com seus espectadores esse arranjamento de corpos e coisas pela cena.”

Eloá Carvalho nasceu em Niterói, 1980. Vive e trabalha no Rio de Janeiro. Tem formação em Pintura pela Escola de Belas Artes da UFRJ e frequentou cursos da Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Dentre suas principais exposições, se destacam: Das coisas que vimos pelo caminho (CCPCM Niterói-RJ/2010), 42º Novíssimos (Galeria IBEU-RJ/2010), Como o tempo passa quando a gente se diverte (Galeria Triângulo-SP/2011), 43º SAC Piracicaba (SP/2011) e XI Bienal do Recôncavo Baiano (BA/2012).


ELOÁ CARVALHO - “Mise en scène”
Curadoria: Ivair Reinaldim
Abertura: 26 de novembro de 2013 (terça-feira), às 19h
Exposição: 27 de novembro > 20 de dezembro
Horário de visitação: segunda a sexta-feira, das 13h às 19h - ENTRADA FRANCA
Endereço: Av. N. Sra. de Copacabana, 690 | 2º andar - Rio de Janeiro – RJ  Tel.: (21) 3816-9473
http://ibeugaleria.blogspot.com

Leo Ayres - Tananan Opera Chanchada



Em sua terceira individual no Rio de Janeiro, Leo Ayres apresenta objetos, vídeos e uma performance na abertura da Tananan Opera Chanchada.

“Na exploração da estética do constrangimento, junto em uma só exposição os três maiores geradores de vergonha alheia das artes: teatro, performance e videoarte. A ideia é criar um espetáculo absurdo como a própria vernissage é. O processo de escolha das falas, figurinos e vídeos apresentados é aleatório, como em vários trabalhos de Duchamp. O cenário é a galeria com trabalhos pouco convencionais, uma porta cheia de olhos mágicos, pisos de espelho e uma escada para que os visitantes subam na mesa do escritório. Os trabalhos não serão tratados individualmente, mas tudo é como uma grande instalação”, diz o artista.

Serão quinze atores performando e oito vídeos, que serão alternados durante as três horas de vernissage (19h às 22h). Os vídeos foram feitos em Fortaleza, São Paulo, Buenos Aires e Berlim e contam com diversas participações especiais, como a jovem atriz francesa Aurélie Nuzzilard (imagem abaixo) e trilhas sonoras compostas pelo músico Jules Etienne.


Para Ivair Reinaldim, curador da exposição: "Entre objetos instalados e seu uso durante a realização de um grande happening, Tananan Opera Chanchada pretende reforçar a dimensão de acontecimento existente no encontro celebratório que é a abertura de uma exposição. Promovendo o inusitado, através da proposição de situações ambíguas, o artista acentua o impasse entre quem vê e quem se dá a ver, entre o que está dentro e o que está fora, entre o que é fluxo e aquilo que é reprimido por meio do (auto)controle. Será possível distinguir acertadamente entre o que de fato é performance e o que é um simples ato espontâneo? Nada é o que parece ser."

O artista já realizou quatro exposições individuais, sendo a última "Deixe as luzes acesas" no Centro Cultural do Banco do Nordeste em Fortaleza-CE. Participou de diversas mostras coletivas como Performa (Paço das Artes - SP), Jogos de Guerra (Memorial da América Latina - SP e Caixa Econômica Federal - RJ), Vide-Espontâneo (Oi Futuro - RJ) e Postcards from the Edge (ZieherSmith - NY). Foi selecionado no Programa de Exposições 2012 do Museu de Arte de Ribeirão Preto (MARP - SP) e no Novíssimos 2011 (Galeria de Arte Ibeu - RJ).



LEO AYRES - "Tananan Opera Chanchada"
Curadoria: Ivair Reinaldim
Abertura: 18 de junho de 2013 (terça-feira), às 19h
Exposição: 19 de junho > 12 de julho
Horário de visitação: segunda a sexta-feira, das 13h às 19h
Endereço: Av. N. Sra. de Copacabana, 690 | 2º andar - Rio de Janeiro
Tel.: (21) 3816-9473

Texto crítico de Ivair Reinaldim para Mayana Redin


A borda o risco o mundo: experimento #1 - algumas considerações críticas acerca dos trabalhos e processos de Mayana Redin
Ivair Reinaldim

Experimento #1 indica tratar-se de uma investigação em processo, de algo que não se reduz ou conclui-se nesta amostragem. Apresenta-se aqui certo número de trabalhos – de proposições –, amarrados entre si tanto por um laço conceitual quanto por um conjunto de operatividades delicadas e sutilezas bem demarcadas. Cabe ressaltar, no entanto, que não estamos diante da frieza de um laboratório, mas daquele instante em que especulação mental torna-se poesia em estado visual, em que imagens (re)assumem seu caráter transformador diante do mundo.

Mundo é constructo, dimensão ampliada em que esses trabalhos são concebidos, materializam-se a partir de representações, da experiência filtrada por meio dos sentidos e constantemente (re)elaborada pelo intelecto. É o campo ampliado de investigação da artista, fornecedor da matéria que alimenta seu processo, e local da apreensão dos trabalhos por parte do espectador, a partir de suas referências e informações (visuais, conceituais e vivenciais) contidas e geridas pela memória. Justamente por essa dupla manipulação de imagens, por parte da artista e do espectador, que se pode constatar que os trabalhos apresentados constituem-se no limiar do risco.

