Top Social

Mostrando postagens com marcador fernanda pequeno. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador fernanda pequeno. Mostrar todas as postagens

2012 | GATILHOS, Anton Steenbock - Texto de Fernanda Pequeno

GATILHOS
Fernanda Pequeno


O termo gatilho pode tanto dizer respeito ao disparador de armas de fogo, quanto significar remendo, gambiarra. No segundo caso, alude a consertos paliativos - feitos emergencialmente para que determinada coisa não fique sem uso - e a dispositivos lógicos ou eletromecânicos que disparam determinado trabalho ou função. Em todos os casos, o uso do vocábulo se aplica ao trabalho de Anton Steenbock: tanto no que diz respeito às intervenções urbanas - nas quais o artista compreende a urbe como um espaço de “resistência”, de atuação guerrilheira, onde as “armas” são suas ações -, quanto aos mecanismos que desenvolve. Por mais que um procedimento se nutra do outro, os segundos são o foco da presente exposição.

No imaginário brasileiro, a prática da gambiarra está ligada ao improviso, a um “jeitinho” provisório, que muitas vezes se perpetua. De qualquer maneira, a ela está ligada a precariedade de algo mal acabado, mesmo sendo essas soluções extremamente criativas. Na prática artística de Anton Steenbock, tal procedimento toma contornos gráficos bastante precisos e essa aparência de algo “arranjado” adquire outros delineamentos. Suas fiações e invenções têm engenharia, mas esses projetos ganham ares minimalistas em sua apresentação, desmistificando a noção de que precariedade necessariamente é sinônimo de mau acabamento.

Nessa primeira individual que o artista realiza no Rio de janeiro – Anton Steenbock é alemão, mas vive entre Rio de Janeiro e Berlim -, temos trabalhos de diferentes fases. Fica claro, nesse caso, que Anton não limita sua produção a um suporte ou tema, mas que concentra sua pesquisa em determinado corpus conceitual. A aparência “mambembe” de suas engenhocas, por sua vez, não é circunstancial, mas caso pensado e executado. O interesse do artista por elementos da cultura brasileira, como a referência a despachos de umbanda - bastante presentes nessa exposição - torna-o “observador participante” dessa realidade. Nesse caso, o próprio Anton é “informante”, ao mesmo tempo em que observador atento e curioso dessa cultura, que o interessa e instiga.

Se a ideia de precariedade pode ter raízes estruturais (adversidades sócio-econômicas, culturais etc.), também pode dizer respeito a opções formais, que sugerem a construção a partir de recursos limitados. Mas diferentemente da produção de artistas vinculados a uma “Estética da Gambiarra”¹, os trabalhos de Anton, por mais que se nutram de oferendas religiosas, materiais descartados, entulho, poucos recursos etc. têm uma precariedade extremamente clean, bem arranjada.

É dessa maneira que os desenhos, vídeos, fotografias e instalações que Anton Steenbock realiza são operações formais calculadas. Caderno de Notas, Cesta Básica, Desenhos Técnicos, Reza Forte, True Romance, Vela Auto-extinguível e as fotografias de diferentes séries lidam diretamente com a ideia de gambiarra, o que salienta seu caráter processual, provisório. A galeria, assim, passa a ser entendida não somente como espaço de exposição, mas como um laboratório, onde investigação e experimentação acontecem como extensões do ateliê e da rua, locais de produção do artista. E é assim que os trabalhos de Anton Steenbock funcionam como gatilhos poéticos. A eles, não apenas temos acesso como, em muitos casos, determinamos o rumo que a própria experiência irá tomar.