Risco como ousadia e incerteza, mas acima de tudo como dimensão projetiva, acordo entre o dado mental e sua materialização por meio do traço, da impressão, da projeção de uma imagem. Esses trabalhos não se resumem a mero pensamento, nem mesmo à visualidade pura. Se diante de nós temos uma proposição perceptivelmente precisa, íntegra, sem elementos dispensáveis, ao mesmo tempo, mediante a sutileza de sua operatividade, impera em sua aparência uma atmosfera de fragilidade, uma vez que a articulação de seus elementos explicita constantemente pequenas transformações, quase imperceptíveis, que são sugeridas diante de nossos olhos. São aproximações frágeis – porém potentes –, estabelecendo-se numa borda.

Borda como fronteira entre o que o trabalho é e aquilo que não é. As operações propostas pela artista lembram-nos o mecanismo de um jogo, em que os elementos podem ser permutados, assumir determinada configuração, para, no próximo instante, na próxima jogada, mediante um simples deslocamento, uma nova associação mental, serem completamente reelaborados mentalmente. Os trabalhos de Mayana Redin são presenças definidas, escolhas precisas, combinações estabelecidas; beiram, no entanto, o estado do vir a ser, do desvanecimento quase latente, habitam o limite delicado de um quase desaparecimento. Nisso guardam a condição de experimento.

Mayana Redin - A borda o risco o mundo: experimento #1

GALERIA DE ARTE IBEU convida para a abertura da exposição 
A borda o risco o mundo: experimento #1, de MAYANA REDIN 
Abertura: 26 de fevereiro de 2013 (terça-feira), às 19h 
Curadoria: Ivair Reinaldim 

 
Uma ideia de desenho é pano de fundo para a exposição "A borda o risco o mundo: experimento #1", da artista Mayana Redin, que contará com trabalhos que envolvem apropriação de imagens e suas migrações. Os trabalhos propostos utilizam-se das iconografias de representações do espaço humano sendo alvo de exercícios de bordeamento, revelando as condições intervalares das imagens.

Nesse exercício de “dar borda ao mundo”, os trabalhos trazem conteúdos ligados à memória e  esquecimento, passagens  e  erosões, limites  e fronteiras da representação  e suas ficções.

A série A Ruína usa da iconografia de paisagens naturais e construídas de cartões postais turísticos para promover deslocamentos da imagem através de repetições que degradam seus ícones. Além de trabalhos com cartões postais, a artista mostra desenhos em papel vegetal da série Geografia de Encontros, expostos somente na 8a Bienal do MERCOSUL, em Porto Alegre. Além disso, compõe a exposição três vídeos e trabalhos de pequenos formatos que funcionam como ilhas no espaço expositivo.

Para Ivair Reinaldim, curador da exposição: “Experimento #1 indica tratar-se de uma investigação em processo, de algo que não se reduz ou conclui-se nesta amostragem. Apresenta-se aqui certo número de trabalhos – de proposições –, amarrados entre si tanto por um laço conceitual quanto por um conjunto de operatividades delicadas e sutilezas bem demarcadas. Cabe ressaltar, no entanto, que não estamos diante da frieza de um laboratório, mas daquele instante em que especulação mental torna-se poesia em estado visual, em que imagens (re)assumem seu caráter transformador diante do mundo”.

Mayana Redin tem 28 anos, nasceu em Campinas (SP). Com formação em Artes Visuais pela UFRGS (Porto Alegre) e Comunicação Social pela UNISINOS, faz sua primeira exposição individual no Rio de Janeiro. Dentre algumas exposições, destacam-se mostras nas galerias Zipper (2012) e PortaVilaseca (2012), no Rio de Janeiro e no Santander Cultural (2012), MARGS (2012) e 8a Bienal do MERCOSUL (2011), em Porto Alegre.


MAYANA REDIN - A borda o risco o mundo: experimento #1
Curadoria: Ivair Reinaldim
Abertura: 26 de fevereiro de 2013 (terça-feira), às 19h
Exposição: 27 de fevereiro - 22 de março
Horário de visitação: segunda a sexta-feira, das 13h às 19h

Ivair Reinaldim entrevista Jimson Vilela

 

Clique na imagem para acessar a entrevista de Ivair Reinaldim com o artista Jimson Vilela, realizada em ocasião de sua exposição individual na Galeria de Arte Ibeu.

Abaixo, trecho da entrevista:


Ivair Reinaldim – Como surgiu seu interesse em desenvolver um projeto que articulasse esses dois pontos geográficos, Copacabana, no Rio de Janeiro, e Copacabana, na Bolívia?

Jimson Vilela – O projeto nasceu durante a primeira viagem que fiz até Copacabana, Bolívia, em 2009. Me interessei pelo nome e comecei a investigar uma possível migração da palavra. A ideia foi pensar que ela vai viajando de conversa em conversa, entra pelo ouvido de um e ganha outra entonação na boca de outro; perceber como uma coisa, que é éter, ganha um corpo (sonoro ou escrito) até chegar a outro corpo. A palavra migrando traz para mim a imagem de um corpo que também migra e atravessa essas fronteiras geográficas/políticas.


IR – Então tudo começou pela grafia e sonoridade da palavra Copacabana, para só depois estender-se para os referentes geográficos. Você chegou a investigar a origem etimológica do vocábulo ou mesmo o processo histórico de migração da palavra de uma região a outra?

JV – Investiguei ambos. Copacabana deriva de Kota Kahuana, do dialeto Aymara, que significa "vista do lago". Há outra hipótese, que o nome venha do Quichua e signifique algo como "lugar luminoso". Enfim, a cidade de Copacabana foi um lugar de culto religioso do povo de Tiwanaku (civilização pré-inca). Eles acreditavam que a origem do universo começou no lago Titicaca.

O que acontece com a chegada dos espanhóis é um sincretismo religioso: um jovem pescador local presencia a aparição de Nossa Senhora (de Copacabana), esculpe-se uma imagem, ergue-se uma catedral na cidade e começam os cultos à santa.

No século XVII, comerciantes de prata bolivianos e peruanos trouxeram uma réplica dessa imagem para a praia do Rio de Janeiro, então chamada de Sacopenapã (nome tupi que significa "caminho de socós"). Sobre um rochedo construíram uma capela em homenagem à santa, que, com o tempo, passou a designar a praia e o bairro. Em 1914, a capela é demolida para dar lugar ao atual Forte de Copacabana.

O trabalho principal da mostra tem uma ligação com essa pesquisa. A plataforma localizada no centro da galeria, que termina na janela, apresenta-se como uma réplica dos píeres da cidade de Copacabana. No entanto, o que proponho aqui é um mergulho do visitante na própria Avenida Nossa Senhora de Copacabana.

Clipping Veja Rio - Inauguração da individual de Jimson Vilela


JIMSON VILELA
As legendas não descrevem o lugar onde termina o horizonte dos seus olhos 

Inauguração: HOJE, 15 de janeiro, às 19h

As legendas não descrevem o lugar onde termina o horizonte dos seus olhos




A exposição As legendas não descrevem o lugar onde termina o horizonte dos seus olhos, de Jimson Vilela, é o resultado de uma proposição investigativa sobre a migração da palavra “Copacabana”. Jimson fez o caminho inverso ao da migração da palavra saindo da cidade do Rio de Janeiro até a cidade de Copacabana na Bolívia, neste percurso realizou anotações e projetos instalativos que culminam na montagem apresentada na Galeria Ibeu.

"A experiência de viajar e a necessidade de conhecer as regiões visitadas para poder realizar plenamente meus projetos modificaram em muito minha relação com o espaço expositivo, até mesmo com o Rio de Janeiro. Me sinto nômade e acho que isto reposiciona meu olhar em relação ao que fiz anteriormente, estando fixo. Consigo ver com estranheza aquilo que me é familiar.", declara o artista, em entrevista com o curador.

Uma primeira montagem de As legendas não descrevem o lugar onde termina o horizonte dos seus olhos foi realizada nas instalações do Centro Cultural Brasil – Bolívia, na cidade de La Paz – Bolívia. E fez parte da 7ª Bienal Internacional de Arte da Bolívia, 2011. O projeto conta com o apoio do Ministério da Cultura através do Programa de Intercâmbio e Difusão Cultural.


As legendas não descrevem o lugar onde termina o horizonte dos seus olhos
Individual de Jimson Vilela (artista selecionado pelo Programa de Exposições Galeria Ibeu 2012) 
Curadoria: Ivair Reinaldim
Abertura: Terça-feira, 15/01, às 19h
Exposição: 16/01 a 8/02, de segunda a sexta, de 13h às 19h

26/10 - NO EMBALO DAS MINHAS PAIXÕES | Lançamento de catálogo

Release - Patrizia D'Angello

Autorretrato com Burka | Pintura (2012)


Patrizia D’Angello, em sua 2ª individual no Rio, apresenta na Galeria Ibeu a mostra No Embalo das Minhas Paixões. Numa espécie de performance-paixão auto-documentada em pinturas, desenhos, fotos e projeções, a artista  estabelece um forte diálogo com a História da Arte e com a produção de imagem dos meios de massa, tornando-se, ao mesmo tempo, sujeito e objeto da própria poética. Nesse processo, problematiza o corpo e os papeis do feminino ao longo da história e sua reverberação nas sociedades contemporâneas, bem como os limites de sua própria identidade, o que transborda e o que não está.

Para Ivair Reinaldim, curador da exposição: “Num momento em que nossa fisionomia é constantemente capturada por grande quantidade de dispositivos técnicos, em que o acúmulo excessivo de imagens registradas parece não mais fundar um repertório coerente ou uma real experiência visual (para além de uma massa imprecisa de arquivos infindáveis), Patrizia D’Angello – qual Narciso frente a seu atraente espelho – apresenta em sua exposição individual um amplo conjunto de pinturas e fotografias cujo mote principal é sua autorrepresentação. Em No Embalo das Minhas Paixões retoma o procedimento de sua Olympia, referência direta tanto a uma das obras mais emblemáticas de Édouard Manet quanto aos estratagemas da representação do feminino pela arte, ampliando aqui sua investigação através da eleição afetiva de alguns interlocutores, como Diego Velázquez, Andy Warhol, Paula Rego, Cindy Sherman, Nan Goldin e Shirin Neshat, artistas e obras com quem propõe constituir um fértil diálogo. O que une essa variedade de discursos e visões de mundo, em suma, é a presença constante da imagem da artista em todos os trabalhos expostos, retratada nas mais diferentes situações, das cenas retóricas às atividades cotidianas, e a partir de um imaginário que lhe é bem particular. Nesse processo, tais imagens deixam de ser Manet, Velázquez ou Sherman para tornarem-se, finalmente, legítimos D’Angello”.