____________

¹ Para uma boa definição do termo, ver o Glossário de Arte Contemporânea que Guy Amado assina no site do Itaú Cultural, datado de março / abril de 2009, disponível em: http://www.itaucultural.org.br/index.cfm?cd_pagina=2720&cd_materia=861

2011 | Minhas Pequenas Vitórias - Texto crítico de Fernanda Pequeno

MINHAS PEQUENAS VITÓRIAS
Fernanda Pequeno

A opção de Júnior Suci pelo desenho é consciente, mas a seriedade de sua pesquisa não exclui o viés lúdico. O artista investiga as possibilidades gráficas contemporâneas com rigor, através de linhas tensas e vibrantes - embora não-violentas ou nervosas -, utilizando um traço descontínuo, que propõe o esfacelamento de narrativas, através de cortes em cenas construídas por ele. Sem se restringir a um único suporte, Suci tem levado as questões que lhe interessam também para outros meios, explorando, a partir de 2010, o vídeo (pela eficácia como imagem, e pela necessidade de efetivamente encenar um personagem relacionando-se com diversos objetos, e com o seu próprio corpo). Desse modo, enfatiza o caráter processual do desenho que, como um jogo, pode ser reiniciado, remontado e reencenado ad infinitum. A sua referência, assim, para além da tradição gráfica, parece ser o cinema, pois seus trabalhos oferecem closes e diferentes enquadramentos de singelas “brincadeiras” que ele realiza privadamente, sem que esse tom prosaico lhes tire a sua potência epifânica.

Não é de hoje que o jogo vem sendo explorado por suas possibilidades estéticas: assim como a arte é um excesso necessário - aquilo mesmo que diferencia o homem como ser humano -, o jogo configura-se como uma forma poética de passar o tempo, que caracteriza o indivíduo como homo ludens. Marcel Duchamp foi o primeiro a enunciar o xadrez como a obra-de-arte ideal, mas, antes dele, Charles Baudelaire havia proposto uma “Morale Du Joujou”, falando que o brinquedo representaria as ideias da infância sobre a beleza, a iniciação do indivíduo na arte. Como para o poeta francês o artista seria “homem do mundo, homem das multidões e criança”, naturalmente há um elogio dessa “infantilidade”. Partindo dessa premissa, Júnior Suci, normalmente sozinho, imagina e executa gestos, capturando-os através do desenho e do vídeo, marcando situações reais ou arquitetadas, não necessariamente realizáveis. Esse dado de fingimento - presente também nos jogadores que levam esse prazer-lazer a sério - é utilizado para enfatizar aspectos, poses, força e vitória de objetos sobre o corpo, ou interações desse consigo mesmo, na busca pelo que Júnior denomina “bem-estar”.

Nessa primeira exposição individual que Suci realiza no Rio de Janeiro, então, trazemos relações de seu corpo com objetos, tais como: penas, gelo, bolhas de sabão, copos, pregadores, ventilador, etc. As séries: erótica, “Meus pequenos talentos”, “Precisei ver meu fôlego”, "Ensaiei meu vôo", "Minhas pequenas dependências”, entre outras - presentes na Galeria de Arte Ibeu -, foram escolhidas pela delicadeza e pelo flerte com as ideias de brincadeira e busca de felicidade. Montados a partir de diálogos formais e temáticos, os trabalhos, embora sejam fragmentos de narrativas, sugerem um trajeto a ser percorrido, tal como em uma partida. Mas a grandiosidade dos pequenos gestos que o artista realiza e “registra” cotidianamente não os confina à diminuta dimensão dos papéis utilizados. Ao contrário, essa vida em miniatura, em plano-detalhe, muitas vezes soa mais reluzente do que a vida real. E se o desenho pode ser encarado como procedimento intelectual, materialização de uma ideia, por outro lado, também lida com aquilo que não está previsto. Sua função inicial de inscrição, dessa forma, dá lugar a usos imaginativos.

É nesse sentido que a caracterização que Walter Benjamin faz do grafismo como sendo horizontal, aquele que é impresso - enquanto a pintura seria vertical, aquela que se levanta -, nos faz pensar no mosaico do chão e no repouso das tumbas, por um lado, mas também nos tabuleiros de jogos e nos rabiscos a giz que nos levam ao céu, após saltos aleatórios em cima de números sobre uma perna só. Se há competição, no jogo os parceiros são fundamentais, considerados colaboradores, mesmo quando adversários. Dessa maneira, os espectadores de “Minhas pequenas vitórias” receberão alguns prêmios, confirmando que o triunfo está no prazer de jogar, muito mais do que propriamente na rivalidade ou no ganhar. Se a verdadeira vitória está em partilhar este ritual, por um instante teremos a proposição de um outro tempo: mais moroso e cheio de desejo, porque não-pragmático. E é exatamente aí que reside a sua capacidade crítica, pois nas aparentemente despretensiosas ações que Júnior Suci pessoalmente marca em pequeninos papéis, parece caber muito da intensidade da vida e da arte.