Patrizia D’Angello, vive e trabalha no Rio de Janeiro, formada em Artes Cênicas pela Uni-Rio, em Moda pela Cândido Mendes e com diversos cursos livres na EAV - Parque Lage. Entre as principais exposições estão: Novíssimos 2010 (Galeria Ibeu RJ), SAMAP (Casarão 34, João Pessoa PA 2010/2011) e Banquete Babilônia (individual Galeria Amarelonegro RJ 2011). Indicada ao Prêmio PIPA 2012.



PATRIZIA D’ANGELLO - No Embalo das Minhas Paixões
Curadoria: Ivair Reinaldim
Abertura: 25 de setembro de 2012 (terça-feira), às 19h
Exposição: 26 de setembro / 19 de outubro
Horário de visitação: segunda a sexta-feira, das 13h às 19h
Endereço: Av. N. Sra. de Copacabana, 690 2º andar - Rio de Janeiro
Tel.: (21) 3816-9473 

No Embalo das Minhas Paixões - Individual de Patrizia D'Angello


Conversa de Ivair Reinaldim com Daniela Seixas






















Ivair: Ao mesmo tempo em que a aparência das obras expostas parece sugerir uma apreensão de simplicidade de gestos e associação direta entre seus elementos, a experiência sensível das mesmas reforça a ação exaustiva e também a delicadeza de procedimentos que lhes deram origem. Como essas "tarefas rarefeitas" se materializam e são incorporadas em seu processo? Tanto a relação com a linguagem quanto a prática do desenho parecem nortear sua produção como um todo. De que modo estas duas instâncias, escrita e desenho, tornam-se importantes em seu processo de trabalho?


Daniela: Posso dizer que essas tarefas “impossíveis” são o próprio processo, por isso acabei resolvendo por fim acolher a exposição no nome Tarefas rarefeitas.

A exaustão vem junto com a tentativa e a impossibilidade. A impotência para mim é bonita e sutil. É sobre minha escala diante da noite, do deserto imaginado, de um pequeno inseto ou de uma folha de papel.

O peso de uma nuvem de pedra cabe na palma da mão (trabalho Precipitação). Por isso importam essas incoerências soltas pelo mundo, quase bobas. O disfarce das palavras, das atmosferas entre eles e também o ato de desenhar. O desenho que anda por aí é como o ímã de tudo, da vibração dos poros e das impotências inúteis: como a de não ser capaz de ultrapassar um papel, chover pelos poros ou inverter a gravidade de uma palavra.

Chamo de tarefas pois são uma incumbência de “tomar conta do mundo” e isso pode ser exaustivo. E a partir de então qualquer evento passa a ser igualmente importante, uma formiga atropelada ou uma tempestade solar ou uma palavra que não cabe em si. Parece obvio, mas a escala dos acontecimentos pode se modificar a todo instante e surpreender.

Gosto de pensar na ideia de discreta vigília, pois é uma ação frágil e radical. É bem provável que esse seja o procedimento importante. A materialidade é essa sensação, passando por articulações muito próximas entre a necessidade de desenhar e escrever.

Cada um dos trabalhos é uma tentativa de devolver a provocação do silêncio das palavras e do pensamento-desenho, que logo passa e por isso mesmo continua e continua de diferentes maneiras.

E toda umidade que há no meio | Texto crítico de Ivair Reinaldim para Daniela Seixas

Daniela Seixas / E toda umidade que há no meio

A paisagem não está fora; ela nos atravessa e se constitui a partir de nossa experiência: eis como podemos apreender a exposição de Daniela Seixas. É através da linguagem, no sentido estendido e corporificado das palavras, que a artista reúne um conjunto de proposições capaz de fornecer um panorama insólito e fragmentado do mundo: uma atmosfera rarefeita; porém, na eminência de sua condensação. São projetos que se realizam enquanto possibilidades de encontro poético entre aquilo que a artista materializa por meio de objetos, desenhos, vídeos e ações e a disposição subjetiva do espectador para atribuir significados a sua experiência imediata. Encontros que reforçam o momento pelo qual essas vivências podem dar sentido ao existir.

Há alguma fragilidade nessas proposições: são frágeis pelo fato de se constituírem, em sua maior parte, por gestos e associações simples, por aproximações aparentemente ocasionais. Mas ao mesmo tempo evidenciam estar alicerçadas tanto na justeza conceitual/poética da artista, na disponibilidade para com a ação que se propõe a realizar/registrar, quanto na capacidade imaginativa do público, em sua dimensão sensível para com o trabalho de arte. São inclinações que se vinculam no momento em que a obra ‘acontece’, por meio de experiências subjetivas – da artista e do público – suscetíveis de serem compartilhadas. Talvez também resida aí o ponto de contato entre os trabalhos expostos: a necessidade de constituição de um terreno comum, transformando qualquer isolamento inicial em lugar (res)significado.

‘E toda umidade que há no meio’ constitui-se como um breve inventário. Mediante a constatação de que os fenômenos se sucedem, extinguissem-se e repetem-se, enfim, possuem uma duração, é possível elencá-los no que possuem de mais particular. Desse modo, ao referir-se a uma ‘discreta vigília’, Daniela Seixas reforça um estado de atenção, de espera sutil diante deste arranjo, reforçando a importância de certa temporalidade psicológica. Sobressai-se um inventário de gestos que marca a tentativa de apreensão das coisas, como se cada ato de aproximação e de constituição de um olhar compreendesse um momento de qualificação da experiência cotidiana do mundo.

Ivair Reinaldim, agosto 2012


Postigo para a noite | Postigo, carbono e papel | 32 x 22,5 cm (2012)

Terra Fabricada | Texto crítico de Ivair Reinaldim para Bianca Bernardo

Bianca Bernardo / Terra Fabricada

“Tenho em mim todos os sonhos do mundo”, Fernando Pessoa

A dimensão que envolve o projeto Terra Fabricada de Bianca Bernardo é aquela do confronto com as próprias origens. Mas toda origem é escolha deliberada – por necessidade, eleição afetiva ou desejo –, disposição que visa identificar um lugar, um estar no mundo. Por isso, há nesta exposição algo que extrapola a referência a um local específico, demarcando muito mais uma propensão, um estado de espírito, um querer. Trata-se de um processo com forte apelo ficcional: o filme documental homônimo, que a artista concebe entre Brasil e Portugal, é representação tanto quanto o conjunto de subjetivações que lhe serviu de suporte, uma colagem/montagem de fragmentos diversos, que agrega lembrança familiar, memória induzida e imaginação pessoal.

Ao recordar as histórias das terras distantes de Trás-os-Montes, de onde provieram sua mãe e avó, a artista desenvolveu uma percepção de sua existência que engloba o entendimento daquilo que sua família registrava com certa melancolia. Ocorre já nesse processo uma mediação entre a memória cristalizada do que havia sido a experiência daquele local, no momento em que o mesmo passava a fazer parte de um passado distante, e o modo como se dava a apreensão de um lugar imaginário, paradoxalmente próximo, para quem só o conhecia através dessas histórias. O filme narra uma viagem iniciática, um movimento contrário, não em direção às raízes, mas no sentido de um reatamento: visa reestabelecer uma identidade afetuosa constituída por diferentes camadas de tempo, fragmentadas e sobrepostas, e unidas por um propósito poético. Bianca Bernardo costura esses tempos, revisita o lugar imaginário da sua infância, confrontando-o com esse outro local, real, mas ao mesmo tempo depositário de lembranças daqueles que dali partiram.

A exposição, em sentido amplo, é registro da passagem do tempo, tempo que impregna todas as coisas com uma espessura densa. Na mão que percorre a superfície do papel, no vai-e-vem das ondas do mar, na impregnação das montanhas de sal, na cantiga melancólica da infância, no giro cíclico do desenrolar das histórias contadas e sentidas, todas essas narrativas se repetem, retornam à superfície e reforçam um constante desejo de ressignificar a experiência. Nesse processo, novos sentidos passam a ser somados àqueles que foram cuidadosamente preservados na memória, pois esse lugar, enquanto encontro de cruzamentos, só pode ser aquele que se constrói no próprio sujeito. As terras voltam a ser cultivadas.


Ivair Reinaldim, agosto 2012


 Still do filme Terra Fabricada (2012)

Bianca Bernardo e Daniela Seixas | Exposições individuais simultâneas na Galeria Ibeu

A Galeria de Arte IBEU inaugura no dia 21 de agosto, às 19h, duas individuais simultâneas das artistas Bianca Bernardo e Daniela Seixas, com curadoria de Ivair Reinaldim. As exposições ficarão abertas ao público de 22 de agosto a 14 de setembro, com visitação das 13h às 19h, de segunda a sexta-feira, na Av. N. Sra. de Copacabana, 690 | 2º andar. A entrada é franca.

Bianca Bernardo e Daniela Seixas foram premiadas pela Comissão Cultural do Ibeu pelos melhores trabalhos do Salão de Artes Visuais Novíssimos, realizado em 2011 - Bianca Bernardo pela obra “Silêncio” e Daniela Seixas pela obra “Do mar condensado nas cartas”. O prêmio é a exposição individual que as artistas inauguram no próximo dia 21.


BIANCA BERNARDO apresenta a individual “Terra Fabricada” composta por desenhos, objetos e o filme Terra Fabricada, realizado este ano entre Brasil e Portugal durante o período de residência artística no LARGO, em Lisboa.

“Terra Fabricada começou na minha infância, nas imagens que construí a partir das histórias e cantigas portuguesas que escutava da minha mãe e avó. Cresci com a estranha sensação de ter a própria terra como pátria estrangeira. Como forma-se um povo? Até onde vai o meu território? Por que as pessoas acreditavam que o mundo terminava na linha do horizonte? Sempre desejei fazer o caminho de volta, encontrar a minha aldeia do outro lado do oceano. A aldeia real seria parecida com aquela ficção criada pela minha imaginação? Quando pequena, perguntei uma vez à mãe o que era uma aldeia. Ela respondeu: uma aldeia é uma cidade muito pequena”, diz Bianca Bernardo.

Ivair Reinaldim, crítico de arte e membro da Comissão Cultural do Ibeu, diz no texto de apresentação da exposição de Bianca Bernardo: “A dimensão que envolve o projeto Terra Fabricada de Bianca Bernardo é aquela do confronto com as próprias origens. Mas toda origem é escolha deliberada – por necessidade, eleição afetiva ou desejo –, disposição que visa identificar um lugar, um estar no mundo. Por isso, há nesta exposição algo que extrapola a referência a um local específico, demarcando muito mais uma propensão, um estado de espírito, um querer. Trata-se de um processo com forte apelo ficcional: o filme documental homônimo, que a artista concebe entre Brasil e Portugal, é representação tanto quanto o conjunto de subjetivações que lhe serviu de suporte, uma colagem/montagem de fragmentos diversos, que reúne lembrança familiar, memória induzida e imaginação pessoal”

Bianca Bernardo nasceu e trabalha no Rio de Janeiro. É mãe do Bento, artista visual, mestre em Artes pelo PPGARTES-UERJ, artista-educadora do Núcleo Experimental de Educação e Arte do MAM-Rio. Entre as principais exposições e prêmios estão: Prêmio 47º Salão de Artes Plásticas de Pernambuco (Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães, Recife, 2012), Bienal SIART (Museu Tambo Quirquincho, La Paz, Bolívia, 2011), Prêmio Novíssimos (Galeria Ibeu, Rio de Janeiro, 2011), 12º Salão Nacional de Artes de Itajaí (Itajaí, Santa Catarina, 2010).