2011 | A CASA EM FESTA - Texto de Fernanda Pequeno

A CASA EM FESTA

Mrs. Dalloway, Mrs. Dalloway, sempre dando
festas para encobrir o silêncio! (Virginia Woolf)

A temporalidade da festa é de outra ordem, que não aquela corriqueira, da rotina. Lembra, por isso mesmo, a dos feriados: dias de descanso e lazer. As festas são datas especiais que requerem cenário, figurino e humor específicos, pois pressupõem alegria, sociabilidade e alguma dose de solenidade. Embora à primeira vista seja isso que encontremos, as fotografias de Flávia Junqueira demonstram o quanto de artificialidade existe nesses arranjos, já que celebrações são momentâneas. A série que a artista expõe na Galeria IBEU do Rio de Janeiro intitula-se “A casa em festa” e demonstra o que há de construção nessas cerimônias. O lugar que a ambienta aguarda por uma habitação humana, mas termina por afirmar-se extremamente cenográfico e frio. Esse espaço já fora explorado pela artista em fotografias anteriores que lidavam com o acúmulo e a memória dos objetos nele presentes. Mas na recente série, para além das associações com a ideia de aconchego e proteção que o lar pressupõe, temos latente uma nostalgia não do espaço em si, ou das coisas nele acumuladas, mas da infância, tempo-espaço de uma morada (supostamente) natural e descontraída.

Parece comum à maioria dos seres humanos certa dificuldade com o auto-enfrentamento, bem como em lidar com o silêncio e o vazio. Mas para que essa angústia não gere paralisias, busca-se o tempo inteiro preencher a “falta” - desamparo primordial presente no homem desde o nascimento - através do cultivo de projetos e do acúmulo material e de sabedoria. Por isso, evita-se constantemente ficar sozinho, traça-se metas, ama-se, estuda-se, trabalha-se, casa-se, deseja-se, converte-se, descobre-se a si mesmo, ao mundo e aos outros. Ao fazer uso de certa acidez em seus trabalhos, Flávia Junqueira toca fundo nessa ferida.

E assim, crescer se mostra doloroso, pois nos obriga a usar máscaras, imprescindíveis para viver em sociedade. Esse dado performático levaria a encenações, concessões e opções que muitas vezes são subjetivamente violentas e intimamente violadoras. Nesse sentido, as festas infantis de Flávia Junqueira enfatizam a ambiguidade do trabalho fotográfico. Os vários índices de decoração, presentes, brinquedos, doces, confetes, bonecos, balões e vestidos altamente coloridos são prova disso: em meio à profusão e ao excesso de cheiros, cores e sabores, há uma personagem desolada e, no lugar da leveza, a densidade.

Sendo assim, as seis fotografias em grandes formatos que compõem “A casa em festa” - ao colocarem a própria artista posando com um semblante melancólico em meio a um cenário de celebração - causam certo desconforto. Mas em lugar de melodramas ou de deprimir-se e deixar o espectador deprimido, sua melancolia gera fricções interessantes e inteligentes ambivalências na aceitação e na crítica dessa falta de sentido. De forma que a sedução e o brilho aparentes dessas impressões guardam, na realidade, uma dose de obscuridade.