DANIELA SEIXAS apresenta sua segunda individual, intitulada “E toda umidade que há no meio”, composta por desenhos, objetos, vídeos e palavras. Nos trabalhos realizados pela artista em 2010-2011 e 2012 a artista parte do enfrentamento da experiência com o desenho, com as palavras e suas atmosferas. Seja no gesto incessante que expõe a proximidade entre o risco e o mar ou nas surpresas das trocas invisíveis e desenhos no mundo. A artista reúne os trabalhos sob aquilo que chama de uma “discreta vigília e tentativa”.

No texto de apresentação da exposição de Daniela Seixas, Ivair Reinaldim diz: “A paisagem não está fora; ela nos atravessa e se constitui a partir de nossa experiência: eis como podemos apreender a exposição de Daniela Seixas. É por meio da linguagem, no sentido estendido e corporificado das palavras, que a artista reúne um conjunto de proposições, capaz de fornecer um panorama insólito e fragmentado do mundo: uma atmosfera rarefeita; contudo, na eminência de sua condensação. São projetos que se realizam enquanto possibilidades de encontro poético entre aquilo que a artista materializa por meio de objetos, desenhos, vídeos e ações e a disposição subjetiva do espectador para atribuir significados a sua experiência imediata. Encontro que reforça o momento em que nossas vivências dão sentido à existência”.

Daniela Seixas nasceu e trabalha no Rio de Janeiro. Mestre em Artes Visuais pelo PPGARTES- UERJ, entre as principais exposições estão: A riscar (Paço das Artes, SP – 2011), Prêmio Novíssimos (Galeria Ibeu, RJ – 2011), Prêmio EDP nas Artes (Instituto Tomie Ohtake, SP – 2010), “entre-vistas” (Programa Aprofundamento do Parque Lage, RJ – 2010) e Tração (CCJF, RJ – 2010).

2012 | Lançamento do Livro EDIFÍCIO LÍBANO, de Leila Danziger


Terça-feira, 27 de março, às 19h - Lançamento de livro + conversa com a artista
e Ivair Reinaldim, curador da exposição Edifício Líbano na Galeria Ibeu


O livro reúne os trabalhos expostos na mostra Edifício Líbano, de Leila Danziger, em cartaz na Galeria Ibeu até 30 de março. “O Edifício Líbano é um minarete sobre Copacabana”, como escreve Ivair Reinaldim, curador da mostra, em seu ensaio, que entrelaça suas reflexões à escrita de Clarice Lispector, em A Paixão segundo G.H. O livro conta ainda com um texto da artista, que apresenta aspectos de seu processo de trabalho, assim como dois ensaios de imagens e textos, realizados a partir de objetos encontrados nos arquivos de seu pai: De Charlottenburg a Copacabana e Pequenos Impérios. Os registros fotográficos dos trabalhos na galeria são de Wilton Montenegro e a delicadeza e o rigor do design gráfico devem-se à Lygia Santiago.

Entrevista com Leila Danziger - Por Ivair Reinaldim


(Ivair Reinaldim) 1. Leila, em 1991, você participou da coletiva Novíssimos, tradicionalmente organizada pelo Ibeu. Que dif
erenças (ou mesmo semelhanças) percebe entre a jovem artista daquele primeiro momento e a que hoje retorna à Galeria?

(Leila Danziger) Tinha retornado a pouco da graduação em artes que fiz na França. Naquela época, sem internet e Skype, vivi de fato uma breve (mas muito intensa) experiência de exílio voluntário, porque fiquei quatro anos sem vir ao Brasil, trocando cartas que demoravam a chegar. Na volta, participei de tudo o que se oferecia: Novíssimos, Projeto Macunaíma (Funarte), Programa de Exposições do Centro Cultural São Paulo, e diversos salões regionais e nacionais. Também foi quando entrei para o mestrado em História Social da Cultura, na Puc-Rio. Buscava assim construir diálogo e interlocução. Mas não encontrei muito eco para as questões que tinha naquela época. Falar sobre quem eu era e quem eu sou, ou melhor, sobre quem me torno, hoje, agora, continuamente, implicaria comentar também o meio de arte no Rio de Janeiro e no Brasil, porque o artista é um ser sempre em relação (mesmo quando aparentemente solitário). Diria simplesmente que hoje sou muito mais feliz com a interlocução que construí e venho construindo. Creio que conquistar parcerias e interlocução de qualidade é o que há de mais vital para a longevidade do artista. Os diálogos que comecei a viver nos últimos anos parecem reafirmar e problematizar antigos interesses que eu descobria ainda quando estudava na França (sempre a questão da memória, do documento, do arquivo). Não posso deixar de mencionar meu querido amigo e colega Luiz Cláudio da Costa, com quem estabeleço trocas que são uma alegria e um privilégio. E também Sheila Cabo Geraldo e outros colegas do Instituto de Artes da Uerj, além de alunos de graduação e pós-graduação que se transformam em interlocutores preciosos.



2. Que relações poderiam igualmente ser traçadas entre seus trabalhos iniciais, que se constituíam a partir de práticas ligadas a procedimentos de gravação e impressão (universo tradicional da gravura artística), e sua produção mais atual, voltada para a fotografia e o vídeo?

O fio condutor de tudo é a interrogação pela memória, que é sempre construída a partir de uma perspectiva rigorosamente atual. Fiz muita gravura, mas pratiquei bem pouco a edição tradicional. A gravura me atraia pela possibilidade de estabelecer negociações entre a matriz e a impressão (como se negocia com a origem, com o passado...), e cada impressão sofria interferências e era assim diferenciada, gerando trabalhos distintos. O processo do trabalho em gravura passava por um momento de destruição quase que inevitável (e bem doloroso). Ao fim, o que me interessava era fazer uma espécie de arqueologia do próprio processo de produção: repertoriar os fragmentos e os resíduos.

Tudo o que fiz em gravura entre 1987 e 1992 ganhou o título “entre céu e ruínas”, retirado de um poema de Edmond Jabès, um poeta que eu lia muito na época. Porque a poesia rondava sempre as minhas ações. Na época eu tomava contato com o trabalho de memória da Shoah (ou Holocausto), e toda uma literatura fundamental para mim até hoje: Primo Lévi, Paul Celan, Robert Antelme, Marguerite Duras, George Perec. Esse era o subtexto dos trabalhos de então, que eram semeados por nomes (de cidades e pessoas). É verdade que uma parte da exposição no Ibeu é bem diferente mesmo de tudo o que fiz (trata-se de uma resposta precisa a uma demanda específica), mas ela também é permeada pela memória (pessoal, geracional, do bairro, da cidade).
Em relação à fotografia, creio que ela já está presente, de outra forma, em meus trabalhos com os jornais, que chamo Diários públicos. Curiosamente, nessa série, fui aproximada de artistas que trabalham sistematicamente com a fotografia. Com os Diários públicos (apagamentos seletivos feitos com jornais de diversos países - Brasil, Alemanha, Israel), o que me interessava era qualificar as imagens, conferir-lhes tempo, fazê-las vencer o esquecimento (mesmo que por pouco tempo...).

As ações de apagar os jornais me levaram ao vídeo, que compreendo sempre como a possibilidade de construir uma escritura. Na exposição do Ibeu, os dois vídeos, feitos nas janelas da frente e dos fundos de meu apartamento, procuram construir uma escritura de gestos: os dos meninos que soltam pipa nas lajes, e realizam lindas ações repetitivas, endereçadas ao alto, como que no topo do mundo; e os gestos amedrontados dos pedestres que precisam enfrentar a resistência das águas na calçada em frente ao edifício. Gosto do gesto que escapa/ desvia/ resiste às ações cotidianas.

Mas sobre as fotos do Edifício Líbano, o que me interessa mesmo é a produção da imagem, semelhante à preparação do pintor ao escolher os elementos de uma natureza morta. Acho que a matriz da maior parte das imagens na exposição é a natureza morta do tipo Vanitas. E também a pintura “Mulher à janela”, de Caspar David Friedrich, em que a personagem de costas barra a visão da paisagem (que é sugerida, mas de fato inexiste naquela pintura).




3. Além de artista, historiadora da arte e professora ligada à universidade, você possui uma produção de poesia ainda pouco conhecida. Poderia falar um pouco dessa experiência particular de escritura e como ela se relaciona com suas demais áreas de atuação?

Escrever textos que podem ser compreendidos na categoria poesia (maravilhosamente problemática) é muito recente mesmo (desde 2007). Surgiu da necessidade de escrever a partir do processo de produção em artes visuais (e não sobre o processo) e de repente adquiriu autonomia. Devo muito à escuta inteligente e generosa do Carlito Azevedo, um poeta que admiro muito e se tornou mais uma interlocução importante dos últimos anos. Vou publicar em breve, pela Editora 7Letras, um livro de ‘poesia’ (não consigo escrever a palavra poesia, sem ironia, sem aspas, sem duvidar dela, sem duvidar se me inscrevo nela...). É o gênero literário com o qual sempre tive mais intimidade, mas não me lembro propriamente de desejar escrever poesia até alguns anos atrás. É verdade que a escrita foi para mim, durante muito tempo, uma atividade constante e silenciosa. Na adolescência, eu achava que todos escreviam em seus caderninhos, secretamente, como certas práticas de higiene do corpo, que convencionamos manter em silêncio.


4. Essa exposição trata de uma vivência bastante pessoal, íntima, relacionada não só à memória familiar, mas também às negociações e processos práticos e existenciais que têm feito parte da sua experiência cotidiana. Em que momento você percebeu que seria possível compartilhar essas instâncias através dos procedimentos e da dimensão da arte? Como isso se deu?

Durante muito tempo mostrei a vista dos fundos do meu apartamento às pessoas que me visitavam e embora compartilhasse daquele assombro diante da arquitetura espontânea e tão expansiva da favela, demorei a agir. O foco do problema surgiu pela atenção aos anteparos, filtros, grades, que o edifício (e a classe média carioca de modo geral) instalou para se proteger ou simplesmente para não ver a vizinhança que crescia.