Ao mesmo tempo, a artista se posiciona criticamente contra a ditadura (opressão) da alegria e do excesso, friccionando-os ironicamente. Pois, assim como o aniversário coroa o envelhecimento e a inauguração do ano solar, ao encerrar o inferno astral, o carnaval, por mais liberador que seja, está repleto de figuras dúbias ou arquetípicas da melancolia, como as do pierrô e as do arlequim. Essas tentativas de suspensão provisória ou de ênfase em uma alegria efêmera que em geral as festas fornecem, nada mais são que artifícios para evitarmos lidar com a solidão. Como disse Riobaldo, narrador e protagonista de Grande Sertão: Veredas: “Homem foi feito para o sozinho? Foi. Mas eu não sabia”. Assim, as encenações de Flávia Junqueira demonstram o quanto ficcionalizamos a existência para acreditarmos nessas mentiras. Porém, quando acaba a festa e encontramos seus vestígios, tudo se mostra amedrontadoramente vazio e silencioso. Mas, como convidados, somos bem-vindos dessa festa ainda imaculada. Por isso, sintamo-nos à vontade para compartilhar desse teatro e seu consequente desencanto.

Fernanda Pequeno, janeiro de 2011

2011 | A Casa em Festa - Flávia Junqueira | Release

A Galeria de Arte Ibeu inicia suas atividades de 2011 com a individual A casa em festa, de Flávia Junqueira (SP), artista selecionada pela Comissão Cultural do Ibeu (Instituto Brasil-Estados Unidos) através do Edital do Programa de Exposições Galeria de Arte Ibeu 2011. A exposição tem a curadoria de Fernanda Pequeno e será inaugurada no dia 27 de janeiro de 2011 (quinta-feira), às 20h.

A exposição A casa em festa abriga seis fotografias em grandes formatos que exibem festas insólitas e cenográficas. Elementos como presentes, doces, canudinhos, balões, bonecos e brinquedos são dispostos exageradamente em cada imagem. No interior desse acúmulo e excesso de objetos festivos, há sempre o mesmo personagem, que encontra-se cabisbaixo e solitário. O contraponto estabelecido é proposital, pois a ideia dessas imagens é apresentar momentos extremos, conflitos e estruturas de pensamentos opostas: o tema explorado liga-se ao conforto e a sedução presentes no desejo da promessa de felicidade da festa, no entanto, os elementos que a compõe são todos finitos, pois a mesma tem prazo de validade. O processo de construção das imagens de Flávia Junqueira encontra-se com a cenografia, a performance e, finalmente, com a fotografia – depois de organizar os muitos objetos cautelosamente eleitos, a artista se coloca entre eles e legitima sua presença nessa festa através do registro fotográfico.

Ainda que, em um primeiro momento, acreditemos entrar no trabalho por vias de beleza, controle, organização de elementos e cores, nos deparamos com alguns detalhes de decepção, decadência, tristeza, passado e memória, diz Flávia Junqueira.

Fernanda Pequeno, curadora da exposição, diz: “Sendo assim, as seis fotografias em grandes formatos que compõem “A casa em festa” - ao colocarem a própria artista posando com um semblante melancólico em meio a um cenário de celebração - causam certo desconforto. Mas em lugar de melodramas ou de deprimir-se e deixar o espectador deprimido, sua melancolia gera fricções interessantes e inteligentes ambivalências na aceitação e na crítica dessa falta de sentido. De forma que a sedução e o brilho aparentes dessas impressões guardam, na realidade, uma dose de obscuridade."

A mostra ficará em cartaz de 28 de janeiro a 4 de março, com visitação das 13h às 19h, de segunda a sexta-feira, na Av. N. Sra. de Copacabana, 690/2º andar. A entrada é franca.

Flávia Junqueira nasceu em São Paulo, tem 25 anos, vive e trabalha na capital paulista. É graduada em Artes Plásticas pela FAAP. Dentre as coletivas que participou, destacam-se Energias na Arte, promovida pelo Instituto Tomie Ohtake (São Paulo), em 2009, e Olheiro da Arte, no Centro Cultural Justiça Eleitoral (Rio de Janeiro) em 2010. De fevereiro a agosto de 2011 participará do Programa de Residência Artística na Cité des Arts, Paris.

2010 | NOVÍSSIMOS: Texto crítico de Fernanda Pequeno


Clique na imagem acima para acessar o texto de Fernanda Pequeno para o Catálogo da Exposição NOVÍSSIMOS 2010.