O que me interessa é o “através”, para citar um trabalho do Cildo Meirelles de que gosto muito, e, claro, as janelas, esse paradigma tão importante da pintura. Ao contrário de países frios em que as janelas devem de fato isolar e proteger o espaço da casa, nossas janelas são frágeis, uma membrana bem tênue, sem falar na nossa (con)fusão histórica entre espaço privado e espaço público. Foi quando percebi meu apartamento atravessado por todas essas questões, que surgiu a possibilidade de uma exposição (que imaginei se realizando obrigatoriamente em Copacabana).



5. Por fim, creio que a proposta poética de "Edifício Líbano" encontra-se latente em diversas possibilidades de síntese. Mas uma das mais significativas, a meu ver, está em "procurar desesperadamente reinventar o espaço da vida". Você concorda?

Sim, creio mesmo que esse é a grande tarefa da arte. In-formar, quero dizer, conferir forma às nossas relações com o mundo. Meu projeto era fazer a exposição e me mudar do Edifício Líbano, mas acabei me reconciliando com ele. Pouco antes da exposição, meu pai morreu após uma longa doença. Ele morava no 6º andar, e minha mãe quis que trocássemos de apartamento, o que para mim é interessante pelo fato do apartamento dela ser muito maior do que o meu e assim eu ter espaço para um bom ateliê dentro de casa. Acho que mesmo que um dia eu venha a me mudar do Edifício Líbano, gostaria de manter meu espaço de trabalho lá, como laboratório ideal para processar o público e o privado, a memória e as demandas do presente.



Legendas imagens (por ordem de apresentação na entrevista):

Vista da exposição - Foto: Wilton Montenegro

Entre céu e ruínas, 1991. Monotipia, colagem e grafite sobre papel, 70 x 58 cm.

Vanitas [da série Diários públicos], 2010. Carimbo sobre jornal apagado e encadernação, 68 páginas, 65 x 58 cm (aberto).

Jardins do Líbano [todos nós], 2012. Impressão digital sobre papel hahnemühle, 100 x 72 cm.

2012 | Leila Danziger - Um minarete para uma paisagem íntima

“Sob as ondas trêmulas do mormaço, a monotonia.”

Temporalidade espessa, que transcorre
vagarosamente e se consome sob o sol...


Ouvimos que ali outrora havia um jardim. As imagens persistem para comprovar essa existência. Território de Cuba no Líbano? Doce ironia do destino. Uma extinta janela cujo índice insiste em nos alertar para sua capacidade de nos dar a ver que excede todas as demais vidraças. Grades, tijolos, espelhos que se desgastam. Como negar uma realidade que o tempo não permite apagar?

Tempo este que se presentifica na imensidão das pequenas coisas, na pipa que brinca no ar, na água que escorre pela montanha e se confunde com as ondas do petit pavé, no bailado dos guarda‐chuvas que lembram um Goeldi em movimento, no mundo em miniatura da casa de bonecas que se reflete nos coloridos blocos de construção, na sobreposição de fotos de um antigo álbum de família fragmentado. A memória registra‐se na pele dessas imagens.


São as janelas que se abrem do Líbano.


(fragmentos do texto Um minarete para uma paisagem íntima, de Ivair Reinaldim)



Leila Danziger - Um minarete para uma paisagem íntima - Clique para acessar o texto na íntegra

2012 | LEILA DANZIGER - Edifício Líbano

Mirante, 2011 - Impressão sobre Duratram e caixa de luz, 40 x 30 x 12 cm


A exposição tem como centro o Edifício Líbano, construído na Rua Djalma Ulrich, em Copacabana, em 1938, e que vem se transformando, continuamente, em uma paisagem de extremos. Situado próximo à encosta do Cantagalo - entre a lagoa, a montanha e o mar – o edifício (praticamente incorporado à Comunidade do Pavão-Pavãozinho) é aqui tomado como prisma de uma reflexão poética sobre paisagem, cidade e memória. Idealizada especialmente para a Galeria IBEU, também situada em Copacabana, a mostra reúne 24 fotografias divididas em quatro séries (Mirante, Jardins do Líbano I e II e Edifício Líbano) e dois vídeos (Jardins do Líbano e No topo do mundo).


EDIFÍCIO LÍBANO | Curadoria Ivair Reinaldim
Inauguração: 6 de março (terça-feira), às 20h
Visitação: 7 a 30 de março de 2012


LEILA DANZIGER
Nasceu no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha. É pesquisadora da área de artes do CNPq e professora dos cursos de graduação e pós-graduação do Instituto de Artes da Uerj. Em 2011, viveu seis meses em Israel, onde realizou pós-doutorado na Bezalel Academy of Arts and Design Jerusalem. Graduou-se em Artes pelo Institut d´Arts Visuels d´Orléans, França, e fez parte de seu doutorado em história da arte na Universidade de Oldenburg, Alemanha. Participou de mostras em galerias e museus no Rio, São Paulo, Brasília, Berlim, Bonn, entre outras cidades. Em 2012, realizará exposições individuais na Cosmocopa Arte Contemporânea e na galeria das Cavalariças da Escola de Artes Visuais do Parque Lage.

Conversa com Gisele Camargo e Ivair Reinaldim


Nesta quinta 1º de dezembro, a Galeria Ibeu convida Gisele Camargo e Ivair Reinaldim para uma conversa sobre a exposição "A Capital", em cartaz até o dia 23 de dezembro de 2011.

O evento é gratuito e tem início às 19h.